Cido Gonçalves
Cido Gonçalves

'The Waste Land', de T.S. Eliot, ganha tradução renovada e independente

'A Terra Árida' subverte o título usual da obra do poeta modernista

Donny Correia*, Especial para o Estado de S. Paulo

03 Março 2018 | 16h00

Correções: 05/03/2018 | 14h45

“April is the cruellest month” é um dos mais célebres versos de abertura para um poema. Um poema para uma terra que já foi estéril, desolada, devastada, inútil, e agora é árida. The Waste Land, do modernista T.S. Eliot, ganha nova tradução levada a termo pelo poeta paranaense Gilmar Leal Santos sob o título A Terra Árida.

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Trata-se de uma iniciativa independida do mercado editorial e um tanto oportuna, vista pelo prisma da sincronicidade dos diversos ciclos da queda na história do mundo. Dramática, épica, mística e, sobretudo, distópica, a obra máxima de Eliot versa o fim do homem, o declínio da modernidade, o crepúsculo miserável para uma idílica era iluminada pelas luzes da Paris na Belle Époque e imponente como a Inglaterra, onde o sol nunca se punha.

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Gilmar Leal Santos toma as cifras truncadas do original para dissecá-las e clarificá-las, tornando o texto original uma entidade literária autônoma, atemporal e largamente acessível, já que, segundo o prefaciador do volume, Ademir Demarchi, dessacraliza a figura de um “eu-poético” definitivo.

The Waste Land foi traduzido por alguns dos mais reputados autores em língua portuguesa, a saber, Idelma Ribeiro de Faria, Gualter Cunha, Ivan Junqueira, Thiago de Mello e Ivan Barroso. Poderia se pensar que todas as possibilidades minimamente criativas para aquela labiríntica reflexão metafísica do período após a 1.ª Guerra estavam esgotadas. Por este motivo, é uma boa surpresa este empenho de Santos em não só oferecer uma transposição mais objetiva e fluida em A Terra Árida, mas também trazê-la guarnecida de notas explicativas. A mais significativa delas diz respeito justamente à escolha do adjetivo “árida” para a complexa palavra original “waste”.

A resposta que o próprio tradutor nos oferece está em seu posfácio, em que identifica a metáfora na imensa polifonia que Eliot criou em torno da terra arruinada, corroída pela aridez em relação à distopia a que já nos referimos. Ao mesmo tempo, há uma série de referências à água, como o Marinheiro Fenício e os segmentos intitulado Morte pela Água e O que Disse o Trovão. O jogo de opostos oscila forças devastadoras da natureza. Gilmar confessa seu gosto por A Terra Devastada, mas optou por esta “terra árida” justamente para provocar o choque logopaico da carga semântica.

Um dilema que ronda o ofício do tradutor literário diante de uma peça complexa é, sem dúvida a tensão que existe entre a tradução pela forma ou pelo conteúdo. Em A Terra Árida, Gilmar mostra um equilíbrio que faz de seu trabalho um interessante exercício de literalidade e liberdade transcriativa. Engenheiro não praticante, o poeta tradutor já havia publicado suas versões para temas de Robert Frost, Sylvia Plath e Dylan Thomas e afirma que conhece os riscos da tradução e que busca sempre fazer a arte do original aflorar de uma tradução que dialogue com leigos e iniciados sem desnivelar seu original ou abrir mão da finalidade estética. Numa das mais marcantes passagens do poema de Eliot, surge Madame Sosostris com seu baralho de visão turva e mau agouro. Entre os versos 45 e 47 lemos “É tida como a mulher mais sóbria da Europa, / Com um perverso baralho de cartas. Aqui, disse ela, / Está sua carta, o Marinheiro Fenício afogado.”

O tom prosaico do original poderia se tornar inócuo, mas a tradução busca na recorrência do fonema /r/ a onomatopeia do deque de cartas sendo embaralhado antes de prenunciar a “morte pela água”, que nos ressoa no fonema /f/ ao cabo do trecho. Há, por outro lado, que se observar problemas de recriação quando o tradutor opta por abrir mão de algumas formas fixas do original, em especial a rima. Isto pode enfraquecer certas passagens, mas não desmerecem o conjunto, já que há farto material extra no volume para fundamentar cada escolha. O volume se encerra com ilustrações do artista Paolo Ridolfi, de um estilo que oscila entre o expressionismo abstrato e o fauve, que traduz semioticamente passagens do universo febril de Eliot.

O poeta americano, radicado na Inglaterra, concebeu sua obra maior durante um período turbulento de sua vida. Acometido de transtornos psiquiátricos, estava em processo de divórcio da esposa, tão perturbada o quanto. Seu próprio chão devastado era o estopim para uma reflexão sobre a aridez da modernidade, atropelada por tanques de guerra e salpicadas de estilhaços de bombas lançadas a partir das trincheiras por onde percorriam, desorientados, os guardiões da herança ocidental.

Gilmar penetrou os escombros dessas trincheiras para reerguer o imenso cruzamento de fontes, influências e citações de seu original a partir de certo elemento cartesiano, que ele afirma ser natural a alguém graduado em engenharia, sem, no entanto, perder de vista o emprenho estético como bastião da obra.

A Terra Árida

Autor: T.S. Eliot

Tradução: Gilmar Santos Leal

Editora: HMC

​256 páginas

R$ 50

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*Donny Correia é poeta e ensaísta, mestre e doutorando em estética e história da arte pela USP. Autor de, entre outros, 'Corpocárcere' e 'Zero nas Veias'

Correções
05/03/2018 | 14h45

*Texto atualizado às 18h40 para a correção do nome do poeta, que se chama Gilmar Leal Santos, e não Gilberto

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