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Timeline de uma ocorrência

A peculiar trajetória de Gabriel, que trocou a classe média pela favela e foi preso por fotos no Facebook

Bruno Paes Manso, O Estado de S. Paulo

11 Julho 2015 | 16h00

Gabriel Scarcelli Barbosa, de 28 anos, trabalha como motoboy e neste momento está preso em uma das celas superlotadas do Centro de Detenção Provisória IV de Pinheiros. Gabriel tem Karina como companheira e um filho de 9 meses, chamado Guilherme. Seria mais um entre os cerca de 200 mil homens aprisionados no Estado. Ocorre que a vida de Gabriel tem certas peculiaridades.

Uma delas é a forma como foi preso. O motoboy é acusado de participar de uma quadrilha de roubo de carros que atuava na Vila Mariana, bairro paulistano de classe média. O Facebook foi usado pela polícia para chegar ao seu nome. Outro detalhe na investigação é que o delegado federal que presidiu o inquérito foi vítima de um dos roubos, fato que, segundo juristas, coloca em dúvida sua razoabilidade e imparcialidade.

Mais um ponto sui generis da trajetória de Gabriel se refere ao caminho que ele vem trilhando em busca de um sentido à própria vida. Gabriel é filho de uma professora de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de São Paulo (USP) e de um engenheiro da General Motors. Rebento único de um casal engajado politicamente, que atuou nas Comunidades Eclesiais de Base da zona leste, Gabriel viajou por diversos países do mundo quando criança e estudou em bons colégios.

Conforme crescia, no entanto, passou a questionar sua origem social e cultural. Escolheu não fazer faculdade e criou laços de amizade com os moradores da favela Mario Cardim, na Vila Mariana, vizinha ao prédio de classe média onde cresceu. Sua companheira, Karina, foi criada lá. Antes de ser preso, Gabriel construía uma casinha na favela, na qual pretendia morar com a nova família. Parecia satisfeito com o trabalho de motoboy.

A mãe de Gabriel, a professora Ianni Scarcelli, acredita que o filho está preso por ser amigo dos moradores da favela. “Do que Gabriel é culpado? De ter avançado os limites de territórios de exclusão que protegeriam cidadãos de bem pertencentes às classes sociais mais ricas?”, questiona. “Ele nunca foi acusado de crime nenhum, sempre trabalhou. É absurdo tudo isso”, diz.

O destino de Gabriel começou a ser definido em 17 de agosto de 2013, quando o delegado da Polícia Federal Kleber Massayoshi foi assaltado dentro de uma oficina mecânica na Vila Mariana. O delegado se recorda que dois homens armados chegaram para levar rodas de liga leve. Os ladrões também roubaram a carteira e dois celulares do delegado, sendo um deles de uso funcional do Departamento da Polícia Federal. “É por isso que a PF assumiu um caso que normalmente seria investigado pela Polícia Civil paulista”, explica Massayoshi.

O caso foi inicialmente distribuído para a delegacia de Crimes Patrimoniais, onde Massayoshi trabalhava. Outro delegado assumiu o caso, mas ele acabou sendo transferindo. Foi então que o delegado Vladimir Schinkarew redistribuiu o inquérito para o delegado vítima do roubo. “Não há questões processuais que o impeçam de atuar no caso”, defende Schinkarew. “Suspeição poderia haver se o autor do crime fosse parente do delegado. A gente nem sabia quem era o autor. A investigação foi técnica.” Ao longo das apurações, os celulares roubados foram localizados e grampeados.

As imagens da oficina também haviam registrado o rosto dos autores do crime. Eles viviam na favela Mario Cardim e a autoria do roubo foi bem documentada. Duas pessoas foram acusadas. Até então, o nome de Gabriel e dos demais moradores da favela não estavam envolvidos com o assalto à mecânica.

O delegado, porém, passou também a investigar uma suposta quadrilha de roubo de carro que atuava no bairro, formada por amigos dos ladrões identificados na oficina. Entrou em contato com o 6° Distrito Policial e solicitou que fossem enviados os casos de roubos de automóveis dos últimos meses. Chegaram cerca de 20 inquéritos. Ao mesmo tempo, o delegado passou a pesquisar na página do Facebook de um dos acusados do assalto na mecânica os nomes e as fotografias de seus amigos virtuais. Gabriel era um deles.

