Vanderlei Almeida/AFP
Vanderlei Almeida/AFP

Tite, o pacificador

O clima era tenso antes, bélico até. Veio Adenor e clareou o caminho: isolou-se da CBF e trouxe a confiança de volta à seleção

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2016 | 04h00

SÃO PAULO - Tite não é o cara, como ele mesmo ressaltou, sem tanta convicção, diga-se, no dia que antecedeu a partida do Brasil com a Venezuela em Mérida, pelas Eliminatórias da Copa. Mas bem que poderia ser. Seu nome nunca esteve tão em voga. O treinador da seleção brasileira já entendeu o tamanho de sua missão à frente do time nacional até o Mundial de 2018, que será disputado na Rússia. Descobriu em quatro jogos, no resumo de sua ópera até agora, que o torcedor não abandonou a seleção como se imaginava, apenas deu um tempo por não acreditar, desconfiar até, tamanha era a escuridão que se abateu sobre ela.  Em 360 minutos, divididos em quatro apresentações de 90, Tite resgatou o sentimento positivo das ruas em relação ao time nacional, fez dos ovos que tinha um até agora delicioso omelete e vai alimentando a fome do seu elenco a fim de voltar a dar as cartas no cenário esportivo, onde, até bem pouco tempo atrás, era admirado e temido na mesma proporção. 

Tite faz o que seus antecessores não conseguiram, principalmente Dunga, importante para a história do futebol nacional, sobretudo em 1994, quando ergueu a taça (e xingou todo mundo) após a seleção ganhar o tetra nos Estados Unidos, contra a Itália, de Roberto Baggio, mas sem qualificação nenhuma para comandar o Brasil em duas ocasiões, uma delas na Copa do Mundo da África do Sul, em 2010, cujo resultado em Port Elizabeth todos conhecem.

Tite, numa comparação até covarde dada experiência e caminho de ambos na função de treinador, mostra-se muito mais preparado, feito luz e trevas aos olhos do torcedor e jogador, além de boa parte da crítica. Junta-se a isso a percepção de que o cargo lhe foi entregue no ápice de sua maturidade profissional, intelectual, de vida, numa situação consistente e sem sobressaltos que possam desviá-lo do rumo, tirá-lo do foco. Como poucos que pulam de galho em galho para não entrar na fila do desemprego, de modo a amassar a carteira de trabalho no bolso de trás da calça, Tite soube aproveitar seu período sabático, quando resolveu dar um tempo para viajar, conhecer novas culturas e se aprofundar no que entendia como carência em sua formação e, claro, dar uma boa espiada no que seus colegas da Europa estavam fazendo. Tite não se limitou a tirar selfies com os técnicos europeus em seus respectivos clubes na Espanha, Itália ou Inglaterra. Não mesmo. Foi beber da água que eles bebem. Prestou atenção no que falavam.

É certo que não precisava, porque, como muitos, poderia se defender do jeito que estava, ora dando certo aqui, ora ali, mas sempre se colocando à disposição de socorrer times em frangalhos, vez ou outra até ganhando campeonatos. Sempre soube, no entanto, que seu caminho, mais cedo ou mais tarde, desembocaria na porta da CBF no Rio de Janeiro. Então, o período sem trabalhar lhe foi extremamente proveitoso.

Isso não é tudo. Tite carrega em seu modo de ser, à beira do gramado e dentro do vestiário, em treinos e na vivência com os jogadores, uma característica incomum no mundo autoritário, ranzinza e quase sempre desleal do futebol: o respeito mútuo. Tite fala, mas ouve. Tite decide, mas acata opiniões. Tite manda, mas prefere que suas ideias sejam compradas. Diferentemente de outros, consegue, com seu jeitão, motivar os atletas de modo a fazer com que sigam seus passos, táticos e técnicos, sem perceber que o fazem, como se eles próprios estivessem andando na frente, apontando o caminho. 

Certa vez, o zagueiro paraguaio Fabián Cornelio Balbuena González, ainda quando o treinador estava no Corinthians, elogiou Tite, num gesto pouco comum de quem era reserva, estrangeiro e ainda não tinha perspectiva de ser usado no time. Balbuena disse que Tite sabia motivar todos os jogadores, mesmo aqueles que, como ele, não estavam jogando, mas atentos às oportunidades quando elas aparecessem.

Esse jeito Tite de ser inundou a seleção de esperança. Muita conversa, olho no olho, participação aberta daqueles que querem participar. Não é um time sem comando. É um grupo em que todos podem comandar. Prova disso é sua disposição de rodar a braçadeira de capitão, fazendo do gesto um mecanismo para dar voz a quem nunca foi ouvido, buscar referências e destacar um entre todos os outros, mesmo que por apenas 90 minutos, para lá na frente ter um elenco em harmonia, todos iguais, de importância semelhante no contexto, apenas separados por suas posições dentro de campo. Tem habilidade para sacar jogadores da formação titular sem criar bicos ou melindres. Fez isso com Willian e Philippe Coutinho. Soube até mesmo se afastar dos asquerosos da CBF, isolando-se na Casa do Futebol e se cercando de sua gente, em quem confia e acredita, de modo a não ferir egos e cumprir seu papel de funcionário.

Mas Adenor Leonardo Bacchi não é esse mago que todos começaram a reverenciar desde sua estreia contra o Equador, na altitude de Quito. Não há mágicos no futebol, muito menos no futebol moderno. Ele sabe disso. Os elogios são excessivos, já passaram do ponto até mesmo para quem ajudou a levar a seleção ao alto da tabela.

Nesse novo trabalho, até então pressionado pela participação do Brasil na disputa da Copa da Rússia (estava em sexto lugar nas Eliminatórias), mais valia tirar a equipe do vale das trevas, com jogadores no fio da navalha, sem poder errar, e com um comandante disparando que ninguém tinha lugar cativo, do que implantar novo estilo imediatamente. Conseguiu as duas coisas. O clima era tenso antes, bélico até, mas principalmente sem caminho claro. Não havia a certeza de que a trilha levaria a algum lugar.

Não seria demais, voltando a fazer uma comparação covarde entre Tite e seu antecessor, afirmar que os jogadores estão hoje muito mais alegres e envolvidos, e isso nada tem a ver com as quatro vitórias da pequena era Tite na seleção. Estão assim porque sabem e confiam que o treinador os levará para a próxima Copa do Mundo, sentimentos que não tinham, muito menos de que o técnico estaria com eles até o fim da jornada, como de fato não está mais. Tite não é o cara, mas bem que poderia ser.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.