Robert Alexander/Ubu
Robert Alexander/Ubu

Textos inéditos de Audre Lorde, grande nome do feminismo negro, chegam ao Brasil

Os textos datam dos anos 1970, 1980 e 1990, mas parecem ter sido escritos hoje, no calor da hora, para falar de várias mortes recentes, como a de George Floyd nos Estados Unidos ou do menino Miguel, em Recife

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estado

13 de agosto de 2020 | 05h00

A editora Ubu acaba de publicar Sou Sua Irmã, da pensadora norte-americana, filha de imigrantes caribenhos, Audre Lorde (1934-1992), que gostava de se apresentar como mulher negra, lésbica, feminista, poeta, mãe e guerreira, porque, como ela mesma dizia: “Minhas amigas, sempre haverá alguém tentando usar uma parte de vocês e, ao mesmo tempo, as encorajando a esquecer ou destruir todas as outras. E aí vai um aviso: isso é a morte. A morte como mulher, a morte como poeta, a morte como ser humano”.

Lorde abraçou com intensidade as múltiplas faces dela mesma, como comprovam os textos que compõem esta antologia, organizada e apresentada por Djamila Ribeiro e traduzida por Stephanie Borges, que fala de racismo, homofobia, feminismo, maternidade etc. Os textos datam dos anos 1970, 1980 e 1990, mas parecem ter sido escritos hoje, no calor da hora, para falar de várias mortes recentes: a de George Floyd, asfixiado por um policial branco nos Estados Unidos da América; a do menino Miguel, abandonado no elevador de um prédio de luxo em Recife; a de João Pedro e a de Ágatha, o primeiro baleado em casa enquanto brincava com os primos e a segunda atingida quando voltava para a casa de Kombi com a mãe; e a de muitas outras vidas negras, ceifadas violentamente.

Num texto de 1986, Lorde já alertava: “Vivemos em uma época em que o linchamento de duas pessoas negras na Califórnia a uma distância de 32 quilômetros uma da outra é chamado de coincidência e considerado sem motivação racial pela mídia local. Uma das duas vítimas era um homem negro gay, Timothy Lee; a outra era uma repórter negra que investigava a morte dele, Jacqueline Peters”. Em outro, de 1978, a pensadora cita poemas de Pat Parker, “uma jovem poeta negra”, também americana, cujos versos seriam de “uma honestidade que pode ser tão desconfortável quanto convincente”, entre eles: “IRMÃ! seu pé é menor/ mas ainda está no meu pescoço” e “Sou uma cria da América/uma filha adotada/criada num quarto dos fundos”. 

Lorde discute, num ensaio de 1980, a importância da participação política das “pessoas de cor”, que perfaziam dois terços da população mundial. A respeito do termo “pessoas de cor”, a tradutora do volume explica que people of color, como se lê em inglês, “faz referência a pessoas negras, latinas, indígenas, asiáticas e a outros grupos racializados que também sofrem preconceito nos Estados Unidos”. 

A sua filosofia, assim como a de muitas outras feministas negras como bell hooks e Chimamanda Ngozi Adichie, é inclusiva, incorporando, de acordo com Lorde, minorias “espalhadas por todos os continentes do mundo, membros de uma comunidade internacional de pessoas de cor que compõem sete oitavos da população mundial”. Para ela, aliás, “a essência de um feminismo verdadeiramente global é o reconhecimento da conexão” que existe entre todos/as nós, cabendo-nos aceitar as diferenças, uma vez que “como em todas as famílias, às vezes temos dificuldade de lidar de maneira construtiva com as diferenças genuínas entre nós e de reconhecer que a união não exige que sejamos idênticas umas às outras”.

Em um discurso no Hunter College, em Nova York, Lorde advertiu que “quando não reconhecidas, nossas diferenças são usadas contra nós a serviço da separação e da confusão, pois as vemos apenas como oposição ao que somos, dominantes/subordinados, bons/ruins, superiores/inferiores. E, é claro, enquanto a existência de diferenças humanas significar que alguém deve ser inferior, o reconhecimento dessas diferenças será carregado de culpa e perigo. A determinação de quais diferenças são positivas e de quais são negativas é feita por uma sociedade que já está estabelecida e, por isso, procura se perpetuar, com suas falhas e virtudes. Ser muito bom em alguma coisa é visto como uma diferença positiva, então vocês serão encorajados a pensar em si mesmos como uma elite. Ser pobre, de cor, mulher, homossexual ou de idade é considerado negativo, de modo que essas pessoas são encorajadas a pensar em si como dispensáveis. Cada uma dessas definições impostas tem lugar não no crescimento e no progresso humanos, mas na desunião, pois representam a desumanização da diferença”.

Lorde faz questão de frisar que mesmo as mulheres negras não são iguais, pois “não são um grande tonel de leite achocolatado homogêneo. Temos muitas faces diferentes e não precisamos nos tornar idênticas para trabalharmos juntas em favor de nossa sobrevivência mútua . E, para que tenhamos uma linguagem comum, gostaria de definir os termos que uso: – HETEROSSEXISMO crença na superioridade inerente a um padrão de relação afetiva, o que implicaria seu direito à dominância, – HOMOFOBIA medo de sentimentos amorosos por pessoas do próprio sexo, o que se reflete em ódio por esses sentimentos em outras pessoas”. 

