'Todo camburão tem um pouco de navio negreiro'

Carta aberta a um jovem da periferia

Sílvia Ramos, cientista social, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2008 | 22h25

Pesquisas que o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, da Universidade Candido Mendes, do Rio de Janeiro, realiza desde 2003 mostram que enquanto 62% da população nunca foi parada pela polícia, alguns já foram abordados mais de dez vezes. Estes são quase todos jovens, do sexo masculino, negros e moradores de periferias. É o que chamamos taxa de risco IGCC: idade, gênero, cor e classe. Quando articulada com territórios excluídos forma uma "geografia da dura", que descreve não só aqueles que são mais parados pela polícia como a qualidade do tratamento dispensado. Entre os que já foram parados, os que se declararam negros foram revistados em 55% das vezes, enquanto os brancos em apenas 32,6%. A maioria dos moradores de favela que entrevistamos está convencida, como diz a música do Rappa, que "todo camburão tem um pouco de navio negreiro". Eles vivem experiências reiteradas, muitas vezes humilhantes e algumas vezes violentas, de serem parados, tratados como criminosos e em seguida dispensados por policiais que se mostram frustrados por não terem encontrado nada com o elemento suspeito. Os policiais entrevistados, por sua vez, consideram as abordagens um procedimento arriscado, mas necessário. Justificam as atitudes duras como normas de defesa. Muitos são negros e recusam o rótulo de preconceituosos. Vários contam que foram ofendidos por serem negros e por serem policiais por pessoas que argumentam: "Sabe com quem está falando?" Jovens negros com quem fizemos dinâmica de grupo disseram que "policial não tem cor, tem farda", isto é, quando são policiais, sua origem tende a ser sobreposta pela cultura racial da corporação que identifica jovens negros como suspeitos, especialmente se tiverem a estética e a atitude da periferia. A cartilha A Polícia me Parou, e Agora?, lançada pela Secretaria Especial de Direitos Humanos, é bem-vinda. Ela não resolve, mas inicia uma conversa de direitos e deveres entre jovens e policiais que o Brasil precisa enfrentar há muito tempo.

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