Terceiro Mundo, quando convém

Mas autoimagem favorita deixa o Brasil profundamente confuso

Hans Ulrich Gumbrecht*,

25 de outubro de 2009 | 01h14

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Pouquíssimos lugares no mundo, imagino, não ficaram felizes com a eleição do Brasil para sede dos dois próximos megaeventos atléticos, a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Acredito até que as nações que foram rivais do Brasil nessas competições possam facilmente viver com suas derrotas - pois parece ser o sintoma de um altíssimo grau de desenvolvimento social que segmentos crescentes da população prefiram calma e segurança à excitação, à visibilidade internacional e ao orgulho nacional proporcionados pela Copa do Mundo e a Olimpíada. Visto dessa perspectiva, o Brasil é muito mais patriótico à moda antiga que Estados Unidos, Japão e até mesmo Espanha. E isso me agrada bastante.

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Mas embora amplos segmentos das sociedades americana, japonesa ou espanhola possam estar aliviados por evitar o estresse diário decorrente desses megaeventos, muitas outras nações ficaram num ânimo comemorativo quando o Brasil, aparente azarão, foi escolhido: não foi novamente uma cidade europeia (após Londres em 2012 e Barcelona em 1992); não a muito rica e aparentemente consumista Tóquio; e, sobretudo, não foi Chicago e os Estados Unidos, que, a despeito de seu presidente afro-americano internacionalmente muito popular, continuam fazendo o papel de bode expiatório do pacifismo internacional e de qualquer outro tipo de autocrítica ocidental. Quem, por contraste, não adoraria o Brasil, lar do samba e do mais exuberante carnaval; o Brasil, a nação dos mais habilidosos e elegantes jogadores de futebol; o Brasil que afirma nunca ter sido racista e cujo "rei" secular é, aliás, um astro negro do futebol do passado; o outrora conflagrado Brasil, a nação que reconquistou a liberdade e valores democráticos das trevas de um governo militar repressivo.

 

Todos no planeta capazes de ler ou ao menos assistir TV, incluindo os que não estão muito seguros de encontrar o Brasil num mapa do mundo, estão apaixonados por essa imagem do Brasil - que, é claro, é a imagem de um país do Terceiro Mundo. Os problemas só surgem do fato de que ninguém fica mais contente de se fingir de país do Terceiro Mundo que a própria classe média brasileira e os próprios políticos brasileiros. Ou, mais precisamente: embora os intelectuais brasileiros e a classe média à qual pertencem cultivem uma pretensão apaixonada por se apresentarem como pobres e subdesenvolvidos, rejeitam enfaticamente, ao mesmo tempo, todo estrangeiro que queira vê-los dessa mesma perspectiva.

Felizmente o Brasil está profundamente confuso sobre sua autoimagem favorita, pelo menos de uma maneira. Pois se o país fosse terceiro-mundista de fato, ele não teria o poder financeiro e a infraestrutura tecnológica requeridas para gerir o Campeonato Mundial de Futebol e a Olimpíada com um intervalo de dois anos. Mas qual é o problema, então, dessa confusão - além de sua notável estranheza? O problema é a complacência. Durante as últimas décadas, o Brasil e muitos brasileiros desenvolveram um duplo padrão sobre o próprio status dentro da comunidade internacional. Sempre que for conveniente, para obter vantagens econômicas ou políticas, o Brasil insiste justamente em seu papel como país desenvolvido e altamente industrializado; mas, se for conveniente permanecer cego ante certos problemas internos, os brasileiros e seus políticos são perfeitamente capazes de condescender num tipo de identidade terceiro-mundista.

Não há hoje nada de mais terceiro-mundista certamente que a tolerância do Estado ao crime organizado - e os eventos no Rio de Janeiro, há apenas uma semana, mostraram que, em condições normais, a tolerância ao crime organizado ainda é em muito o padrão no Brasil. Pois a violência que explodiu nas favelas da zona norte do Rio não foi uma violência contra o Estado, para não falar de uma violência como reação a um Estado opressor; foi uma violência respingando de uma guerra civil em curso entre duas grandes organizações criminosas, uma guerra civil que está sendo ativamente ignorada pelo governo e pela mídia enquanto permanecer confinada a certas fronteiras territoriais. Em outras palavras: o Executivo e o Judiciário do Brasil - e, nesse sentido foi irônico que o presidente brasileiro reagisse aos eventos do Rio na presença de seu congênere colombiano. O Estado brasileiro efetivamente cedeu parte do território nacional a organizações criminosas com as quais mantém relações extraoficiais baseadas em negociações similares aos acordos e negociações entre Estados soberanos.

Para um país de Terceiro Mundo essa é uma situação bastante normal, e por essa mesma razão a autoimagem favorita dos brasileiros permite que o eleitorado e o governo permaneçam deliberadamente cegos quando se trata da violência interna factualmente tolerada. Essa situação será um perigo real que impedirá centenas de milhares de espectadores de virem ao Brasil para os megaeventos atléticos? Não creio. Prevejo e espero que a indústria de turismo nacional consiga efetivamente produzir a enorme receita que já está prevendo. Isso porque o presidente Lula e seus ministros estão provavelmente corretos quando apontam para os Jogos Pan-Americanos no Rio, há dois anos, quando essas favelas de alto risco foram temporariamente ocupadas - mantidas calmas com sucesso - por forças militares. Ninguém perguntou, é claro, o que a ocupação significava para a grande maioria daqueles habitantes de favela que não estão envolvidos no crime organizado.

Além dessa questão, a de quem está realmente pagando o preço existencial para o Brasil estar na berlinda internacional, há uma outra questão mais simbólica. Durante os séculos da Antiguidade grega e romana, os dias dos Jogos Pan-Helênicos - sobretudo, os dias dos Jogos de Olímpia - eram dias sagrados, dias de trégua geral. A comunidade internacional retornou a essa antiga condição quando suspendeu os Jogos Olímpicos durante a 1ª Guerra Mundial e a 2ª Guerra Mundial, isto é, em 1916, 1940 e 1944. Hoje, essas guerras entre nações se tornaram muito improváveis, por mais que ainda possamos temê-las. Imaginar guerras entre Rússia e Estados Unidos, Estados Unidos e República Popular da China, ou, mais realisticamente, entre Irã e Israel, ainda podem ser pesadelos para nós - mas há instituições poderosas, razões poderosas e, sobretudo, transformações poderosas nos enquadramentos políticos de nossa mente que tornam esses confrontos improváveis. As guerras constantes de hoje não são guerras entre nações, não são guerras que podem ser "declaradas" a um inimigo visível. Elas são antes conflitos permanentes ou entre organizações terroristas e a comunidade internacional de nações ou entre o crime organizado e autoridades de Estados individuais. Se levássemos a sério essa mudança profunda da "guerra" como um fenômeno, a possibilidade de realizar Jogos Olímpicos seria suspensa permanentemente.

Assim, embora o Brasil, de conformidade com sua autoimagem preferida de país do Terceiro Mundo, seja perfeitamente capaz de organizar megaeventos atléticos altamente lucrativos - paralisando temporariamente a guerra interna com o crime organizado -, o verdadeiro desafio seria essa nação tentar e conseguir um autêntico status de Primeiro Mundo mediante o abandono de qualquer política de tolerância. Mais do que à comunidade internacional de turistas de classe média, os políticos brasileiros (em especial aqueles que se afirmam "de esquerda") e a classe média brasileira devem esse esforço à maioria daqueles concidadãos cumpridores da lei que ainda vivem em favelas.

*Professor de literatura na Universidade de Stanford e autor de Elogio da Beleza Atlética (Cia. das Letras)

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