Em E Eu Não Sou uma Mulher?, bell hooks retoma essa questão levantada por Audre Lorde ao relatar sua experiência nas instituições de ensino que frequentou. Nelas, diz hooks, os professores nunca fizeram nada para desenvolver o limitado conhecimento que tinham sobre racismo como ideologia política; assim, acabaram por ensinar a “aceitar a polaridade racial como supremacia branca e a polaridade sexual como domínio masculino”. Em “Seu cabelo ainda é político?”, Lorde irá refletir justamente sobre o resultado dessa prática educacional.

A respeito dos brancos como apoiadores dos movimentos negros, Audre Lorde recorda que “nos anos 1960, quando decidiram que não queriam parecer racistas, as pessoas brancas liberais usavam dashikis, dançavam música negra, apreciavam a culinária dos negros e até se casavam com pessoas negras, mas não queriam se sentir negras nem pensar como tais, por isso nunca questionaram o contexto de sua rotina (por que band-aids ‘cor de pele’ seriam sempre rosados?); seu questionamento, na verdade, era ‘Por que pessoas negras sempre se ofendem tão facilmente com coisas tão pequenas? Alguns de nossos melhores amigos são negros…’”. 

Valeria a pena conferir um texto de 2016, de Djamila Ribeiro, intitulado Xuxa e a Fetichização da Pobreza, no qual ela discute uma foto postada pela apresentadora no seu Facebook. Nela, três crianças negras seguram bolinhas em um semáforo, e a legenda diz: “Daivison, João e Pedro... Meus novos amiguinhos ralando para conseguir um dindin”, uma atitude que demonstraria a insistência na definição do negro em um lugar social, cuja pobreza seria uma das características. Mas, como bem lembra Toni Morrison, “o risco de sentir empatia pelo estrangeiro é a possibilidade de se tornar estrangeiro. Perder o próprio status racializado é perder a própria diferença, valorizada e idealizada”. 

Num outro ensaio dos anos 1980, que, mais do que nunca, vale para os dias de hoje, Audre adverte que “estamos em uma época em que o avanço conservador em cada uma das frentes afeta nossa vida como pessoas de cor de forma opressiva e óbvia”. Se, nos anos 1980, os porta-vozes do conservadorismo reacionário eram “a primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher e o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan”, hoje são nomes como Boris Johnson e Donald Trump, naqueles países, e Jair Bolsonaro, por aqui, que o representam.

Parece mesmo ter razão o filósofo italiano Giambattista Vico, para quem a história é circular e espiral; circular, porque sempre se repete; e espiral, porque nunca se repete da mesma forma. Mas, longe de aceitar calado/a o destino, é preciso ouvir o que a história tem para contar, ou, como, diria Lorde ao se referir ao contexto americano: “não é nosso destino repetir os erros da américa branca, mas será, se formos enganadas por seus símbolos de sucesso”.

Entre outras intervenções cruciais, cabe citar a sua discussão sobre a economia voltada para o lucro, que “define as pessoas excedentes (diferentes). E, sobretudo, será usada para encurtar o seu futuro e o meu”, pois é melhor dizimar os diferentes, além do que, numa economia em retração, os “afro-americanos são cada vez mais supérfluos”. São surpreendentes também as páginas de seu diário em que narra a batalha que travou contra o câncer, mais uma batalha em sua vida, a qual não obscureceu as outras, que ela também considerava vitais.

Destaca-se ainda sua palestra A linguagem da diferença, proferida na Austrália, numa conferência em comemoração aos 150 anos de fundação do estado de Victoria, na qual ela pergunta a uma plateia branca onde estão as mulheres Wurundjeri, que costumavam “sonhar, sorrir e cantar”, onde agora elas estavam sentadas: “Não vejo as filhas delas sentadas entre vocês hoje”. 

Lorde repetia que “muito sangue negro tem sido derramado sobre a terra e muito mais será derramado. Mas o sangue vai testemunhar, e agora o sangue começou a falar. Ele finalmente está falando?” 

A pensadora também sentia que precisava falar, mesmo estando errada, “então alguma mulher se levantará e dirá: ‘Audre Lorde estava errada’. No entanto, minhas palavras estarão lá, algo para ela debater, para incitar a reflexão, a atividade”. 

Audre Lorde parece incorporar a personagem da história narrada por Toni Morrison ao receber o Nobel de Literatura, em 1993: uma velha cega e clarividente foi colocada à prova por jovens, um deles com um pássaro na mão. Perguntaram-lhe se estava vivo ou morto. Ela teria dito: “Não sei se o pássaro que você tem nas mãos está morto ou vivo, o que sei é que ele está nas suas mãos” e a responsabilidade é sua.

*DIRCE WALTRICK DO AMARANTE É ESCRITORA, ENSAÍSTA, PROFESSORA E TRADUTORA DE JAMES JOYCE, EDWARD LEAR, GERTRUDE STEIN,  LEONORA CARRINGTON E OUTROS

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