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'The Clean Body' narra a história do banho na cultura ocidental

Livro mostra, por exemplo, que Luís XIV, o Rei Sol, tomou apenas dois banhos em sua vida

André Caramuru Aubert*, Especial para o Estadão

28 de novembro de 2020 | 16h00

Luís XIV, o Rei Sol, tomou dois banhos na vida. E o primeiro, em 1665, quando ele tinha vinte e sete anos, só foi encarado porque foi prescrito pelo médico, mas precisou ser interrompido no meio, pois o paciente entrou em pânico e começou a passar mal. Mesmo depois de seco e vestido, reclamou de fortes dores de cabeça pelo resto do dia. A segunda tentativa, no ano seguinte, foi igualmente fracassada. Dali em diante, pelos quarenta e nove anos de vida que ainda teria, o traumatizado rei nunca mais chegaria perto de uma banheira.

Desde que, há algumas décadas, assuntos cotidianos se tonaram personagens da história, uma enxurrada de livros elegeu como tema os cheiros e a higiene pessoal. Nesse campo, The Clean Body – A Modern History (O corpo limpo, uma história na modernidade, em tradução livre) é uma muito interessante contribuição do professor canadense Peter Ward, que vem se somar a títulos como Civilization des Odeurs (A civilização dos odores, em tradução livre), de Robert Muchembled, e Le miasme et la jonquille: L’odorat et l’imaginaire social, XVIIIe-XXe siècle (lançado no Brasil como Saberes e Odores, atualmente fora de catálogo), de Alain Corbin.

Uma história da higiene corporal, ou da noção que dela temos, pressupõe muito mais do que descobrir com que frequência nossos bisavós tomavam banho: é preciso levar em conta como, historicamente, lidamos com odores, lavagens de roupa, sabonetes, perfumes, sistemas de abastecimento e tratamento de água e esgoto, arquitetura e, ainda, com questões de classe social, publicidade, educação e políticas de saúde pública. Ou seja, como ocorre com qualquer tema extraído do cotidiano, estudar a história da higiene pessoal implica, inevitavelmente, estudar a história em geral.

Peter Ward teve a sabedoria de limitar seu campo de estudos no tempo e no espaço: o foco é o mundo ocidental a partir de meados do século XVII, concentrando-se em alguns poucos países “exemplares.” Ou seja, se você quiser saber sobre como japoneses, turcos, ou tupinambás trataram da higiene pessoal ao longo do tempo, precisará procurar em outro lugar. Mas, se quiser saber quando os lares ocidentais começaram a ter água encanada e banheiros internos, e de que maneira os costumes passaram, a partir de um certo momento, a valorizar corpos limpos, então esse livro virá a calhar. O cronograma de Ward está longe de ser arbitrário: as mudanças ocorridas entre o pavor de tomar banho de Luís XIV, e nosso hábito de fazê-lo pelo menos uma vez por dia foram muito mais radicais do que as ocorreram nos mil anos entre as termas romanas virarem ruína e o quase banho do Rei Sol.

O monarca francês não se via nem era visto como sujo e estava longe de ser exceção. Ele lavava as mãos todos os dias, o rosto dia sim, dia não e trocava de roupa com frequência. Além disso, se você tivesse os recursos, um bom perfume disfarçaria qualquer odor corporal mais forte. Eram tempos em que havia quem defendesse que piolhos eram bons para fortalecer o crânio dos bebês, que alguns médicos advogavam a aplicação de esterco para cicatrizar feridas, e que mesmo as principais escolas de medicina europeias recomendavam que “as mãos fossem lavadas sempre, os pés, de vez em quando, e a cabeça, jamais.” Um século depois, as classes mais abastadas não só tomavam banhos regularmente, como a limpeza corporal passou a ser um signo de distinção de classe. 

A adesão ao banho pelo conjunto das sociedades não foi linear. Alguns fatores foram decisivos no processo, e a combinação deles ocorreu em ritmos diferentes em cada cidade e país. Houve uma mudança gradual no entendimento que a medicina tinha a respeito da higiene pessoal, na qual o banho passou da demonização para a quase beatificação. Em meados do século XVIII entraram na moda as estações termais, com a ideia de que banhar-se em determinadas águas teria efeitos benéficos também para órgãos internos do corpo. Essa crença subsiste até hoje, inclusive no Brasil, como provam destinos turísticos como o de Caldas Novas, em Goiás. Entre a total ausência de banheiros internos e a onipresença deles nos lares de hoje, houve a disseminação dos banhos públicos, tanto estatais quanto privados. O Palácio de Buckingham ganhou sua primeira sala de banhos em 1837, ao passo que Londres, quinze anos depois, contava com dez grandes locais públicos para tomar banho (onde também era possível lavar roupas) e, às vésperas da guerra de 1914, com cinquenta. 

