Tectonismo eleitoral em Albion

Telegênico, articulado e com a serenidade dos azarões, Nick Clegg tumultua as apostas para as eleições britânicas

Sérgio Augusto

01 de maio de 2010 | 07h56

O vulcão Eyjafjallajoekull ainda assustava o norte da Europa quando um novo cataclismo surpreendeu a velha e pérfida Albion: um abalo sísmico do bem, uma rearrumação tectônica na litosfera política da Inglaterra, que, se batizada à maneira dos furacões, entrará para a história com o nome de Clegg ou Nick.

 

Nick (de Nicholas) William Peter Clegg, ou simplesmente Nick Clegg, 43 anos, é o líder do Partido Liberal Democrata e seu candidato a primeiro-ministro nas eleições de quinta-feira. Ninguém dava nada por ele até pouco tempo atrás. Em quatro semanas, transformou-se na grande estrela política do país. Mais do que isso, no fiel de uma balança que não para de oscilar há 26 dias; sempre a seu favor, mesmo quando as pesquisas o apontam em segundo lugar, e sempre desfavoráveis a Brown, mesmo quando elas... well, well, pesquisas têm relegado o atual primeiro-ministro à terceira colocação.

 

Na primeira semana de abril, tudo indicava que os conservadores (tories), representados por David Cameron, sucederiam, com os pés nas costas, ao desmoralizado Gordon Brown, quebrando uma hegemonia trabalhista que já dura 13 anos. Clegg? Não pagaria placê. Na noite do dia 6, o primeiro abalo sísmico: o líder dos liberais jantou Brown e Cameron num debate televisivo, o primeiro da história da política britânica.

 

Telegênico, articulado, carismático e com a superior serenidade dos azarões, Clegg tirou partido da TV como John F. Kennedy o fizera, meio século antes, naquele histórico debate com Richard Nixon - e subiu, de cara, 8 pontos nas pesquisas de intenção de voto. Sem rodeios ideológicos, vendeu seu peixe (uma política fiscal mais justa, reforma profunda nos sistemas educativo, econômico e político) e guardou a última bala para o boa-noite: "Se você se cansou do trabalhismo, não admite votar num conservador e não aguenta mais o bipartidarismo, vote em mim".

 

E a cleggmania tomou conta da ilha. "É o Obama britânico", martelaram os marqueteiros. A comparação procede, em parte. Clegg também é uma novidade, uma surpresa e, na medida em que incorporou a internet à sua máquina de propaganda, um inovador. Mas não custa lembrar que as campanhas para se chegar à Casa Branca duram meses, são maratonas para fundistas, e não para velocistas, como as campanhas para se chegar ao número 10 da Downing Street.

 

Peter Mandelson, coordenador da campanha trabalhista, desdenhou a montante do candidato liberal: "Essa lua de mel vai durar pouco". O namoro, porém, persiste. Pelas pesquisas realizadas após o último debate, quinta-feira à noite, Clegg tem a seu lado 32% do eleitorado, 7% a mais que Brown. E pensar que os trabalhistas encheram sua bola certos de que ele roubaria votos dos conservadores. Clegg ainda perde para Cameron, mas por muito pouco, e algumas projeções o colocam em primeiro lugar.

 

Qualquer que seja o resultado, Clegg é o único dos três candidatos autorizado a cantar vitória antes do tempo, já que sem apoio dos liberais nenhum dos partidos que há quase um século se revezam tediosamente no poder conseguirá a maioria absoluta necessária à governabilidade. Não é apenas o futuro político de conservadores e trabalhistas que está nas mãos dos liberais, mas também - e principalmente - o futuro do sistema bipartidário britânico.

 

Os tories até que fizeram a coisa certa: baixaram o tom de voz, afrouxaram a carranca, desafivelaram a arrogância, elegeram um líder jovem, tentaram modernizar-se, flexibilizaram algumas de suas mais intransigentes plataformas, aproximaram-se dos verdes. Nessa nova embalagem, ampliaram seu eleitorado. Até que perderam o crachá de "partido da mudança" para o Liberal Democrata. Apavorados com a concorrência, desencavaram o fantasma do continuísmo (uma eventual coalização dos liberais com os trabalhistas pode assegurar mais um mandato para Brown), que, como provam as pesquisas, não só não derrubou Clegg como ainda obrigou alguns tories a prometer discutir mudanças no sistema eleitoral, vale dizer o fim do bipartidarismo.

 

Muito esquisito o sistema eleitoral britânico. Só funciona bipartidariamente. Se uma terceira força partidária toma corpo e conquista mais votos que uma das forças hegemônicas, a litosfera política entra em ebulição. Nas eleições anteriores, os liberais ficaram na rabeira. Em 2005, eles conseguiram 22% dos votos, mas apenas 9% das cadeiras. Com 35% dos votos, os trabalhistas levaram 55% dos assentos. Os conservadores, apoiados por 32% do eleitorado, tiveram direito a apenas 30% de cadeiras. Nas eleições deste ano, a correlação de forças mudou. Mas as regras do jogo continuam as mesmas.

 

Como as antigas divisões da libra esterlina, o sistema político britânico é ininteligível - além de inadequado aos conceitos mais atualizados, por assim dizer, de democracia e representatividade. Se os três partidos que disputam as eleições de quinta-feira obtiverem em torno de 30% dos votos, cada um, os trabalhistas conquistariam, aproximadamente, 300 cadeiras no Parlamento, os conservadores cerca de 200, ficando os liberais com mais ou menos uma centena. Brown, ao que parece, não chega aos 30%. Mesmo assim, poderá sair-se "vitorioso".

 

"Se Brown está em terceiro lugar nas pesquisas, como pretende ser primeiro-ministro?", cobrou Clegg, depois do último debate. Talvez tenha sido um indício de que os liberais, por coerência, não se sentem muito à vontade para aceitar uma coalização com os trabalhistas. Como, também por coerência (e para preservar sua sobrevivência política), os liberais deverão evitar aliar-se aos tories, adeus maioria absoluta. Diante desse quadro, pouco importa quem vença e a rainha convide para formar um novo governo. Será um inferno morar no número 10 da Downing Street.

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