Terror em pequenas doses

Uma prolongada campanha de terrorismo urbano de baixo impacto pode dilacerar a sociedade americana de modo tão profundo como o que ocorreu no 11 de Setembro - ou talvez ainda mais

STEVEN SIMON E JONATHAN STEVENSON, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2010 | 02h18

Embora não se sabia com certeza quem tentou explodir um carro-bomba em Times Square no fim de semana passado, esse incidente marcou a introdução no plano doméstico de técnicas terroristas familiares que poderão ser mais difíceis de impedir do que aquelas para as quais todo um esquema de segurança interna foi implantado depois de 11 de setembro de 2001.

Os especialistas na área são incapazes de dizer conclusivamente por que os terroristas islâmicos não perpetraram com sucesso um ataque de grande envergadura contra os Estados Unidos desde os atentados de 2001. Alguns dizem que a visão religiosa e apocalíptica dos terroristas, do "fim dos tempos", exige um ataque no mínimo tão espetacular como o ocorrido no 11 de Setembro. Alguns estudiosos especulam que os esforços antiterrorismo implantados incapacitaram os grupos extremistas de montar um operação daquele porte - e eles estariam reservando para os EUA uma repetição espetacular na escala do 11 de Setembro tão logo sejam capazes novamente disso.

Mas a tentativa de uso de uma técnica terrorista menos destrutiva no atentado de Nova York contradiz essa explicação. Embora não se tenha observado um ataque tão terrível como o colapso das Torres Gêmeas, a Al-Qaeda e seus seguidores mataram um número muito maior de pessoas - americanas ou de outras nacionalidades - utilizando diversos tipos de dispositivos explosivos improvisados em zonas de guerra e em locais aparentemente pacíficos. Cerca de 65% das vítimas militares no Iraque e no Afeganistão foram de bombas caseiras, segundo reportou o Army Times neste ano. Muitas dessas bombas improvisadas, como a de Times Square, são ativadas ou armazenadas em veículos; alguns dos mais devastadores ataques da Al-Qaeda desde 2001 - como o que matou 201 pessoas, principalmente turistas, em Bali em 2001, foram executados com esse tipo de bomba.

As táticas terroristas se propagam em virtude do seu sucesso. Reflita sobre o número de sequestros de aviões nos anos 60 e 70. Hoje, as bombas caseiras colocadas em veículos se adaptam aos espaços urbanos, onde os carros são lugar-comum e não chamam atenção, e a densa população das cidades indica que o número de vítimas será grande. Esses aspectos não foram ignorados pelos líderes jihadistas e seus discípulos, que estudam as técnicas usadas.

Sabemos que a Al-Qaeda é pragmática e tem grande capacidade de adaptação. Por mais precioso que a Al-Qaeda possa considerar o "valor do impacto" de um próximo grande ataque contra os Estados Unidos, a eficácia das ações adotadas pelos Estados Unidos para impedir um incidente desse porte provavelmente acabaria obrigando o grupo terrorista a reduzir suas expectativas. Mesmo que o grupo no seu núcleo não tenha renunciado a um grande ataque apocalíptico, as atividades antiterroristas no Paquistão obrigaram-no a devolver a autoridade operacional aos afiliados regionais e aspirantes a terroristas locais que estão livres - se não encorajados - para usar métodos operacionais menos contundentes. E esse gênero de guerra urbana já foi introduzido e desenvolvido há muito tempo em locais como Belfast e Bilbao.

Seria um erro os alvos da Al-Qaeda considerarem esses ajustes técnicos uma espécie de vitória. Técnicas antigas, como carros ou ônibus-bomba, embora não tão maciçamente letais como as novas - como transformar um avião sequestrado num míssil, detonar uma "bomba suja" ou até um pequeno dispositivo atômico - sugerem principalmente que os jihadistas estão começando a pensar em ataques terroristas mais frequentes e mais fáceis de serem perpetrados, e sair impunes. Foi esse o enfoque adotado pelo IRA - Exército Republicano Irlandês - em sua luta para unir a Irlanda, e pelo grupo separatista basco ETA, na Espanha. Esses grupos, que evoluíram e se tornaram organizações profissionais altamente capacitadas, desafiaram a ordem civil e paralisaram a sociedade por décadas, são responsáveis por 2.200 e 1.000 mortes, respectivamente.

Uma campanha de terrorismo urbanoprolongada pode dilacerar a sociedade americana de modo tão profundo como o que ocorreu com o atentado de 11 de Setembro - talvez ainda mais. Como as forças de segurança espanhola e britânica aprenderam, existe um equilíbrio delicado entre vigilância e pânico, resistência e prevenção excessiva, entre a aplicação vigorosa da lei e um Estado policial. Desde 2001, o Departamento de Polícia de Nova York alcançou esse equilíbrio de modo admirável. Como o prefeito Michael Bloomberg observou após Times Square, os nova-iorquinos tiveram sorte porque a bomba falhou. Mas não é somente o Departamento de Polícia de Nova York que poderá precisar se ajustar a esse novo conjunto de ameaças. Felizmente, temos a experiência e a sabedoria europeia a que recorrer. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

STEVE SIMON É MEMBRO DO COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS. JONATHAN STEVENSON É PROFESSOR DE ESTUDOS ESTRATÉGICOS DO NAVAL WAR COLLEGE DOS ESTADOS UNIDOS

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