Zeca Wittner/Estadão
Zeca Wittner/Estadão

Tempo de ostentação

Caso do ministro polonês ironizado por usar um relógio ‘pobre’ revela como a riqueza se tornou hoje a base em si mesma do status social

Peter Singer,

24 de agosto de 2013 | 18h05

Quando Radoslaw Sikorski, o ministro de Relações Exteriores da Polônia, visitou a Ucrânia no mês passado, dizem que seus colegas ucranianos riram dele pelo fato de estar usando um relógio de quartzo japonês que custara apenas US$ 165. Um jornal ucraniano fez uma matéria sobre as preferências dos ministros da Ucrânia. Muitos possuem relógios que custam mais de US$ 30 mil. Até um membro comunista da Rada, o Parlamento ucraniano, foi fotografado usando um relógio que é vendido por US$ 6 mil.

Quem deveria rir é Sikorski. Você não riria (talvez privadamente, para evitar ser indelicado) de alguém que paga 200 vezes mais por algo e acaba com um produto inferior?

Foi o que os ucranianos fizeram. Poderiam ter comprado relógios de quartzo, precisos, leves, que não requerem manutenção, não exigem movimentação nem corda e podem durar cinco anos funcionando perfeitamente. Em vez disso, pagaram muito mais por barulhentos relógios que atrasam e param se você se esquece de dar corda por um ou dois dias (mesmo os que têm mecanismo automático param se não forem movimentados). Além disso, os relógios de quartzo têm alarme, cronômetro e funções de timer que os outros relógios em questão não têm – ou, quando têm, é apenas uma tentativa mal-ajambrada de imitar a concorrência.

Por que um consumidor inteligente faria tão mau negócio? Nostalgia? Um anúncio de página inteira da marca Patek Philippe mostra Thierry Stern, o presidente da empresa, dizendo que ouve o tique-taque de cada relógio que sua empresa fabrica, assim como seu pai e avô ouviam. É tudo muito bonito, mas a indústria relojoeira progrediu desde a época do avô de Stern. Por que rejeitar as melhorias que o engenho humano nos proporcionou? Tenho uma velha caneta-tinteiro que pertenceu a minha avó. É uma linda recordação, mas nem sonharia em utilizá-la para escrever esta coluna.

Thorstein Veblen sabia as respostas. Em seu clássico Teoria da Classe Ociosa, publicado em 1899, ele argumenta que, quando a riqueza em si se tornou a base do status social – em vez de, por exemplo, sabedoria, conhecimento, integridade moral ou habilidade no campo de batalha –, os ricos tiveram de encontrar formas de gastar dinheiro cujo único objetivo era a própria ostentação da riqueza. O autor denominou esse fenômeno de “consumismo ostentatório”. Veblen escreveu como cientista social, abstendo-se de fazer julgamentos morais, embora tenha deixado poucas dúvidas em seus leitores sobre sua opinião negativa acerca de tais gastos em uma época em que muitos viviam na pobreza.

Usar um relógio absurdamente caro para alardear que se atingiu um nível social elevado parece especialmente imoral no caso de uma autoridade de um país em que uma parcela significativa da população ainda vive em real situação de pobreza. Essas autoridades estão usando no pulso o equivalente a quatro ou cinco anos do salário de um ucraniano médio. Isso passa aos contribuintes a ideia de que ou estão pagando demais aos servidores públicos ou os servidores têm outras formas de ganhar dinheiro para comprar relógios pelos quais eles, contribuintes, normalmente não poderiam pagar.

O governo chinês sabe o que “outras formas” pode significar. Como relata o International Herald Tribune, um ponto da campanha da China contra a corrupção é a repressão aos presentes caros. Segundo Jon Cox, analista da Kepler Capital Markets, o resultado disso é que “usar relógios chamativos não é mais aceitável”. O mercado chinês de relógios de luxo está em franco declínio (ucranianos, tomem nota).

Usar um relógio que custa 200 vezes mais que outro que funciona melhor transmite outra ideia, mesmo quando os usuários não são governantes de um país relativamente pobre. Andrew Carnegie, o homem mais rico da era de Veblen, era contundente em seus julgamentos morais. “O homem que morre rico morre em desonra”, dizia ele.

Podemos adaptar esse julgamento ao homem ou mulher que usa um relógio de US$ 30 mil ou compra artigos de luxo similares, como uma bolsa de US$ 12 mil. Em essência, essa pessoa está dizendo: “De duas, uma: sou extraordinariamente ignorante, ou simplesmente egoísta. Se eu não fosse ignorante, saberia que crianças estão morrendo de diarreia ou malária devido à falta de água potável ou de um mosquiteiro, e obviamente o que gastei neste relógio ou nesta bolsa teria sido suficiente para ajudar várias delas a sobreviver; mas me importo tão pouco com elas que prefiro gastar meu dinheiro em algo que uso por pura ostentação”.

Todos temos nossos pequenos luxos – não estou afirmando que todo luxo é errado. Mas rir de alguém por ter um relógio simples e relativamente barato faz com que outros se sintam pressionados a aderir à busca por extravagâncias cada vez maiores. A pressão deveria ocorrer no sentido contrário, e devemos celebrar aqueles que, como Sikorski, têm gostos modestos e prioridades mais elevadas que o consumismo ostentatório. / TRADUÇÃO DE CAMILA PAVANELLI DE LORENZI

PETER SINGER É PROFESSOR DE BIOÉTICA DA UNIVERSIDADE DE PRINCETON, PROFESSOR EMÉRITO DA UNIVERSIDADE DE MELBOURNE E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE A VIDA QUE PODEMOS SALVAR (GRADIVA), TAMBÉM NOME DA ORGANIZAÇÃO FUNDADA POR ELE. O AUTOR ESTÁ NO BRASIL A CONVITE DO CICLO DE CONFERÊNCIAS FRONTEIRAS DO PENSAMENTO

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