Toda uma desesperada lucidez

Releitura de 'A Cabra Vadia', de Nelson Rodrigues, mostra como ficamos asfixiados pela 'ditadura do bem'

Luiz Felipe Pondé*, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2008 | 00h25

"Mas a razão é todo um maravilhoso esforço, toda uma dilacerada paciência, toda uma santidade conquistada, toda uma desesperada lucidez"Nelson RodriguesFaz bem ler alguém que não tem medo. Dá saudade de gente como Otto Maria Carpeaux, Paulo Francis, Edmund Wilson. Melhor ainda, alguém que se reconhece como um ex-covarde (que elegância no tocante aos afetos e às virtudes!), principalmente depois que a vida intelectual foi submetida à ditadura da construção político-social. Como se uma "política da palavra" não deixasse qualquer membro da Stasi (a Gestapo da Alemanha Oriental) em êxtase. Hoje (quase) todo intelectual, acadêmico, jornalista quer salvar a pele salvando o mundo e por isso (quase) todo mundo fala a mesma coisa. A monotonia dos afetos corretos. Todo imperativo de pensar para a saúde político-social é totalitário. A preocupação essencial de quem escreve para ser lido por muitos é não ter preconceitos, fora os "preconceitos do bem" que toda pessoa bacana tem: contra a Igreja Católica, o papa, o mercado, os homens brancos heterossexuais, os contra o aborto, sei lá... Não é muito diferente de quando num jantar de gente bacana e inteligente (descendentes diretos da grã-fina amante espiritual de Che Guevara) você solta alguma gafe como "eu acho que o mal existe" ou "não sei se engulo essa coisa de toda cultura é válida". O silêncio que se segue, no fundo, é a homenagem tímida que o medo presta à coragem (muito otimista?). Melhor se você confessasse que faz sexo com seu pastor alemão, aí você estaria acendendo uma vela no altar da biodiversidade. O principal "preconceito do bem" é assumir que você, se não tem medo da "polícia política do bem", deve ser do mal. Ler o colunista Nelson Rodrigues é uma rara experiência de liberdade e coragem, esta última, uma virtude rara sempre que a unanimidade domina. Na democracia podemos experimentar, ao lado de suas conhecidas vantagens, o advento da tirania dos "idiotas" (tese central de Nelson, risco percebido por Tocqueville em 1831). Como não sonhar com aqueles filmes B dos zumbis comedores de cérebro? A Cabra Vadia - Novas Confissões (relançado pela editora Agir) é absolutamente contemporâneo, apesar de ter seu epicentro em 1968. A tentativa de reduzir suas "confissões" ao sofrimento pessoal é equivocada, a menos que reduzamos toda e qualquer opinião a algum dado doméstico comum, como falta de dinheiro, falta de mulher (ou de homem), falta de saúde ou abundância de interesses materiais - nada que não domine a vida na quase totalidade das horas. O reconhecimento de que o abandono do medo foi fruto de muito sofrimento, como fala Nelson, não é uma inferência lógica evidente: na maioria das pessoas, pouco sofrimento já implica muita devoção aos carrascos.É cirúrgica a percepção de que o "terrorismo do coletivo" implica a solidão da inteligência e da sinceridade. A chave histórica dessa revolução é que os idiotas, um dia, depois de uma ancestralidade de atividades banais, perceberam que eles são maioria. O vocabulário do "pensar com as sensibilidades sociais" prepara a santificação da maioria e o confisco da alma que pensa. Nelson, vendo Sartre humilde, ao lado dos "grevistas do nada" de maio de 68, tem a visão do óbvio ("só os profetas vêem o óbvio", segundo nosso colunista nordestino): para sobreviver, faremos cursos para aprendermos cientificamente a ser idiotas.A razão é sempre um milagre, existe em pouquíssimas quantidades no mundo. Uma das mentiras que Nelson percebe é que possa existir uma razão construída socialmente: os seres humanos não são razoáveis, principalmente quando os encontramos em grandes quantidades. O conceito de "idiota da objetividade" narra a comédia desse particular fracasso: o idiota da objetividade é alguém que, no fundo, inveja a objetividade das abelhas e gostaria da tranqüilidade de pensar como elas. A falsa ciência do pensamento social da época pode se manifestar em clichês como a "razão da idade": o "jovem" e suas virtudes inatas anunciam, não só o risível de uma virtude associada à idade, como o medo atual que temos diante do envelhecimento. Hoje Nelson perceberia que aqueles "jovens" se transformaram nas agonizantes "paquitas velhas" de todos os sexos. A forma como tremem diante dos filhos adolescentes revela sua descendência: não amadurecer é a única forma de sobreviver. Quanto às suas críticas à "esquerda festiva", talvez hoje ele percebesse como a festa se mantém: a "nova esquerda" continua exercendo sua natureza cult de caça às bruxas. Mesmo com o fim da ditadura do mal (o golpe de 64), permanece a asfixia das ditaduras do bem, menos sangrentas, não menos letais e invisíveis.Enfim, Deus. Nada mais retrógrado. Um dos tipos que habitam suas "confissões" é o canalha Palhares. Ele ensina ao Nelson que o máximo é ser ex-católico. Essa categoria não é uma abstração literária. Do "padre de passeata" ao "bispo da fome" (o "dom Helder" do Nelson), suas "confissões" percebem "la muerte" da teologia latino-americana afogada nas missas com samba e templos de protestos sociais. Nelson suspeita de uma certa falta de pudor nessa teologia, semelhante àquele "padre de festa" que prega o amor livre e critica meninas tímidas, como se não soubéssemos que não há nada mais longe do amor do que a simples liberdade. O anacrônico Nelson lamenta a morte da lucidez, tudo porque temos medo. Sempre tivemos medo: desde a caverna a vida é um escândalo, como diria Elias Canetti, cada animal sobrevive graças aos cadáveres que contempla sobre o terreno baldio. A diferença é que a "a razão dos idiotas" capitula diante desse espelho. * Luiz Felipe Pondé é professor da pós-graduação em ciências da religião e do departamento de teologia da PUC-SP. Leciona também na FAAP e na Escola Paulista de Medicina. É autor, entre outros, do livro Do Pensamento no Deserto (Edusp)

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