Tempo de desencolhimento No discurso sobre o Estado da União, Obama repudia o credo conservador da era Reagan sobre virtudes de enxugar o governo

PAULO SOTERO

PAULO SOTERO É JORNALISTA, DIRETOR DO , BRAZIL INSTITUTE DO WOODROW WILSON , INTERNATIONAL CENTER FOR SCHOLARS, EM , WASHINGTON , O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2013 | 02h07

Se depender de Barack Obama, quebrar a barreira racial ao eleger-se presidente dos Estados Unidos em 2008 não passará de um detalhe de seu legado ao país. Mais importante para ele é entrar para a história como o primeiro ocupante da Casa Branca a contestar o dogma da revolução conservadora que Ronald Reagan desencadeou em janeiro de 1981, quando proclamou, ao tomar posse, que "o governo não é parte da solução dos nossos problemas, o governo é o problema".

Fortalecido por uma reeleição que deixou seus adversários republicanos divididos e na defensiva, Obama afirmou em seu discurso anual ao Congresso sobre o Estado da União, na terça-feira, que os Estados Unidos não reencontrarão o caminho da prosperidade insistindo numa estratégia de austeridade ancorada exclusivamente no corte de gastos do governo, como querem os herdeiros de Reagan. "A maioria de nós concorda que cortar déficits deve ser parte do programa do governo", afirmou Obama. "Mas sejamos claros: a redução do déficit sozinha não é uma política econômica."

Obama não se referia apenas ao embate que terá nas próximas semanas com seus adversários no Congresso para evitar o impacto negativo para a economia ainda anêmica da redução automática de US$ 1,2 trilhão do orçamento federal nos próximos dez anos, já prevista em lei, que começará em março com cortes lineares de US$ 85 bilhões este ano. Duas décadas depois de o democrata Bill Clinton ter validado o argumento de Reagan, declarando encerrada a era do "big government", Obama repudiou o credo conservador sobre as virtudes do encolhimento do governo e anunciou o que o New York Times descreveu como uma mudança rumo a uma doutrina que reserva um papel ativo a "um governo inteligente" para fazer face à desigualdade persistente e aos novos desafios impostos pelos deslocamentos de uma economia globalizada e tecnológica.

A nova mensagem foi construída aos poucos ao longo da campanha presidencial do ano passado e ganhou força no discurso de posse, no mês passado, quando o normalmente contido Obama deliciou seus eleitores assumindo um tom agressivo na defesa do programa que o levou à vitória. Para Ted Widmer, professor assistente da Universidade Brown e ex-redator de discursos para Clinton, comentaristas conservadores como o ex-presidente da Câmara dos Deputados Newt Gingrich, líder da tropa de choque da revolução conservadora nos anos 1990, acertaram ao classificar o discurso de Obama na semana passada como o mais liberal (ou à esquerda, no sentido político) feito por um presidente desde Lyndon Johnson, que há meio século declarou guerra à pobreza e introduziu importantes programas sociais, como os seguros de saúde Medicare e Medicaid, para pobres e idosos.

Como esperado, os republicanos rejeitaram a proposta de Obama. O jovem senador Marco Rubio, da Flórida, xodó do Tea Party e estrela em ascensão entre os conservadores, acusou o presidente de propor "mais impostos, mais dívida e mais gastos" como solução para os problemas em Washington. Antecipando a reação, na manhã seguinte à sua fala ao Congresso Obama iniciou uma série de comícios pelo país calculados para levar sua mensagem diretamente aos americanos e gerar pressão popular sobre os republicanos, deixando claro que os fará pagar alto preço político se bloquearem a execução do programa de governo de um líder que se sente legitimado pela reeleição e vive o auge de seu poder. A taxa de desaprovação popular dos republicanos, de 49%, e a disposição de negociar um projeto de lei que permita a legalização gradual da situação dos 11 milhões de imigrantes em situação irregular no país, que alguns líderes do partido sinalizaram em semanas recentes, sugerem que Obama poderá obter algumas vitórias se agir com firmeza neste primeiro ano de seu segundo mandato.

Na quinta-feira, porém, os conservadores mostraram que não se sentem intimidados nem estão abertos a compromissos com o presidente. Numa decisão fadada a causar espanto ao redor do mundo e suscitar dúvidas sobre a própria governabilidade dos EUA, eles travaram a confirmação de um ex-senador republicano, Chuck Hagel, soldado condecorado por heroísmo na guerra do Vietnã, ao posto de secretário da Defesa. O fato de o Pentágono estar em meio a um processo de reconversão de forças após o fracasso da guerra do Iraque e o empate no Afeganistão, e à mercê de forte redução forçada de seu orçamento, não parece ter pesado na decisão dos 40 senadores que impediram a aprovação de seu ex-colega para comandar o Pentágono pelo pecado de ter contrariado o lobby pró-Israel afirmando que a guerra não é solução para a controvérsia em torno do programa nuclear do Irã. Foi a primeira vez na história do país que a nomeação do ministro da Defesa foi objeto de uma manobra de obstrução parlamentar.

O gesto confirmou a suspeita da Casa Branca e dos democratas de que os adversários estão dispostos a tudo e mais um pouco para impedir que Obama governe e seja bem-sucedido.

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