Terra dos abraços

"Você pode fazer dez rolos de filme

CHRISTIAN CARVALHO CRUZ, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2014 | 02h10

de uma pessoa e não ter o retrato dela"

Em 1978, Valdir Cruz desembarcou em Nova York "com 100 pilas no bolso" e nenhuma ideia na cabeça. Deixava para trás Guarapuava (PR) com suas araucárias, quedas d'água e sua imensa falta de horizonte para um rapaz de 23 anos. Nos Estados Unidos, foi torneiro mecânico antes de cair na fotografia, empurrado por George Stone, amigo de botequim e fotógrafo da National Geographic. Não sabia nada, mas estudou tanto que se tornou um grande laboratorista, ampliando coleções de Edward Steichen (curador do MoMA) e Horst P. Horst (gênio alemão da fotografia de moda nos anos 40/50).

A voz fotográfica própria, no entanto, é fruto do retorno. Cruz só a encontrou, primeiro, em Guarapuava, que ele documenta há 30 anos e, a partir de quinta-feira, estará em livro e exposição (uma seleção ilustra estas páginas). Depois, na convivência com tribos amazônicas e paisagens diversas Brasil afora. Presente no acervo do MoMA, do Masp e de outros museus, seu trabalho é um meio-termo entre antropologia e arte, entre documento e estética, como definiu a crítica americana Vicki Goldberg. A seguir, Cruz fala ao Aliás.

Por que voltar para casa e fotografar

o que te é familiar?

Segurança. Meu povo, meu lugar, ali me sinto abraçado. No primeiro retorno, em 1984, eu estava começando a fotografar. Aonde quer que eu chegasse com a câmera era bem-vindo. Bem diferente do trabalho em Nova York, onde eu fotografava em estúdio, um ambiente fechado, controlado, profissional. Sair à rua era difícil, eu me achava invadindo a vida e o espaço alheios. E não se consegue um bom retrato na base da invasão. Você pode fazer dez rolos de filme de uma pessoa e ainda assim não ter o retrato dela.

O que é um bom retrato?

Aquele em que a pessoa te autoriza a captar um momento da vida dela. O retrato obrigatoriamente demanda entrega do retratado e sinceridade do fotógrafo. Tem uma coisa espiritual, eu acho, de você chegar a um lugar, um grupo de pessoas, e rapidamente perceber quem dará um bom retrato. Foi assim com a Mulher Cigana (foto maior deste ensaio). O grupo de ciganos estava acampado numa fazenda, eu desci do carro já montando o equipamento, pedindo chimarrão e perguntando como é que ia a vida. O impacto da minha chegada, nesse caso, abriu um horizonte bom de trabalho. Eles me acolheram imediatamente. Fiz quatro rolos de filme em uma hora e consegui três bons retratos. Coisa rara de acontecer.

No livro, em uma entrevista à curadora

Anne Tucker você diz que voltar a Guarapuava te proporciona alívio. Alívio de quê?

A fotografia é muito solitária. O trabalho no laboratório, então, nem se fala. Outro dia eu estava fazendo as contas. Tenho 59 anos. Dos 30 que estou nessa vida pelo menos ¼ do tempo eu passei dentro do quarto escuro revelando e ampliando fotos. São sete anos e meio condenado à solitária. Quando pego a mochila e caio no mato lá em Guarapuava, eu percebo como estou cansado. Mas nada disso é queixa. São três grandes prazeres: fotografar, revelar o negativo e imprimir a imagem.

Você parece falar com mais entusiasmo do último, ou seja, do processo de impressão.

No fundo eu sou um laboratorista. Me dediquei muito a isso. Faço cópias de grandes mestres da fotografia para museus, galerias e coleções particulares. E faço todas as cópias do meu trabalho. Uma boa cópia faz a imagem falar, emociona.

E o que é uma boa cópia?

Dentro do que eu aprendi, que era o que os grandes curadores dos museus aceitavam - hoje mudou muito, porque todo mundo se diz curador -, uma boa cópia em preto e branco deve conter obrigatoriamente dez tonalidades. Às vezes me perguntam se eu não fotografo em cores. Eu digo 'fotografo, claro, olhe as minhas cópias: elas têm o preto absoluto, o branco e uma gama enorme de cinzas'. Para mim, a fotografia só se realiza como tal na boa cópia em papel. Do contrário, tenho dúvida se é fotografia.

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