#todoscondarin O mais famoso ator argentino decide peitar Cristina Kirchner e vira trending topic no Twitter Personagem

FLAVIA GUERRA

O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2013 | 02h06

Não sou muito valente", despistou o ator e diretor argentino Ricardo Darín quando esteve em São Paulo, em novembro de 2010, para lançar Abutres, polêmico longa-metragem que narra a história de um advogado de seguradora que vive como um urubu prestes a se aproveitar da carniça deixada pelos acidentes no trânsito. "É uma realidade dura e injusta. Quando lançamos, foi uma surpresa porque os argentinos não esperavam essa postura do diretor Pablo Trapero de fazer um filme tão forte", contou ele ao Estado na época.

O que os argentinos não estavam esperando, isto sim, era a refrega do ator, na verdade muy valente como no?, com a presidente Cristina Kirchner ocorrida nessa semana. Em entrevista ao jornalista Pablo Perantuono, do La Nación, Darín declarou que "gostaria que alguém me explicasse o crescimento patrimonial dos Kirchners. Como eles não têm vergonha na cara? Como pode ser?". E citou os US$ 18,8 milhões declarados pela presidente no ano passado como patrimônio. Em 2003, quando a dinastia K teve início, ela e o falecido Néstor somavam, juntos, US$ 1,47 milhão.

Darín é um dos maiores nomes do cinema argentino e mundial. De Nove Rainhas a Abutres, passando por O Segredo dos seus Olhos, ele esteve na linha de frente de um cinema latino-americano que se provou capaz de abocanhar dois Oscars de Melhor Filme Estrangeiro (Segredo, em 2010) e fazer milhões de bilheteria, fazendo frente ao sistema de que "filme que vende é filme de Hollywood".

Desta vez, ao pisar no joanete de Cristina, Darín também fez frente a um tipo de sistema da unanimidade e da ausência de críticas, no qual, uma vez artista na Argentina, ou você apoia completamente ou está contra o governo Kirchner. Nesses dias de hoje, "artistas sempre precisam fazer alianças, se relacionar, ter seus projetos apoiados ou aprovados por leis e fundos de incentivo público. Não é qualquer um que sai dando a cara a tapa", comentou um profissional do cinema argentino, que por supuesto não quis se identificar.

A ousadia de Darín surtiu o mesmo efeito inspirador, ainda que negativo, na presidente. Diante da crítica pública, Cristina respondeu com uma carta no Facebook, que havia recebido, até a noite de sexta, 12.571 curtidas. Em 22 parágrafos e 11.104 caracteres, La Kirchner só faltou elogiar os belos e sedutores olhos azuis do ator para, então, parabenizá-lo por seu imenso talento e, finalmente rebater afirmando que os bens dela foram exaustivamente investigados ao longo dos anos e nada de irregular foi jamais encontrado. Ao contrário de Darín, que, disse ela, apesar de sempre tão atento com as coisas alheias, há 20 anos entrou no país com uma caminhonete em situação irregular, com uma licença especial para portadores de deficiência. Como um Marcos de Nove Rainhas (filme em que ele vive um golpista), o ator teria feito vista grossa para o enrosco legal do carro e, segundo a presidente, só se safou porque o crime prescreveu. E bateu un poco más: "Perdão, não desejo mal a ninguém, mas menos pior que 'os Kirchners' não estavam no governo, ou teria sido considerado uma perseguição política."

Se foi inesperada, foi também bem-vinda a provocação do ator. No mesmo dia em que o incidente ocorreu, um dos trending topics do twitter era #todoscondarin, em solidariedade a sua valentia, provando que entre a classe artística e a população unanimidade não é a melhor palavra para se usar quando o assunto são os Kirchners.

Não todos, mas muitos estão com Darín, que tem projetos com diretores brasileiros em fase de estudo e fama de um sujeito, digamos, engajado, mas não polêmico. Envolve-se com causas do Greenpeace e considera temerária a posição de um artista que se deixa cooptar pelo governo. "Acho que a essência e a chave do entendimento humano são falar abertamente de tudo. Não devíamos tentar impor nada. O melhor caminho para dar nossa opinião é mostrar e expor. Se for de forma artística, melhor. Quando um tema é importante, deve-se deixar que flua", declarara também ele, na entrevista de 2010.

Desta vez, no entanto, talvez tenha avaliado que se excedeu um pouco. Procurado pelo Aliás para falar sobre o assunto, afirmou que por ora não está concedendo entrevistas e prefere tratar do assunto em uma conversa a sós com Kirchner. "É uma pena, porque ele fala muito bem. Além de ser um sedutor em tudo, é muito persuasivo e pode influenciar, para o bem, uma classe artística e consumidora de arte, que anda um tanto quanto anestesiada quando o assunto é política", declarou um roteirista argentino sobre a coragem do ator de peitar a presidente justamente em uma semana em que ela aparece por toda Buenos Aires em pôsteres heroicos, celebrando a recuperação da fragata Libertad, confiscada em Gana por causa dívidas argentinas com um fundo de capital.

A resposta de Cristina, considerada "barroca" pelo ex-promotor federal e atual deputado da oposição Manuel Garrido, que afirmou que a presidente não respondeu à pergunta do ator, também frustrou outros membros da classe artística.

Segundo Perantuono, para Darín é como se os argentinos vivessem em um país que não perde a oportunidade de perder uma oportunidade. "Que esta seja a oportunidade para não se perder mais. É preciso acabar com este clima de River x Boca e começar a dialogar", escreveu o jornalista.

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