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Tom perfeito

Ao saber que os Beatles eram mais tocados que ele, Tom Jobim não se entregou: ‘Mas eles são 4’

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

06 Dezembro 2014 | 16h00

Escalado pela Folha de S. Paulo para escrever o obituário de Tom Jobim, em 8 de dezembro de 1994, não fiz por menos: “Morreu o nosso melhor Antonio. Morreu o nosso melhor Antonio Carlos. Morreu o nosso melhor Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o nosso único Tom Jobim, o nosso único Tom perfeito”.

Depois fui cobrir seu velório no Centro de Visitantes do Jardim Botânico do Rio e testemunhar de pertinho a dor dos familiares, privilégio que só usufruí por estar acompanhado de Maria Lucia Rangel, única repórter (então do Jornal da Tarde) com trânsito livre entre os Jobins por ser velha amiga de Tom, cuja parceria com Vinicius de Moraes tivera por padrinho o historiador e crítico musical Lúcio Rangel, pai da jornalista. 

Ficamos um bom tempo à beira de um pequeno lago com Ana Jobim, viúva de Tom, e seus filhos, João e Maria Luiza. Exceto por dois ou três detalhes - os dois relógios que Aninha trazia no pulso (o do Tom com a hora de Nova York, o dela com a hora do Rio), a minúscula flor que a certa altura Luiza, com a pureza dos seus 6 anos de idade, colheu para dar à mãe - nem sequer me lembro sobre o que conversamos para desanuviar aquela tristeza com jeito de não ter fim. Não me sentia ali um repórter, mas um órfão a mais do Tom, a compartilhar uma dor coletiva, um sentimento de perda que ninguém definiu melhor do que Arnaldo Jabor: “A morte de Tom Jobim não foi apenas a queda de uma árvore, foi a derrubada de uma floresta”.

O inevitável e protocolar clichê que em tantas outras ocasiões soara hiperbólico daquela vez não foi questionado: sem Tom a música popular brasileira não só ficara mais pobre como o vazio por ele deixado nunca seria preenchido. Os sobreviventes que me desculpem: Tom era um gênio insubstituível, o mais inspirado, respeitado e versátil compositor que já tivemos, exímio em qualquer gênero e ritmo, uma síntese magnífica de Villa-Lobos com Ernesto Nazareth, Pixinguinha e Ary Barroso. E também o nosso Gershwin.

Do seu tope, no início dos anos 1960, apenas dois ou três (Henry Mancini, Michel Legrand, talvez Burt Bacharah) podiam ameaçar sua hegemonia, noves fora a dupla Lennon-McCartney, que, aliás, ainda não havia estourado quando Vinicius de Moraes proclamou, no Diário Carioca, que nem Mancini nem Legrand “chegavam aos pés” do seu parceiro.

Mancini ficou devendo uma parcela de seu sucesso no cinema à recusa de Tom a compor as trilhas sonoras de A Pantera Cor-de-Rosa e Um Caminho para Dois. Mas nem ele nem Legrand foram convidados para acompanhar e cantar com Frank Sinatra num show de TV, por exemplo, e tampouco tiveram tantos hits internacionais quanto o autor de Garota de Ipanema. Ao saber que das músicas com mais de 1 milhão de execuções no mundo inteiro 12 eram dos Beatles e “apenas” 7 de sua autoria, Tom não entregou os pontos: “Mas eles são quatro”.

Uma vantagem Mancini e Legrand levaram sobre o nosso maestro: ter Johnny Mercer como letrista. Mas o sonho de contar com Mercer como seu Vinicius americano jamais se concretizou. Enfastiado com as versões de suas músicas cometidas por Norman Gimbel, Gene Lees e outros letristas de limitada densidade poética, Tom verteu por conta própria os versos de Águas de Março e escreveu do zero as letras de Chansong e Two Kites, só com a ajuda de um dicionário. Ou mais de um, pois dicionário era o que não faltava em sua casa no Rio, nem no apartamento de Manhattan.

Era um vernaculista, saboreava as palavras com prazer quase erótico, sabia o nome de todas as árvores e passarinhos, e muito se orgulhava de seu rico vocabulário inglês. De uma feita, no meio de uma entrevista, desafiou-me para “uma visita à feira”. Era assim: ele dava o nome de um legume, uma fruta ou uma verdura e eu tinha de traduzi-los para o inglês e vice-versa. Quando ele soltou “quiabo” e eu respondi de primeira: okra, a porfia chegou ao fim, e nos perdemos em outras digressões.

Tom era duro de entrevistar. Divagava e tergiversava a torto e a direito, como se os assuntos que estávamos abordando o entediassem e deles quisesse fugir pela tangente. Marcamos uma conversa na Phonogram, durante as gravações do LP Passarim, em 1987, a cinco dias dos seus 60 anos. Tudo corria nos conformes quando cometi o desatino de aludir ao songbook de Ella Fitzgerald com canções de Johnny Mercer, que acabara de ser lançado aqui. Embalado pelas mais deliciosas rimas de Mercer (silver chalice ... alabaster palace), Tom voou para bem longe da pauta que levara comigo.

Mas o saldo da conversa, como das outras vezes, resultou positivo. Falamos de seu pânico com o sucesso (ainda se dizia chocado pelo que acontecia com Bette Midler no filme A Rosa, a que assistira naquela semana), de seu basta ao cigarro, mas não ao charuto (“a fumaça do charuto não vai além da boca”, justificou-se), do show que dera em Los Angeles no mês anterior, da alegria de ser pai novamente dali a dois meses (“sinto-me vergonhosamente feliz”); até por Stravinski passamos. Ele e Stravinski foram vizinhos em Los Angeles e todas as manhãs Tom o avistava de longe, a caminhar pelo bairro. Nunca ousou aproximar-se do mestre, “para não ter de dizer alguma bobagem do tipo ‘eu gosto muito de sua música’”. Bobagem que Tom se cansou de ouvir, em várias línguas.

Antes de viajar para internar-se no hospital Mount Sinai, em Manhattan, em novembro de 1994, Tom deixou abertas sobre seu piano, e vigiadas por um retrato de Gershwin, as partituras de dois clássicos da música popular americana: These Foolish Things e There Will Never Be Another You. Sutis lembretes para que nunca o esquecessem, até porque nunca mais haveria outro igual a ele.

*

Sérgio Augusto é jornalista e autor, entre outros, de Cancioneiro Jobim (Jobim Music)

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