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Tradição de sumiço

Desaparecimentos políticos à sombra de ‘razões de Estado’ marcam toda nossa história republicana

José de Souza Martins,

24 de agosto de 2013 | 17h25

O tema dos desaparecidos ganhou destaque em função dos casos relativos a desaparecimentos durante a ditadura militar de 1964 a 1985 e também aos trágicos casos ocorridos nos países vizinhos - Argentina, Uruguai, Chile. Tragédias imensas, feridas incuráveis de que tive pequena amostra quando participei do júri do Prêmio Casa de las Américas e do Encontro de Escritores, em Cuba, em 1981. O poeta argentino Juan Gelman, que fazia parte do grupo, em meio a conversações normais e até alegres, caía repentinamente em prantos. O filho e a nora, grávida, alcançados pela repressão da ditadura militar argentina, haviam desaparecido em 1976. O corpo de seu filho só seria encontrado em 1990. A nora fora levada para o Uruguai pelos agentes da Operação Condor. Após o parto, fora assassinada e a filha entregue a um policial que, com a mulher, a criou. Macarena, neta de Gelman, já adulta, seria localizada viva em 2000. Compreendem-se os versos de um seu poema: “Sólo la esperanza tiene las rodillas nítidas. Sangran”.

A incerteza que há no desaparecimento de alguém, na escuridão da espera que não termina, dói mais que a certeza da morte. Há uma anômala sociabilidade da ausência, no vazio da mesa posta à espera de quem não retorna. A presença do ausente grita todos os minutos do dia contra a violência que o levou para o lugar nenhum da tirania de quem achou que tudo podia.

Não basta desaparecer para ser um desaparecido. Nossa memória política dos desaparecimentos tende a cingir-se aos casos da ditadura de 1964, alimentada pela necessária demanda de justiça e do direito de dar sepultura aos que se foram sem dizer adeus. No entanto, os desaparecimentos marcam toda nossa história republicana. Desaparecimentos políticos já constavam do rol de barbaridades praticadas em nome das razões de Estado desde o nascimento da República. A primeira ação política sistemática de que se tem notícia em favor de desaparecidos políticos e também em defesa do que vieram a ser os direitos humanos foi a do Comitê Patriótico da Bahia. Na Guerra de Canudos (1896-97), houve um imenso número de sertanejos prisioneiros, especialmente mulheres e crianças, repartidos e distribuídos entre oficiais e soldados do Exército ou dados de presente a famílias de Salvador. Deportados para longe do sertão, para os Estados de origem dos militares que os levaram, não raro reduzidos a verdadeira escravidão, saiu o comitê à procura dos desaparecidos para restituí-los às respectivas famílias.

Desaparecimentos foram, também, sequelas da repressão que antecedeu o golpe de Estado de 1937. Acusados de conspiração contra a segurança nacional eram caçados à noite, na própria casa, perdendo contato com a família. Muitos deles imigrantes, deportados para os países de origem, separados das respectivas famílias, que nunca mais os viram. Como ocorreu com o sapateiro Francisco Marquez, de São Caetano (SP). A família só teve dele notícia quando ficou sabendo que fora deportado e fuzilado no porto de Vigo, na época da Guerra Civil Espanhola.

Há desaparecimentos por motivos não políticos, como nos casos de raptos de crianças. Os imaturos são indefesos. Ainda não nos convencemos de que na sociedade em que vivemos esquemas protetivos são o modo necessário para prevenir ocorrências.

Mas há os que desaparecem voluntariamente, especialmente jovens. Até porque querem desaparecer, como a mulher adulta que conheci numa conferência que fiz em Copenhague. De uma família muito pobre da roça, ela havia fugido de casa, em Campina Grande, na Paraíba, no fim da adolescência. Foi parar no Rio de Janeiro. Vivia pelas praias, de pequenos roubos e de outros expedientes. Conheceu um grupo de marinheiros dinamarqueses, cujo navio estava ancorado no Rio, que a adotaram durante a permanência, dando-lhe de comer, e dela se valendo para conhecer a cidade. Deixaram-lhe dinheiro e um endereço em seu país, para o caso de querer ir para lá um dia. Ela foi. Receberam-na, arrumaram-lhe abrigo e emprego. Ela se casou com um dinamarquês, que a alfabetizou. Estava bem de vida. Cheia de remorso, pediu-me que a ajudasse a localizar sua família. Queria reencontrá-la e ajudá-la, o que acabou acontecendo.

Outro caso, foi o de d. Pureza Loyola, maranhense, que em meados dos anos 1990 saiu à procura do filho, levado por um traficante de mão de obra e que nunca mais dera notícia. Estava desaparecido havia mais de ano. Pobre, saiu à procura do filho, embrenhando-se nas matas do Pará, seguindo as pistas que ia colhendo, ajudada por peões das muitas fazendas que atravessou. Depois de um ano, encontrou o filho num garimpo, que “esquecera” de enviar alguma notícia à mãe. D. Pureza ganhou, em 1997, o prêmio da Anti-Slavery International, de Londres, por sua campanha pessoal contra a escravidão por dívida.

Os dois casos que menciono são justamente casos de populações que não conhecem o conceito de desaparecimento. Em seu mundo, um dia as pessoas simplesmente se vão. /JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE A SOCIOLOGIA COMO AVENTURA (CONTEXTO)

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