Câmara Municipal de Póvoa de Varzim
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'Torto Arado' retrata a permanência do sistema escravista no Brasil

Livro de Itamar Vieira Junior narrado por duas irmãs do campo foi vencedor do Prêmio Leya

Bruna Meneguetti*, Especial para o Estado

05 de outubro de 2019 | 16h00

“‘Falem’, disse, nos ameaçando arrancar a língua, que estava, mal ela sabia, em uma das nossas mãos”, conta Bibiana, uma das personagens do livro Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, autor vencedor do Prêmio Leya 2018. No trecho, Bibiana era uma criança e estava junto de sua irmã caçula Belonísia. Elas mexiam nos pertences da avó Donana quando encontram uma faca de prata com cabo de marfim, e, maravilhadas pelo objeto, o colocam na boca. É dessa forma inesperada e simples que Itamar começa o livro e conduz os leitores pelas páginas que, aos poucos, vão esclarecendo quem são e como vivem as duas irmãs, além de qual delas teria perdido a língua. “Eu sei que a dúvida para quem está lendo é uma coisa cheia de significados e eu queria que o leitor fosse comigo nesse exercício”, explica o escritor em entrevista ao Aliás

A obra, dividida em partes (Fio de Corte, Torto Arado e Rio de Sangue), é contada por três narradoras diferentes, que vão discorrendo sobre a vida das irmãs desde a infância até meados dos anos 2000, já na vida adulta. Moradoras da Fazenda Água Negra – o local estaria localizado no município de Lençóis, na Chapada Diamantina –, Bibiana e Belonísia têm uma relação diferente com a terra: o pai delas é curador e domina as ervas, chegando a deitar no chão para ouvir o que o solo diz e, dessa forma, encontrar soluções para os problemas agrícolas. Zeca Chapéu Grande, como é conhecido, pratica o Jarê, um sistema de crenças que mistura o catolicismo rural, espiritismo, religiões xamânicas e afro-brasileiras. Assim, Zeca é visto como um líder religioso da fazenda que não é dele e de nenhum dos trabalhadores que ali moram. 

Ainda em um sistema análogo ao escravagista, na década 1960 as famílias trocam um pedaço de terra, onde podem construir casas de barro e plantar, por seus trabalhos braçais com a condição de também doarem ao fazendeiro um terço do que produzem. Muitas vezes, por falta de tempo, se limitam a comprar mantimentos no barracão do local que possui preços extorsivos. Dessa forma, sem nunca receber seus salários, as pessoas estão sempre devendo mais do que deveriam receber. Porém, a princípio, as irmãs não percebem o sistema no qual estão inseridas. A língua perdida rouba toda a atenção, fazendo com que criem novas maneiras de se comunicar e com que a relação se estreite profundamente: “Foi assim que vimos os anos passarem e nos sentimos quase siamesas ao dividir o mesmo órgão para produzir os sons que manifestavam o que precisávamos ser”. 

A primeira palavra que a irmã sem língua decide falar é “arado”, por causa da dificuldade da sonoridade e, talvez, por sua relação com a terra. No entanto, o som sai torto. Para Itamar, além das palavras “torto arado” estarem presentes no poema Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga (onde as leu pela primeira vez quando teve a ideia inicial do livro, aos 16 anos), o arado é um objeto carregado de significados, pois atravessou o tempo dentro daquela fazenda, indo da escravidão até os dias atuais: “Arado é uma palavra que nessa segunda sílaba passa por nós rasgando, então a intenção era a personagem se impor esse autoflagelo. Também tem uma sonoridade que se você falar muito rápido pode tomar outro sentido, o de ‘torturado’”, explica lembrando também que, apesar do arado “rasgar a terra”, ele “permite que plantem e cultivem”.

No entanto, logo as mudanças da vida agem também como um arado e distanciam as duas mulheres num movimento cíclico de aproximação e afastamento que percorre toda a obra e destrincha o grande grau de ligação e individualidade que pode existir nas relações entre irmãos. É interessante observar que talvez a falta de travessões e diálogos extensos no livro sejam um reflexo da comunicação entre Bibiana e Belonísia, porém podem simbolizar também como o negro é criado para não expor sua voz e como vai encontrando-a a partir da tomada de consciência sobre seu passado e presente. Não à toa, a primeira fala comprida da obra ocorre quando a irmã com a língua toma o lugar do marido na luta de classes que ele encabeçava. 

