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Toda a pedagogia de Paul Valéry no belo 'Lições de Poética'

Livro reúne palestras que o poeta francês proferiu no Collège de France

Cario Sarack*, Especial para O Estado

18 Agosto 2018 | 16h00

Do primata que usa o galho e cutuca os buracos no chão para retirar as gordas formigas não confundimos seu movimento com o gesto inútil daquele homem que sente o profundo tédio de quem está convalescendo. “Para o animal pode-se dizer que nada é inútil. Para o homem é mais incerto” (p.72), escreve-nos o poeta francês Paul Valéry, publicado este ano pela Âyiné sob o nome de Lições de Poética, palestras que ministrou no Collège de France. O tempo do homem que se entedia, que mergulha na melancolia, passa tão disperso e incerto que nem mesmo o mais ridículo e despropositado dos gestos animais consegue ser compatível; afinal, o primata que dá piruetas, os filhotes que mordem as orelhas dos progenitores, todos eles não sentem o tempo escoando e sendo perdido, mas sentem as justaposições de seus momentos como alguém que não enxerga um palmo diante de si, porque não projeta virtualmente seu futuro no seu aqui e agora. Valéry enseja o debate sobre a poética a partir da simplificação de suas raízes: se o poeta-professor dissesse que a arte, ou melhor, toda criação artística parte de princípios totalmente diversos dos quais instintivamente teríamos se não fôssemos dotados de razão, ele nos dividiria em dois, sendo a razão uma espécie de condutor e controlador dos nossos mais naturais impulsos e sentidos – e “naturais”, aqui, tem seu significado mais forte. 

Não é assim que o francês procede em suas Lições de Poética. Valéry não cinde a humanidade em dois, vontade e entendimento, mas quer conjugá-los de forma que o vínculo profundo entre eles ressoe das próprias atribuições que a obra instaura, terminada pelo autor e em disposição àquele que a perceberá. Toda obra de arte ou, diz Valéry, obra do intelecto é um ato. Dizê-lo é impedir que a materialidade da arte, aquilo que nossos sentidos reconhecem como ocupante de um espaço e um tempo de nossa apreciação, torne-se objeto reduzível às suas partes ou ainda que possa ser segmentado pelo olhar do entendimento que busca defini-lo em causas sempre anteriores e mais primárias. A poesia das lições de Valéry está na transformação indecifrável, mas persuasivas, que a arbitrariedade do artista sofre quando o receptor compreende a necessidade desse efeito poético, como na imagem com que o escritor nos presenteia: “como quem contrapõe um ímã à confusão de um pó misturado, do qual um grão de ferro se desembaraçará de repente” (p.38). Para Valéry, aquilo que é belo é verdadeiro.

Mas como se imbricam “necessidade”, ideia que nos remete à condição ou ao fundamento, e “arbitrariedade”, ideia que nos leva a pensar na artificialidade ou na força antinatural de alguma ação? O fazer poético é uma gratuidade? Para que serve seu produto? “Toda obra deve ser considerada uma transformação que tem uma transformação por objeto” (p.59) – mas se não há ponto original, de ação direta, isto é, se não há um dos lados dessa obra, receptor ou autor, que tenha completa clareza dessa tal transformação materializada em obra, de que modo a poesia pode sugerir um fazer eficiente desta mulher ou daquele homem que não podem mais justificar seu sutil frenesi criativo? Da tarefa do autor, deste indivíduo que não sai de nossa cabeça quando somos tocados pela sua obra é possível que uma abertura seja percebida. Lembro-me da pequeníssima história com a qual Ítalo Calvino fecha seu texto sobre a rapidez: “Entre as múltiplas virtudes de Chuang-Tsê estava a habilidade para desenhar. O rei pediu-lhe que desenhasse um caranguejo. Chuang-Tsê disse que para fazê-lo precisaria de cinco anos. Passados cinco anos, não havia sequer começado o desenho. “Preciso de outros cinco anos”, disse Chuang-Tsê. O rei concordou. Ao completar-se o décimo ano, Chuang-Tsê pegou o pincel e num instante, com um único gesto, desenhou um caranguejo, o mais perfeito caranguejo”. Valéry sublinharia “o mais perfeito caranguejo que jamais se viu”, mas adicionaria que depois de visto o perfeito caranguejo traria à tona uma transformação em todos os que o viram, mesmo que Chuang-Tsê jamais pudesse definir todos os alcances ou refazer os caminhos de seus alcances. A obra intervém naquele que a percebe sem que precise da decisão de seu criador.

O exercício metódico do francês nos embaça a vista, promove com suas comparações e com suas digressões uma espécie de pintura impressionista em que os traços vão se sobrepondo e se confundindo: não sabemos mais ao certo e até aqui o que seja fundo ou forma, mas quando deixamos de nos prender aos espaços vazios, às imprecisões e indefinições como fossem falhas num processo, podemos perceber que “há um excitação perpétua e indeterminada, uma diversidade heterogênea e constante, contra a qual reagimos.”. Há uma certa indefinição rigorosa e meditativa que, para Valéry, é a nossa proporção humana de deslimite e transcendência.

* Caio Sarack, mestre em Filosofia, é professor do Instituto Sidarta e do Colégio Nossa Senhora do Morumbi

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