Teatro com algemas: O que a PM queria ao censurar uma apresentação de rua em Santos?

O que a PM queria ao censurar uma peça em Santos? Que os atores aceitem calados essa página triste da história? Mas calar não faz parte da prática teatral, relembra dramaturgo

Lauro César Muniz, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2016 | 16h00

Em minha atividade profissional, enfrentei vários tipos de censura: a censura oficial federal, no tempo da ditadura, censura oficial na democracia, censura delicada, não oficial, de superiores hierárquicos, censura comercial de patrocinadores de novelas e espetáculos e, principalmente, autocensura, para salvar a pele. Mas nunca ouvi falar em censura com algemas. Até que...

Até que um jornalista do Estado (de São Paulo) me chamou atenção para uma matéria que saiu na Folha (de São Paulo)! Coisa saudável: convivem bem os dois principais jornais de minha cidade. O que importa é o fato, o leitor, principalmente se surge uma notícia bizarra, clamorosa: a Polícia Militar, em Santos, foi informada de que um espetáculo de humor popular, com jovens atores, debochava da ação da própria polícia daquela cidade:

– Comigo, não! – bradaram em coro os militares, representantes autênticos do poder público!

– A peça foi financiada pelo governo – explicou o jovem diretor!

Os policiais, plenos de brios patrióticos, não gostaram de ver seus uniformes em personagens onde as calças foram substituídas por saias! O que insinuavam com isso?!

– A comandante é uma mulher!

Pior que isso é uma bandeira brasileira hasteada de cabeça para baixo!

– “Ordem e progresso”: o lema significa agora desordem e retrocesso!?

Uma bandeira paulista acabava envolvendo o corpo de uma vítima inocente, da polícia de saias!

– Isso é subversão!

– Isso é teatro!

– A peça está proibida!

A plateia pequena (uns 50 espectadores) perplexa diante da ficção e da realidade que espelhava a ficção! A polícia provava em sua ação o que a peça discutia na bizarra fantasia.

– Uma afronta à nossa liberdade de expressão!

O jovem líder do grupo tentou juntar-se aos demais, mas foi contido com violência.

– O senhor está preso!

Ainda conseguiu livrar-se do soldado que o segurava, mas foi contido por mais três e... algemado.

Celulares surgiram nas mãos dos espectadores, que gravavam, agora, uma cena realista.

Tudo isso a matéria do jornal (na internet) descreve e mostra a ação em vídeo (de um celular) onde a mão de um soldado se coloca diante da lente. Ao mesmo tempo, vários celulares são confiscados dos espectadores e membros do grupo teatral.

– Blitz! Esse é o nome da peça. Somos contra essas ações camufladas da polícia! Por que preparar armadilhas para flagrar culpados, se a maioria é inocente?

Uma espectadora se aproximou, subiu em uma caixa de som e bradou:

– Não concordo com nenhuma palavra dita nessa comédia, mas defenderei até a morte o direito deles de dizerem o que querem!

Aplausos e vaias.

– O que a senhora quer dizer com isso?

– Voltaire falou pelos meus lábios!

A realidade superava a ficção. Todos gritavam, todos tinham o que dizer! O jovem algemado foi levado para o carro policial e os objetos de cena, também. Censura truculenta! Delegacia! O delegado agora botava ordem na discussão.

– A bandeira de cabeça para baixo...

– Que dor na alma patriótica!

– A bandeira, símbolo augusto da paz! Recebe o afeto que se encerra, em nosso peito juvenil. Querido símbolo da terra, da amada terra do Brasil! Ordem e progresso: todos nós almejamos cumprir a proposta positivista da nossa bandeira...

– ...e os meninos a viraram de cabeça para baixo!

– Como defendê-los? Melhor ainda: como entendê-los?! Gosto de teatro, disse o delegado. Vi Cacilda Becker em seu último espetáculo!

Os olhos do delegado estavam cheios de lágrimas.

– Eu mesmo fiz teatro na faculdade! E eu vibrava quando a plateia reagia, chorava silenciosamente... ou explodia em gargalhadas! Mas a bandeira... Recebe o afeto que se encerra, em nosso peito juvenil... Querido símbolo da terra, da amada terra do Brasil! Ordem e progresso: todos almejamos cumprir a proposta positivista da nossa bandeira... Sabe? Tenho simpatia por Auguste Comte... O que dizer? O teatro vive da provocação! O cenário, objetos de cena, se propõem a contribuir com a crítica das frases e mímicas dos atores. Jovens! Perplexos! Por que agrediram a bandeira? De cabeça pra baixo?

– Era o símbolo da Pátria mais à mão!

Pela primeira vez na vida fez-se silêncio no recinto daquela delegacia...

A pátria, doutor delegado, lhes pareceu estar de ponta-cabeça! Por que escolheram o caminho de pôr em dúvida a autoridade representada pelos policiais?! Há pouco tempo esses jovens do Grupo Olho da Rua foram surpreendidos por fatos gritantes da história de nosso país. Caiu a presidenta e todo seu aparelho de Estado! Não houve reação popular digna de nota. Mas houve, conscientemente ou não, uma reação, uma postura conflitada desses jovens. Calar? Discutir? Parte da imprensa e das escolas preferiu superar o impasse em silêncio. O que fazer?! O ar ficou denso, parado, os jornais escritos e falados se calaram ou se dividiram diante do fato. A TV, senhora absoluta das informações, no País, hoje, parecia estimular a paz.

– Paz ou omissão?

Onde buscar uma explicação?! Um tipo de extravaso?! No teatro! Lugar adequado! Assim agiram os moços de Santos. Subversivos e rebeldes. Teatro de Protesto! Teatro engajado, de reivindicações.

– Para aceitar meu país que deu uma guinada de 180 graus, é melhor ficar de cabeça para baixo. Assim a minha bandeira fica como eu a concebia... antes...

E a resposta à ação dos jovens veio da maneira mais violenta. Militares fardados censuraram, agiram com violência. Algemaram o líder diante do público. O que queriam esses militares? Confirmar a tese da peça dos moços? Impor que devem aceitar calados as mudanças históricas que correm nos bastidores? As mudanças que não entenderam? Para as quais não estavam preparados? Ou não participaram? Como explicar aos moços, quase meninos, que eles viveram uma página triste da nossa história? E que devem se calar diante disso?

Calar não faz parte da prática teatral.

LAURO CÉSAR MUNIZ, DRAMATURGO, AUTOR DE PEÇAS COMO SANTO MILAGROSO, DIREITA, VOLVER E SINAL DE VIDA – QUE FOI PROIBIDA PELA CENSURA NA DITADURA MILITAR

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