Tefaf lança semente no novo mundo e mira mercados além da Europa

Tefaf lança semente no novo mundo e mira mercados além da Europa

Feira que ocorreu na Holanda aponta novos caminhos para o mercado de arte

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2018 | 16h00

Um novo tema emergiu na mais exclusiva entre as feiras internacionais de arte, a Tefaf Maastricht, o da adaptação do mercado às regras do comércio digital. Embora ainda seja pequena a adesão das galerias às vendas online (20% dos marchands sobrevivem sem intenção de aderir), é inevitável que elas se adaptem, advertiu, num simpósio sobre colecionismo promovido pela Tefaf, o presidente do Conselho da feira holandesa, Nanne Dekking. Em entrevista exclusiva ao Estado, Dekking revelou que, embora esse engajamento digital seja ainda pequeno, ele cresce 18,8% ao ano, registrando uma expansão considerável nas vendas. Mas admitiu que temas como confiança e transparência estão merecendo das autoridades a criação de mecanismos legais para proteger os compradores.

Jovens colecionadores, habituados a organizar suas vidas por meio eletrônico, revelam mais ousadia e menor temor diante de uma obra de arte rara, o que não se aplica aos colecionadores mais velhos. E a Tefaf Maastricht é conhecida sobretudo por objetos únicos e antigos cujo atestado de autenticidade depende de um departamento exigente que não permite às galerias expor peças sem a devida documentação de origem. A galeria Rupert Wace, por exemplo, colocou à venda na última Tefaf Maastricht uma escultura grega do século 3 a.C, garantido sua proveniência da coleção do professor J.A. Jerichau (1816-1883). O colecionador G.A. Sadolir comprou-a dos herdeiros de Jerichau em 1884 e, dessa data em diante, coube ao galerista Wace fornecer os documentos de sua origem.

Entre outras raridades da Tefaf Maastricht deste ano havia um exemplar em perfeito estado de conservação da primeira edição em árabe de As Mil e Uma Noites, publicado em 1835, a principal peça oferecida pelo antiquário Stéphane Clavreuil. Como garantir sua origem? Nesse caso, a relação de confiança entre marchand e colecionador vem em primeiro lugar, mas certamente o aval da Tefaf Maastricht é decisivo na hora da compra. Isso vale igualmente para as obras modernas, como as três telas de Morandi (todas dos anos 1950) à venda na feira (ao preço médio de 2 milhões de euros cada).

É mais fácil atestar a autenticidade quando se trata de obras europeias. Mas como fazer isso com obras do mercado latino, por exemplo? Muitas vezes são galerias do mercado secundário (de revenda) que colocam essas peças à venda. A uruguaia Sur, por exemplo, ofereceu telas de Volpi que foram repassadas por uma galeria brasileira. Nesse caso, o catálogo raisonné do artista é a garantia de sua autenticidade. Mas, e no caso de outros modernos e contemporâneos? 

“Isso explica nosso cuidado em trabalhar prioritariamente com mercados com os quais estabelecemos íntimas relações, como o norte-americano, com o qual realizamos duas feiras por ano”, justifica Nanne Dekking, referindo-se às duas edições anuais da Tefaf New York.

Dekking desconhece São Paulo ou as feiras brasileiras, mas não descarta a possibilidade de uma futura colaboração. “Começamos, por razões óbvias, com nossos colaboradores mais íntimos, que já participam da Tefaf Maastricht”, referindo-se às galerias latinas (a Sur e a Leon Tovar) que marcam presença anual na feira holandesa.

As oportunidades crescem, considerando a participação em maior número de artistas modernos e contemporâneos. “Não que os antigos mestres estejam sendo substituídos pelos novos para agradar aos colecionadores mais jovens”, adverte o diretor Nanne Dekking. Com efeito, é só passar os olhos pelos highlights da Tefaf Maastricht 2018 para atestar que os 'old masters' ainda constituem maioria (onde mais seria possível comprar uma Anunciação do pintor Giovanni Batista Salvi, do século 17 ou gravuras de Rembrandt?).

Por outro lado, a Tefaf não despreza a mudança de orientação dos ventos e do capital, adaptando-se ao gosto dos novos colecionadores, um pouco mais ecléticos, digamos, que os da velha geração. Isso explica a busca por designers latinos (com destaque para os móveis do baiano Zanine Caldas) ou o esforço para encontrar pecas asiáticas realmente raras. Os compradores asiáticos, garante Dekking, continuam comprando na Tefaf. Planos para uma Tefaf asiática? “Quem sabe?”, acena Dekking.

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