Sabrina Moura
Sabrina Moura

Teatro terá conto medieval, remontagens clássicas e novos autores em 2018

Peça inspirada nos 'Contos da Cantuária', de Geoffrey Chaucer, é um dos destaques da temporada

Júlia Corrêa, O Estado de S.Paulo

16 Dezembro 2017 | 16h00

Se a variedade de adaptações de peças de Shakespeare é quase regra na agenda teatral paulistana, o público pode aguardar, já para a abertura da programação de 2018, a montagem da obra de um nome precursor do bardo e bem menos explorado nos palcos daqui: Geoffrey Chaucer (1343-1400), autor considerado o fundador da literatura inglesa. 

Será uma das narrativas medievais de seus Contos da Cantuária – tidos como a primeira grande obra no vernáculo – que ganhará encenação no fim de janeiro, no Sesc Bom Retiro. Sob comando do diretor Amir Haddad, Maitê Proença será protagonista de A Mulher de Bath, cujo enredo gira em torno de uma viúva libertária que relata casos de sua vida durante uma peregrinação religiosa. 

Foi a atriz, aliás, quem teve a ideia de encenar a obra, após ter tido contato com a edição lançada em 2013 pelo selo Penguin-Companhia. E aí é que reside o ineditismo da montagem. A tradução, assinada por José Francisco Botelho, fez de um texto complexo algo mais palatável para o leitor brasileiro moderno – o que inspirou Maitê a convidar Haddad a se debruçar sobre uma obra desprovida de características teatrais. 

+++Como a internet influencia o teatro?

Veteranos. Shakespeare, de fato, não ficará de fora da agenda. Prevista também para janeiro, no Sesc Ipiranga, a adaptação Romeu e Julieta 80, dirigida por Marcelo Lazzaratto, terá um detalhe inusitado: serão os octogenários Renato Borghi e Miriam Mehler que darão vida ao jovem casal protagonista da tragédia.

Chegando também aos 80 anos, Jô Soares promete voltar aos palcos em 2018. Ele está finalizando a tradução do texto e, a partir de maio, vai dirigir e estrelar a peça A Noite de 16 de Janeiro. Publicada em 1934 pela escritora e filósofa russo-americana Ayn Rand, a obra já recebeu uma montagem por aqui em 1949, no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), com direção de R.H. Eagling e elenco liderado por Paulo Autran. Agora, será no Tuca que o público poderá acompanhar a trama do julgamento de uma mulher acusada de matar o marido. A plateia, aliás, é convidada a participar do júri e, assim, cada sessão pode ganhar um final diferente, revela o produtor Rodrigo Velloni. 

Outra veterana que estará a todo vapor é a atriz Nathalia Timberg. Após ter realizado, em 2017, apenas algumas sessões especiais de Chopin, ou o Tormento do Ideal, peça dirigida por José Possi Neto, ela voltará a dar vida ao compositor, ao lado da pianista Clara Sverner, em temporada a partir de fevereiro no Teatro Porto Seguro. Mais tarde, no segundo semestre, promete dar início às comemorações de seus 90 anos com a peça Através da Íris, na qual assumirá, a convite do autor Cacau Hygino, uma personagem bem mais pop: a estilista americana Iris Apfel.

Novos nomes. Uma safra de autores contemporâneos pouco conhecidos no Brasil também ganhará montagens em 2018, caso do americano Rajiv Joseph e do franco-libanês Wajdi Mouawad. A obra do primeiro poderá ser desbravada a partir de 13 de janeiro, no Teatro Raul Cortez, na peça Os Guardas do Taj, dirigida por Rafael Primot e João Fonseca.

Em cena, os globais Reynaldo Gianecchini e Ricardo Tozzi darão vida a dois guardas imperiais incumbidos de proteger o Taj Mahal. Na trama, ambientada em 1648, os dois são proibidos, porém, de olhar para o esplendor da construção e, além disso, encarregados de executar uma missão arbitrária imposta pelo imperador. 

“A importância do texto ser montado hoje é que ele fala muito sobre o quanto nós devemos obedecer ou questionar a ordem estabelecida pelos poderosos. A peça é totalmente apartidária, mas tem uma metáfora maravilhosa para o momento”, explica Primot, responsável também pela tradução e pela adaptação da obra.

O nome de Mouawad talvez soe um pouco mais familiar para o público, uma vez que sua produção já ganhou duas montagens por aqui: a premiada Incêndios, de 2014, estrelada por Marieta Severo, e Céus, de 2017, que reestreia em janeiro no Teatro Vivo. Ambas tiveram direção de Aderbal Freire-Filho e foram idealizadas pelo ator Felipe de Carolis, que tem os direitos de sua obra no Brasil. E é para o segundo semestre que Carolis promete a estreia de mais uma peça do autor, Sede, que, desta vez, terá direção de Roberto Alvim. “Essa é a única comédia do Wajdi. A partir da história de dois amigos, fala da falta de estímulo e de confiança na potência dos jovens”, adianta o ator, que estará no elenco ao lado de Eduardo Sterblitch e Louise d’Tuani.

Formato em alta. Em estilos diversos, os musicais ganham cada vez mais força em São Paulo. Segundo dados divulgados pela produção de Les Misérables, que acaba de encerrar temporada de nove meses no Teatro Renault, 345 mil pessoas assistiram à montagem da obra de Victor Hugo.

Para 2018, antes da estreia de outras grandes produções previstas para este ano, um espetáculo mais modesto, dirigido por Sérgio Maggio, chega ao CCBB. Com nomes conhecidos da música brasileira, como Elisa Lucinda e Ellen Oléria, L, o Musical promete abordar temas em voga, como o feminismo e o amor entre mulheres.

Também no formato, o diretor Rafael Gomes tem planos de abordar a trajetória de Elza Soares, ícone da MPB, após uma sensível incursão na música erudita, em 2016, em peça sobre a violoncelista Jacqueline du Pré. Enquanto não são revelados detalhes desse novo trabalho, o público tem mais uma chance de ver outra peça dirigida por ele. Com Maria Luisa Mendonça e Eduardo Moscovis, Um Bonde Chamado Desejo, adaptação do clássico de Tennessee Williams, faz nova temporada a partir de 19 de janeiro, no Tucarena.

Panorama. Consolidada no calendário da cidade, a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp) chega, em março, à quinta edição. Um dos espetáculos da programação será o resultado de uma residência artística que a encenadora alemã Susanne Kennedy vai conduzir, a partir de fevereiro, com oito artistas brasileiros, baseada em sua pesquisa sobre a obra do poeta e crítico americano Kenneth Goldsmith. 

Mais conteúdo sobre:
teatro

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.