Por outro lado, e não menos importante, nasceram no século XIX as empresas de cosméticos, que tiveram um crescimento vertiginoso e investiram pesadamente em marketing. O plano, bem sucedido, era associar os sabonetes não só à saúde, mas, principalmente, à beleza. É curioso notar que a maior parte das marcas líderes no começo do século XX continua por aí, duas delas, Lux e Palmolive, inclusive no Brasil. E, para que houvesse banho, era preciso que houvesse banheiros, água encanada, aquecida e sistema de esgotos. Nas velhas metrópoles, seria necessário que se fizessem enormes reformas tanto nas ruas quanto dentro de cada casa. Mais do que tabus, quebraram-se paredes. E isso não era tarefa fácil. Uma coisa era separar um espaço (e ter o dinheiro) para incluir um banheiro nas casas da burguesia; outra, bem diferente, era conseguir fazê-lo nas minúsculas e precárias moradias do proletariado. Em 1950, pouco mais de 60% dos lares ingleses tinham banheiros internos. Na França a evolução foi ainda mais lenta: ainda em 1970, menos de 50% das moradias contavam com esse luxo, que só chegaria à marca dos 90% perto da virada do século. Outra invenção que fez toda a diferença foi a do chuveiro, com seus banhos muito mais rápidos e econômicos.

Banheiros e canos do lado de dentro, tubulações e tratamento de água e esgoto do lado de fora. Também nesse quesito, o tempo com que cada país e cidade se adequou às novidades variou enormemente, com Londres sempre na liderança: já em 1820, a água encanada chegava a 85% de suas edificações, ao passo que, no fim do século XIX, Milão, próxima da média europeia, entregava água encanada a apenas 20% dos lares. Mas a partir daí a evolução foi rápida, e pouco depois da II Guerra quase todo o mundo civilizado oferecia água e esgoto tratados a 100% de suas populações urbanas, uma marca que o Brasil (que não é mencionado no livro) ainda está vergonhosamente longe de atingir; entre coleta e tratamento de esgoto, estamos atolados na casa dos 50% da população. Além de banho, corpo limpo pressupõe roupa lavada. Um dos indicadores que o livro apresenta é o do acesso às máquinas de lavar. Em 1920, elas praticamente só eram vistas em casas dos Estados Unidos, e em apenas 20% delas. Este mesmo número seria atingido por ingleses, franceses, alemães e italianos somente por volta de 1960, mas hoje em dia praticamente toda a população urbana do Ocidente desenvolvido tem acesso a uma máquina de lavar roupas, se não em casa, pelo menos em lavanderias coletivas.

Mas nada é para sempre. A necessidade de se tomar banho, que levou tanto tempo para vencer resistências de governos, cientistas e pessoas comuns, é hoje alvo de alguma revisão. Há, é claro, a crítica aos exageros do marketing cosmético (ah, a espuma suave, que cuida e acaricia!), da qual Roland Barthes foi agudo pioneiro, num texto sobre sabão em pó em seu livro Mitologias, de 1957 (o capítulo foi traduzido como “Saponáceos e Detergentes” na edição da Bertrand Brasil). Mas os próprios médicos têm colocado em xeque a ideia de que banhos fazem sempre bem. Há cada vez mais estudos mostrando que usar muito sabonete subtrai, da pele, uma série de proteções naturais, deixando-a mais exposta a doenças. Certamente não será o caso de retornarmos à questionável higiene pessoal do Rei Sol, ou de voltar a achar bom cultivar piolhos em nossas cabeças, mas talvez possamos fazer bem a nós mesmos (e ao planeta) se começarmos a economizar um pouco de água e sabão.

The Clean Body – A Modern History

Autor: Peter Ward

Editora: McGill-Queen’s University Press

313 páginas

R$ 260

*André Caramuru Aubert é historiador e escritor

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