Essas fotos foram mostradas às vítimas dos casos de roubo de carro de autoria desconhecida. Foi então que Gabriel e outros amigos que moravam na favela passaram a ser relacionados à história como integrantes da quadrilha. O motoboy foi identificado pelas vítimas de dois casos. Magno, outro morador da favela Mario Cardim que estava na timeline do facebook, foi reconhecido em dez casos. O delegado Massayoshi afirma que as vítimas demonstraram convicção no reconhecimento, mesmo em assaltos ocorridos meses antes.

O passado de trabalho de Gabriel e dos amigos e seus currículos sem deslizes não serviram para aliviar as suspeitas. Gabriel trabalhava havia seis anos como entregador em uma famosa pizzaria no período da noite. Completava o salário com um segundo emprego de entrega durante o dia. Magno era o chefe dos motoboys da mesma pizzaria e respeitado pelos colegas de trabalho e pelo chefe. Joilson, também motoboy e morador da favela, chegou a ser preso e depois solto por não ter sido reconhecido pessoalmente (Magno e Joilson não autorizaram a reportagem a mencionar seus sobrenomes).

Há ironias nessa história. No dia 8 de junho deste ano, véspera de seu aniversário, Gabriel teve o carro roubado no bairro. Um jovem armado o abordou e levou seu Ônix comprado em várias prestações enquanto Gabriel estacionava para ir ao médico. Na mesma época, Joilson também teve seu Vectra roubado. Estava com seu filho de 4 anos dentro do carro, mas o ladrão deixou que ele o tirasse antes de partir. 

Em novembro do ano passado, uma operação cinematográfica foi montada para prender os suspeitos da investigação da Polícia Federal na Mario Cardim. Moradores contam que eram dezenas de homens armados e encapuzados da PF, que fecharam as ruas e deixaram assustadas as cerca de 350 famílias que vivem no local. Gabriel foi procurado na casa da mãe, no bairro da Vila Mariana, mas ele não estava. As prisões foram revogadas. Mas Gabriel teve sua prisão novamente decretada no dia 21 de junho. Nesse dia, foi preso no local de trabalho. 

“O fato de a vítima do roubo ser o responsável pelo inquérito torna a investigação tendenciosa desde o começo. A sensação de impotência diante da agressão acaba contaminando a isenção profissional esperada do delegado”, afirma o professor do Departamento de Direito Processual da USP, Maurício Zanoide. “A investigação do roubo de um celular que se estende para dezenas de casos não me parece uma tentativa de se fazer justiça, mas de se passar um recado: ‘não mexam comigo nem com a Polícia Federal’! Falta razoabilidade nas decisões de alguém que investiga o próprio roubo do qual foi vítima.”

“Os procedimentos dos roubos de carro que investigamos eram semelhantes ao roubo de carro feito para assaltar oficina, por isso havia indício de uma quadrilha que usava os mesmos métodos no bairro”, diz o delegado Massayoshi.

A trajetória de Gabriel é indagada com perguntas que se repetem. O que faz um menino de classe média deixar sua casa, abrir mão dos estudos e preferir viver na favela? Essas escolhas não deixaram passar imunes seus pais. Ianni diz que boas explicações para compreender o filho lhe foram sopradas principalmente pela mestra zen-budista Monja Coen.

Gabriel buscou na favela Mario Cardim o conforto familiar que havia perdido bruscamente. Quando criança, ele era muito chegado à avó que morava na Vila Alpina. Convivia com tios, primos e uma vizinhança cujas relações eram amigáveis e solidárias. Gabriel tinha 5 anos quando a avó morreu de um câncer fulminante. “Isso causou uma perda irreparável e a família extensa se dispersou”, diz Ianni, que acha que a favela em frente ao prédio na Vila Mariana levava o filho a associar o lugar com a época feliz que vivia com a avó na periferia da zona leste.

Na elaboração do luto, a pequena família encontrou refúgio em viagens pelo mundo. Pai, mãe e filho foram a acampamentos isolados no Quênia, trilharam pelo Nepal, Vietnã e Mianmar. Mantinham o discurso de não discriminar povos, pessoas e profissões.

Essas experiências e valores não facilitaram a trajetória escolar de Gabriel, cujos questionamentos sobre modos de ensino e conteúdos eram constantes. Embora tivesse notas boas e gostasse de estudar, foi perdendo o interesse pelo ensino formal. Completou o segundo grau aos trancos.

Os pais, contudo, percebem que hoje não há sentido em remoer as escolhas feitas pelo filho e terem respostas a tantos porquês. Só que há uma diferença, contra a qual prometem lutar. Gabriel segue agora com a marca da favela. Será suspeito, até que prove o contrário.

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