Nesse sentido, Torto Arado toca em temas tragicamente atuais. “Essa fazenda é fictícia, mas ao longo do meu trabalho vi muitos lugares parecidos, então a questão da servidão, da subserviência, foram coisas que eu encontrei pelo caminho”, discorre o autor que há 13 anos trabalha com camponeses e cuja tese de doutorado foi uma etnografia sobre uma comunidade da região da Chapada, o que, segundo conta, o ajudou a aprender a ouvir, a fazer narrativas e também nas suas pesquisas sobre a região. “Ainda existem comunidades inteiras à espera de que o Estado possa regularizar suas terras, ainda há pessoas sendo assassinadas”. 

Inclusive, foi a partir da notícia do assassinato de oito trabalhadores, conhecidos de Itamar e mortos nas disputas por terra, que o autor decidiu mudar o rumo de um dos seus personagens. “A arte é um espelho da vida, então ele é assassinado, como aquelas pessoas. É aquela coisa chocante que fica pinicando na nossa escrita, porque a gente vive isso também”, explica. “Acho que a intenção do romance era mesmo retratar uma realidade que pouco mudou no Brasil. Esse sistema de exploração, que deveria ter terminado com o fim da escravidão, se transformou em outras coisas”. 

Outra particularidade do livro é a riqueza com que são detalhados os momentos de fartura e escassez no plantio, mostrando o quanto a natureza pode castigar a população do campo, assim como as imposições do fazendeiro: “Na manhã seguinte, Sutério apareceu em nossa casa (...) Lembrou a meu pai da terça parte que tinha que dar da produção do quintal. Mas as batatas não eram da produção do quintal. Da terra não brotava nem pasto, muito menos batata”. Ao menos, o dono das terras tolerava a prática da crença Jarê. Ao contrário do sistema escravista, o Jarê está desaparecendo na região, de forma que o livro pode até mesmo ser visto como uma documentação desta cultura. 

Itamar confessa que a fé nos encantados, espécies de entidades, exerceu grande fascínio sobre ele devido à solidariedade que a acompanha. “Ali você vai ter santos católicos com caboclos indígenas, com orixás, todos no panteão de deidades de encantados do Jarê, e isso é muito Brasil, é muito nosso, e me encantou profundamente porque permitiu que essas populações atravessassem décadas e décadas de descaso do governo brasileiro. Essa rede de solidariedade permitiu que eles sobrevivessem”. 

Assim, já no final do livro, o leitor se depara com a voz de Santa Rita Pesqueira, uma encantada. Santa Rita, segundo Itamar, foi fruto de suas pesquisas. “Eu encontrei relatos sobre ela na região, em algum momento Santa Rita existiu porque eles registraram o nome, só que ninguém sabia me falar sobre ela. Isso para mim foi um embate porque eu pensei que, se ninguém sabe nada, é porque a tradição está se perdendo também. Esses personagens um pouco vazios a gente preenche com ficção”, explica. 

Para o autor, a presença da encantada é uma alegoria de como “a história não nos abandona”. Por isso, na narrativa, Santa Rita fala de fatos que se perderam no tempo e que mais ninguém poderia contar, mostrando como o esquecimento dos conhecimentos sobre a natureza, que são passados com menor intensidade para as próximas gerações, se refletem da mesma maneira na tradição e na cultura. Além do mais, esses elementos do passado – a real dimensão da exploração de escravos na mineração de diamantes no século 19 na Chapada, a maneira abusiva como viviam seus antepassados e, como se não bastasse, o ambiente servil levado para dentro das casas, nas relações entre marido e esposa – aparecem justamente conforme as irmãs vão tomando consciência de sua condição atual. Um claro sinal de que o ato de olhar para a própria realidade tem como consequência enxergar o passado com maior lucidez.

*BRUNA MENEGUETTI É JORNALISTA E AUTORA DE ‘O ÚLTIMO TIRO DA GUANABARA’ (EDITORA REFORMATÓRIO)

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