YOUSUF KARSH
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Thomas Mann constrói um Édipo cristão em seu clássico 'O Eleito'

Livro do autor premiado com o Nobel de Literatura é reeditado no País

Flávio Ricardo Vassoler*, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2018 | 16h00

Já a partir de seu início, a novela O Eleito (Companhia das Letras, tradução de Cláudia Dornbusch), de autoria do escritor alemão Thomas Mann (1875-1955), laureado com o Nobel de Literatura em 1929, parece anunciar, com muito lirismo e simbologia, por quem os sinos dobram: “Eco de sinos por toda a cidade, em seus ares repletos de som! Sinos, sinos, eles vibram e volteiam, ondulam e oscilam, abrindo movimento em seus vergalhões, em seus campanários, cem vozes numa confusão babilônica. Lerdos e ligeiros, roncando e rutilantes – não há aí nenhuma medida de tempo nem harmonia, todos falam ao mesmo tempo e todos se interpelam, interpelam também a si próprios; ressoam os badalos e não dão tempo ao metal excitado para que termine de ressoar, pois já ressoam, pendulares, em outra borda, na própria ressonância”.

No posfácio A Arte da Paródia e da Ironia, a crítica literária e professora emérita da USP Walnice Nogueira Galvão nos esclarece que, em O Eleito, “o tempo indeterminado é o do feudalismo de antanho, e o espaço centro-europeu de fronteiras mais ou menos fluidas tem base no ducado de Flandres e Artois. É razoável que assim seja: não era ainda claro, na Idade Média, antes da formação do Estado moderno, qual a ‘nacionalidade’ de cada um daqueles pequenos feudos. Vale lembrar que, no caso específico dessa região, só no século 19 a Alemanha, a exemplo da Itália mais longe, se unificaria e se tornaria pátria dos alemães”. 

Rebatizado como Clemens – o monge beneditino irlandês considera seu nome original, Morhold, deveras “selvagem e pagão” –, o narrador de O Eleito, a reboque da ironia fina que transpassa a obra de Thomas Mann, parece nos contar a estória, sem muito pudor cristão, como se estivesse espiando, inadvertidamente, através do buraco de uma fechadura. (Narrador/voyeur/juiz, Clemens, muitas vezes, não parece ungido com a virtude da clemência.)

Logo ficamos sabendo que o nobre Grimaldo, duque em Flandres e Artois, está para se tornar pai dos filhos da bela Baduhenna. Alheio ao desprendimento material de Jesus Cristo – afinal, o hábito beneditino não faz de Clemens um franciscano –, o monge nos revela que os futuros rebentos viverão em um castelo suntuosíssimo, com baús que explodem de tanto linho e damasco, móveis que reluzem à luz de porcelana-modelo de Assagauk, cofres secretos em que repousam várias moedas em ouro e joias de pedrarias milagrosas – mundano como ele só, Clemens faz um inventário das pedras preciosas como se seus dedos repletos de anéis estivessem transitando, em oração, pelas contas de um terço: “Carbúnculo, ônix, calcedônia, corais e outras tantas como ágata, pérolas, malaquita e diamantes”. 

Em meio a tamanha opulência, no entanto, Clemens nota com pesar: “Quão curiosa é a forma como a Providência mistura para nós, mortais, a alegria e o sofrimento num único cálice!” Não é improvável que Clemens, entrevendo Deus à sua imagem e semelhança, queira fazer do Criador um cúmplice a beber do mesmo cálice de sua inveja mundana, já que, a despeito da fartura, a tragédia despenca sobre a nobreza de Grimaldo: ao dar à luz os gêmeos Víliguis e Sibilla, Baduhenna falece. 

A partir de então, como se a menina Sibilla pudesse restituir a aura de Baduhenna, Grimaldo torce o nariz para Víliguis e arrasta as asas e o bigode para a filha mui amada. Ocorre que Sibilla, como que a seguir o instinto de suas amas, nota a cabecinha de Víliguis, “tão delicada e esperta sobre os ombros, e depois, lá embaixo, um membro daqueles! As amas estalavam a língua de felicidade, trocavam olhares sugestivos e diziam: ‘– Eis a esperança das mulheres!’”. Assim, deitada como a hipotenusa do triângulo incestuoso que enreda pai e irmão como catetos, Sibilla sussurra a Víliguis: “Eu gosto mais quando tu me beijas do que quando o nosso amado senhor me arranha o pescoço e as faces com o seu bigode cor de ferrugem”. 

Como que a redimir Baduhenna, Sibilla dá à luz um varão e sobrevive ao parto. (Pio, o monge Clemens bem poderia se perguntar: o fruto do pecado vem em nome do pai ou do filho?) Para expurgar sua (im)pureza, Sibilla lança o bebê ao mar num cesto. Milagrosamente, Gregor sobrevive e é resgatado junto à costa de uma ilha por pescadores e por um monge, por quem acaba sendo criado. Já adulto, a mão invisível do acaso (ou da Providência) reconduz Gregor até Baduhenna, agora alçada à condição de rainha. Inscientes de sua relação consanguínea, mãe e filho cedem ao desejo pagão e incorrem em incesto. Quando o descalabro vem à tona, Gregor é banido da cristandade, mas, dessa vez, o excomungado alcança o cume ao despencar: como se Deus escrevesse certo por linhas tortas, Clemens nos revela que Gregor, o Édipo cristão, ao fim e ao cabo se torna ninguém mais, ninguém menos que o Papa Gregório. 

*Flávio Ricardo Vassoler é doutor em letras pela FFLCH-USP, com pós-doutorado em literatura russa pela Northwestern University (EUA)

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