Elliott Verdier/The New York Times
Elliott Verdier/The New York Times

Teatro Châtelet, berço da vanguarda, é reaberto

Depois de uma reforma que durou dois anos e meio, o teatro em que 'A Sagração da Primavera' estreou é reinaugurado com montagem de 'Parade'

Roslyn Sulcas, The New York Times

20 de setembro de 2019 | 08h00

Os operários estavam por toda parte, no palco e nos bastidores, martelando, batendo, colando, carregando lonas e gritando: “Atenção!”. No auditório, uma equipe examinava os assentos de veludo vermelho, certificando-se de que cada um estava na posição correta. Nos palcos os artistas ensaiavam, aparentemente alheios ao caos ao redor. Isto foi uma semana antes da inauguração, na sexta-feira, 13, do Théâtre du Châtelet, um dos espaços mais famosos de Paris, que esteve fechado durante dois anos e meio para uma reforma que custou US$ 3,7 milhões. 

Em um dos saguões, uma ampla mesa foi montada para um grupo de inspetores que passou a manhã examinando todos os aspectos da reforma em que estava se decidindo a autorização oficial para a abertura do teatro. “Vai correr tudo bem”, disse Ruth Mackenzie, diretora artista do teatro. “É o que venho dizendo para todo mundo. (E estava certa, pois a comissão deu um “veredito favorável” no final da inspeção).

Ruth Mackenzie, 62 anos, é uma pessoa baixinha, incisiva e alegre. Indagadas sobre ela, as pessoas dizem sempre a mesma coisa: é um poço de energia que não aceita um não como resposta. “Artisticamente ela é destemida e uma pessoa com pensamento político e estratégico”, disse Alex Poots, diretor britânico do The Shed em Nova York, ao ser entrevistado. Na verdade, Ruth trabalhou como assessora na área de cultura e mídia para dois governos britânicos, como também administrou o Nottingham Playhouse e o Chichester Festival Theater, ambos na Inglaterra, e a Scottish Opera.

Depois de dirigir a London Cultural Olympiad, programa de eventos artísticos que acompanhou as Olimpíadas de 2012, ela foi para o Holland Festival, que dirigiu de 2015 a 2018. “Esperava que fosse um trabalho para sempre. Mas Jean-Luc Choplin, que administrava o Châtelet, sugeriu que eu me oferecesse para a função e a proposta foi irresistível”.

Choplin, que anunciou sua saída quando o teatro fechou para reforma, sugeriu que ela se unisse a Thomas Lauriot Prévost, seu número dois no Châtelet de 2006 a 2013. Embora Lauriot Prévost ocupe o cargo de diretor geral, ele e Mackenzie compartilharam todos os aspectos da liderança do teatro, do planejamento às escolhas artísticas.

“Começamos passando um dia inteiro juntos em Bruxelas”, disse ele. “Conversamos sobre nossa visão política do que o teatro deve ser dentro da sociedade, os nossos valores, o que devemos defender”. Ruth Mackenzie é a primeira britânica a dirigir uma instituição nacional francesa e a primeira diretora mulher do Châtelet desde que foi inaugurado, em 1862. Mas Christophe Girard, vice-prefeito de Paris, disse que a nacionalidade dela jamais foi questionada durante o processo de contratação.

“Acho que o fato de ela não ser francesa é útil”. A França tem suas próprias normas institucionais e culturais, disse, e Ruth Mackenzie “sabe quando não quer entender e penso que resolve muitos problemas dessa maneira. Ela sabe como usar o que seria uma fraqueza e transformá-la em força”, acrescentou.

É difícil exagerar a importância cultura do Châtelet, projetado por Jean-Antoine-Gabriel Davioud em 1862 como um dos teatros estão face a face em uma praça no centro da cidade (o outro é o Théâtre de la Ville, que também passa por uma reforma).

Foi no Châtelet que as revoluções e inovações artísticas dos Ballets Russes de Diaghilev foram vistas pela primeira vez, onde Mahler, Strauss e Tchaikovski regeram e Josephine Baker, Cole Porter e Juliette Gréco se apresentaram. Embora a principal finalidade da reforma tenha sido restaurar todos os circuitos elétricos, os equipamentos de segurança contra fogo de acordo com as normas de segurança, o teatro também passou por uma mudança visual: as molduras douradas foram refeitas, as pinturas e tetos restaurados, colocado um novo papel de parede, estátuas restauradas na fachada, pedras limpas e consertadas.

A renovação não foi a única mudança. Choplin transformou a identidade do teatro – que antes estava ligada a música clássica e óperas – com longas temporadas de musicais americanas como Rua 42 e Cantando na Chuva. E trouxe para o teatro figuras da cultura pop como Damon Albarn e David Cronenberg para dirigir suas próprias obras. Apesar das controvérsias iniciais sobre suas escolhas, elas se tornaram extremamente populares. Agora Ruth Mackenzie e Lauriot Prévost terão de impor sua própria marca no teatro.

Não será uma tarefa fácil, disse Ariane Bavelier, editora de Cultura do jornal Le Figaro. “Há sempre um drama em torno do Châtelet. Escândalos e protestos estão no seu DNA” disse ela, citando a estreia de A Sagração da Primavera de Stravinski, em 1911, e do balé Parade produzido em colaboração por Jean Cocteau, Eric Satie e Pablo Picasso, em 1917.

Mackenzie e Lauriot Prévost fizeram alusão, propositadamente, a essa parte da história do teatro na abertura do espaço e da sua temporada que começou na sexta-feira com uma versão retrabalhada do balé Parade, dirigida por Martin Duncan. Iniciando com uma procissão do lado de fora, apresentando marionetes gigantes criadas por uma companhia de Moçambique chamada Marionetas Gigantes, o show continua com O Mundo de Satie, uma série de instalações em pequena escala por todo o teatro, evocando alguns aspectos excêntricos da vida do compositor.

Toda essa parte é gratuita e então vem a parte que exige pagamento de ingresso: as performances circenses do ensemble Boîte Noire de Stéphana Ricordel e do Streb Extreme Action, uma trupe de dança de Nova York. “Sempre soube que desejava os três continentes – África, Europa, América – para inaugurar o teatro para o máximo de pessoas possível.

“Os cidadãos de Paris pagaram por este teatro e continuarão a pagar, por meio dos impostos. No que erramos em retribuir a elas pelo dinheiro oferecido?”, disse Ruth. O que eles estão recebendo na primeira temporada inclui uma versão musical de Os Justos, de Albert Camus, dirigida pelo rapper e escritor Abd Al Malik; uma produção do diretor de ópera australiano Barry Kosky do Saul de Handel; um balé de Pina Bausch pouco visto chamado Os Sete Pecados Capitais, apresentado pelo Tanztheater Wuppertal; e uma homenagem à cantora sul-africana Miriam Makeba.

Tanto Parade como Os Justos foram criados e escritos durante workshops que duraram um ano inteiro em subúrbios diferentes de Paris, baseados em comunidades que do contrário não estariam expostas ao teatro. “Começamos da maneira como pretendemos seguir”, disse Ruth Mackenzie.

Na França, acrescentou ela, o envolvimento da comunidade não é visto necessariamente como positivo. Sua observação foi repetida por Bavelier, do Le Figaro. “Minha preocupação é de que, quando você começa a misturar educação cultural com visão artística isto debilita a programação”, afirmou a jornalista. /Tradução de Terezinha Martino

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