Totem da extravagância

Com torre de 828 metros, Dubai nutre bolha imobiliária de proporções babilônicas

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2010 | 00h16

O que nos lembra ou evoca a recém-inaugurada Torre de Dubai? A Torre de Babel? Os obeliscos egípcios? Os arranha-céus americanos?

Os Jardins Suspensos da Babilônia não se encaixam no parâmetro porque, embora fruto da megalomania humana, não tiveram motivação místico-religiosa, foram criados para agradar a uma mulher saudosa do verde de sua terra natal. Babel e os obeliscos foram erguidos para que os homens pudessem chegar ao céu e para agradecer Rá, o deus sol, pela energia recebida, respectivamente. Ainda que o único templo de seu complexo de 206 andares seja uma mesquita, a Torre de Dubai é um preito a Mamon, o ídolo pagão do dinheiro.

Até o batismo do mais elevado e dispendioso totem do novo-riquismo árabe (custo total: US$ 1,5 bilhão) sofreu interferência do vil metal. Projetada com o nome de Burj Dubai, já se chamava, semanas antes da inauguração, Burj Khalifa, em homenagem ao xeque Khalifa bin Zayed al-Nahyan, governante de Abu Dabi, a petrocracia vizinha que ajudou Dubai a cobrir um débito de US$ 100 bilhões. Os bilionários de Abu Dabi não podem ver um arranha-céu que logo pensam em comprá-lo (pagaram US$ 800 milhões por 80% do prédio da Chrysler, em Nova York, o mais belo da espécie) ou financiar-lhe a construção.

Um editorial do jornal espanhol El País comparou a Burj Khalifa ao potlatch dos indígenas da América do Norte. Bem lembrado. O potlatch era uma cerimônia religiosa em que certas tribos destruíam freneticamente objetos de grande valor para demonstrar que eram ricos; uma dilapidação conspícua e exibicionista.

Dubai reinventou o potlatch, gastando a rodo com construções faraônicas, hotéis e resorts tão delirantes quanto cafonas, alimentando uma bolha imobiliária de proporções babilônicas, estopim da quase falência do emirado há pouco mais de um mês. A torre foi o clímax de uma escalada de extravagâncias arquitetônicas iniciada pouco depois do colapso do Lehman Bros., nos últimos meses de 2008, com a inauguração do inenarrável Hotel Atlantis, acréscimo certo numa eventual reedição da Viagem na Irrealidade Cotidiana, de Umberto Eco.

Por mais que o novo-riquismo chinês corra atrás (já ergueram o Shanghai World Financial Center em 2008 e preparam outro espigão na mesma cidade, a Torre de Xangai, 131 metros mais alta), a Burj Khalifa, com 828 metros de altura, é e continuará sendo por um bom tempo o maior prédio do mundo, com o mais elevado terraço, a mais elevada fonte, o mais elevado mirante (no 124º andar), a mais elevada piscina (no 76º andar) e recordes que tais. Visível a 95 quilômetros de distância e com um panorama que, pelas fotos divulgadas, não vale a incursão até o topo (para que subir tanto para avistar uma Barra da Tijuca?), poderá abrigar mais de 12 mil pessoas em seus 144 apartamentos de luxo e no ainda mais luxuoso hotel grifado pelo costureiro Giorgio Armani.

É uma insensatez pueril, uma perversão distópica do sonho modernista de ampliar a liberdade de movimentos no espaço urbano, um zigurate de complicada feitura (servido por 54 elevadores, subindo e descendo a uma velocidade de 65 km por hora) e árdua manutenção. Seu topo é permanentemente fustigado por ventos que chegam a 20 km por hora, o que, no mínimo, dificulta a limpeza. Porque fica no meio de um deserto, será necessário derreter o equivalente a 14 mil toneladas de gelo por dia para calibrar o ar condicionado e dessalinizar bilhões de litros de água para abastecer as torneiras.

Próxima a uma falha geológica, a fulgurante atalaia árabe está mais para um filme-desastre do que para King Kong. Na véspera de sua inauguração, o canal a cabo Telecine Cult reexibiu o catastrófico Inferno na Torre. Vendo os 138 andares da torre do filme consumidos pelas chamas, não pude deixar de me lembrar da Burj Khalifa. Produzido, em 1974, como um tributo aos esforços e à coragem dos bombeiros de Los Angeles no socorro às vítimas dos terremotos que com frequência assolam aquela região, Inferno na Torre resultou numa crítica sem subterfúgios à ganância imobiliária, à desonestidade dos barões da construção civil, aos Sérgios Nayas da Califórnia. Mesmo que não tenha havido mutretas na construção da Torre de Dubai, impossível não ver nela um sucedâneo da Glass Tower cinematográfica.

Como o Empire State, erguido em meio à Grande Depressão de 80 anos atrás, com mão de obra barata sobrando e um clima de forçada euforia no ar, a torre de Dubai subiu ao longo de uma crise econômica global, tocada por operários imigrantes, a maioria indiana e paquistanesa, ganhando entre US$ 5 e US$ 20 por dia e submetidos a um regime de trabalho draconiano, insensível a qualquer tipo de reivindicação. Fala-se que pelo menos três deles morreram durante a construção da obra, que demorou cinco anos, mas conseguiu ficar pronta antes da Freedom Tower que vai substituir as torres gêmeas derrubadas no atentado do 11 de Setembro.

A Freedom Tower terá 541 m de altura. Será o terceiro maior arranha-céu, caso a vindoura Torre de Xangai (641 m) também fique pronta antes. No ranking dos espigões, o pioneiro Empire State, com 381 m, caiu para a sétima e última colocação, depois de reinar absoluto entre 1931 e 1972, até ser superado pelo World Trade Center (416 m), que só manteve a hegemonia durante dois anos. Com 442 m de altura, a Sears (atual) Willis Tower confiscou o recorde para Chicago em 1974 e só foi desbancada 24 anos mais tarde pelas torres gêmeas da Petronas, em Kuala Lumpur, na Malásia, que medem 452 metros.

Com a entrada dos chineses no "tower business", durou pouco a prosa dos malaios. Mas os espigões de Xangai, o que já existe desde o ano passado e o prometido para breve, não fazem sombra à torre de Dubai.

Perguntado se ela não era, afinal, uma manobra diversionista para desviar a atenção da pindaíba do emirado, o construtor Mohamed al-Abbar malufou: "Construímos tudo isso para trazer qualidade de vida e felicidade às pessoas". Mas quantos estarão dispostos a buscar a felicidade numa cidade como Dubai?

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