Cido Gonçalves
Cido Gonçalves

Tradução autoral recria trechos de 'Finnegans Wake', de James Joyce

Dirce Waltrick do Amarante puxa um fio narrativo entre os muitos que a obra de Joyce oferece

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

24 Fevereiro 2018 | 16h00

À primeira vista, é impossível ler Finnegans Wake, quanto mais traduzi-lo. Publicado em fragmentos entre 1923 e 1939, uma “obra em obras” para o poeta Décio Pignatari, o livro de James Joyce desafia leitores, tradutores e críticos graças à estrutura circular, sem início ou fim, e às frases que concatenam neologismos, onomatopeias com dezenas de letras, trocadilhos e brincadeiras linguísticas em uma espécie de rapsódia irlandesa com uma pitada de fantasia. 

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Esse caudaloso “riocorrente” de experimentalismo formal foi peneirado e vertido para o português em um fio d’água de 73 páginas (ao todo, são 184, por se tratar de uma edição bilíngue com introdução e posfácio), tão intensas quanto as 628 do original. Finnegans Wake (Por um Fio) condensa a história de Humphrey Chimpden Earwicker (ou não), o protagonista (ou não) irlandês (ou não) do livro (única unanimidade sobre a obra, se tanto).

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O trabalho, em progresso desde 2014, foi concebido por Dirce Waltrick do Amarante, coordenadora do programa de pós-graduação em estudos de tradução da UFSC, que respondeu às seguintes questões do Aliás:

Como você define ‘Finnegans Wake (Por um Fio)’?

Venho estudando e escrevendo sobre Finnegans Wake há mais de dez anos, desde que lancei Para Ler Finnegans Wake. Cada vez que se lê, é um livro completamente diferente. Se você considera o personagem HCE como estrangeiro, esse é um fio narrativo. Se ele é o irlandês de Dublin, é outro, por exemplo. Achei que eu pudesse puxar um fio dos 1.001 possíveis e contar uma história. 

Qual foi o critério utilizado na seleção dos trechos?

Foi uma escolha difícil, porque à medida que eu ia cortando o livro, decepava partes muito importantes e extremamente bonitas. Tentei contar o mais brevemente possível o que acontecia em cada parte. Falei com outros professores e tradutores também. A gente tem muito medo de mexer, mas encurtar Finnegans Wake muita gente já fez, como John Cage, Ana Hatherly, Augusto e Haroldo de Campos. Como circular, começa em qualquer parte e vai para qualquer parte, dá uma possibilidade de leitura mais aberta. Usei essa circularidade, mas tentei contar uma história que está no livro, que tem muitas. Todo mundo é descrito de formas diferentes, cada personagem incorpora vários, são bandidos e mocinhos, estrangeiros e irlandeses. É um caleidoscópio de imagens.

Seu trabalho é uma porta de entrada ou é para iniciados na obra de Joyce?

Minha tentativa foi oferecer uma ideia do livro ao leitor. Às vezes, as pessoas pensam que é muito complicado, muito longo. Então talvez se percam menos tentando conhecer uma história dentre as muitas que existem no livro. É um convite para ler na íntegra. Fiz para ser uma porta de entrada mesmo. Não é uma leitura fácil, requer tempo, a gente lê muito vagarosamente, mas te permite mil e uma leituras. John Cage diz que lia ao acaso e a partir disso conseguia uma narrativa. A gente não é obrigado a ler início, meio e fim. Eu queria que as pessoas lessem Finnegans Wake, acho o livro mais divertido do Joyce, um dos mais divertidos que já li. Fica até mais fácil de ler outras obras de vanguarda.

Qual foi a influência dos irmãos Campos nesse livro, suas ideias de tradução e transcriação?

Os irmãos Campos deram uma contribuição enorme para a tradução no Brasil, especialmente a de vanguarda, livre, aberta, foi superimportante. É a ideia de uma transcriação, de se soltar e tentar criar um ambiente, recriar a atmosfera do livro e seu ritmo em língua portuguesa. Na primeira vez em que traduzi Finnegans Wake, fiquei semanas na primeira frase, falava que não ia conseguir. De repente, eu me soltei. Se ele me deu 300 pontos de vista sobre aquela história, porque esse não pode ser o meu?

Quando não há um termo equivalente para qualquer jogo de palavras pensado por Joyce, sua tradução cria brincadeiras linguísticas onde, no original, elas não existiam. Houve uma preocupação de compensar possíveis perdas?

Eu trabalhei muito com compensação, com a ideia de perdas e ganhos. Se perdi de um lado, tentava ganhar do outro. Algumas palavras, mantive em inglês, porque de alguma forma eram parecidas com o português. Algumas eu trouxe direto do texto fonte.

É o caso, por exemplo, de ‘teargarten’, que virou ‘jazigológico’?

É uma frustração quando pegamos essas palavras lindas, que você não sabe o que fazer, mas esse é um capítulo em que as lágrimas têm a ver com o enterro. Tem tanta coisa nessa palavra… 

Você pretende traduzir mais fios narrativos de ‘Finnegans Wake’?

Estou igual a Penélope, faço a mortalha e desfio no outro dia. Tenho outro projeto conjunto com Sérgio Medeiros, Aurora Bernardini, Vitor Alevato, Daiane Oliveira e Afonso Teixeira Filho traduzindo na íntegra Finnegans Wake, mas cada um fazendo alguns capítulos, e aí vamos ter que juntar e dar um sentido de unidade. 

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