Joan Marcus
Joan Marcus

Temas políticos tomam os palcos na atual temporada da Broadway

Peças falam sobre a Constituição, racismo, homofobia e fake news

The Economist

20 Outubro 2018 | 16h00

Em uma época na qual o noticiário é dominado por heróis, vilões, grandes revelações e decisões drásticas, o público certamente vai se deparar no teatro com ecos dessas tendências. No entanto, na temporada que está começando agora, a Broadway aborda a política de um modo bastante inusitado. 

O pacote inclui peças sobre racismo e justiça, como American Son e To Kill a Mockingbird (O Sol é Para Todos, baseada no romance homônimo de Harper Lee); sobre amor homossexual e vergonha, como Torch Song Trilogy (que foi exibida nos cinemas brasileiros como Essa Estranha Atração), The Prom e Choir Boy; sobre ganância e ambição, como Glengarry Glen Ross (adaptada para o filme Sucesso a Qualquer Preço); sobre boatos, informações distorcidas e “fake news”, como Network (adaptada do filme Rede de Intrigas) e Ink; além de um espetáculo a respeito do destino melancólico de um governante fútil que é sabotado por seu círculo mais próximo, a tragédia Rei Lear, de William Shakespeare. 

“O teatro tem uma enorme responsabilidade nesse momento”, afirma Leigh Silverman, diretora de The Lifespan of a Fact (A Duração de um Fato, em tradução livre, adaptada do livro homônimo publicado em 2012), uma nova peça sobre a relação entre precisão factual e verdade, que estreou nessa quinta-feira, 18, no Studio 54, na Broadway. 

Silverman conta que foi atraída por The Lifespan of a Fact porque o espetáculo aborda questões atuais como os deveres morais da arte, a importância dos pequenos detalhes numa história maior e a frágil natureza da credibilidade. Além disso, é muito engraçada. 

Escrita por Gordon Farrell, Jeremy Kareken e David Murrell, a peça dramatiza o debate verídico entre John D’Agata, um escritor aclamado que tem uma noção subjetiva da verdade, e Jim Fingal, um estagiário de uma revista que tem como tarefa verificar fatos de um ensaio que D’Agata escreve sobre o suicídio de um adolescente em Las Vegas. 

As complicadas discussões entre os dois sobre os detalhes do texto, que se estenderam por vários anos e geraram um livro em coautoria, parecem pouco apropriadas para o palco. No entanto, a peça – que tem em seu elenco o ator Bobby Cannavale no papel do ensaísta, Daniel Radcliffe como o impertinente checador de fatos e Cherry Jones como a editora do livro de ambos – é provocadora e divertida. 

A história tem como pano de fundo uma publicação em crise. As vendas de anúncios estão caindo, os assinantes estão morrendo e um processo de “agilização” editorial extinguiu o antigo departamento de checagem de fatos. 

Embora a escrupulosa pesquisa de Jim se transforme em obsessão, ele é o centro moral da peça. Sua afirmação de que mentiras inocentes não apenas enfraquecem a argumentação de John, mas “corroem a confiança da sociedade em si mesma”, foi aplaudida entusiasticamente numa recente pré-estreia. 

O espetáculo What the Constitution Means to Me (O Que a Constituição Significa para Mim, em tradução livre), dirigido por Heidi Schreck, que está atualmente em cartaz no palco off-Broadway New York Theatre Workshop, também se beneficia de um momento sombriamente favorável.

Dramaturga e performer, Schreck conhece bem a Constituição americana: ela chegou à faculdade com o dinheiro que ganhou falando sobre ela em concursos no ensino médio. Agora, na casa dos 40 anos de idade, ela revisita suas ingênuas falas de estudante com a visão da experiência e descobre que a Constituição é um documento mais perturbador. Escrita por homens brancos e proprietários de escravos, a Constituição excluiu durante muito tempo os não brancos e as mulheres. 

A Suprema Corte, que tem sido dominada esmagadoramente por juízes homens e brancos, responde com muita lentidão às reivindicações dos demais cidadãos. Schreck assinala que as mulheres só obtiveram o direito a não engravidar e a interromper a gravidez não desejada no início dos anos 1970. E algumas dessas conquistas, segundo ela, podem agora estar sob ameaça. 

Essa imprevisível peça, porém, não é uma maçante lição de civismo. Schreck alterna a análise da Constituição com histórias de abuso sexual em sua família e com a própria experiência de ter realizado um aborto. 

Ela fala também de uma decisão da Suprema Corte de 2005 segundo a qual as mulheres não têm direito, pela legislação federal, à proteção policial contra parceiros violentos. Fala ainda de um tio-avô adotivo que estuprou sua tia e de quando ela, Schreck, aos 17 anos, fez sexo com um rapaz porque “pareceu a coisa educada a fazer”. 

O espetáculo é sombrio, mas não deprimente. Ao abordar as falhas da Constituição dos EUA, ela mostra também a força que advém de compreendê-la. Os espectadores vão para caso algo perturbados, levando consigo uma cópia da Constituição distribuída pelo teatro.” / Tradução de Roberto Muniz

Mais conteúdo sobre:
teatroBroadway [Nova York]

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.