Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Traficantes de escravos ainda são lembrados em ruas e museus

No século 19, brasileiros e portugueses enriqueceram trazendo escravizados da África para o Brasil; hoje eles são celebrados

Levy Teles, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2021 | 21h26

Amanda Barlavento Gomes, nascida em Pernambuco, mora há mais de 20 anos no bairro do Espinheiro, em Recife, próximo à Rua Amélia, repleta de árvores antigas, pequenas lojas e feiras de rua, que desemboca numa das principais avenidas da cidade, a Agamenon Magalhães. Ali, aproveitou os tempos de infância, em que caminhava pelo bairro e admirava os casarões na Avenida Rui Barbosa, no cruzamento da Rua com a margem direita do Rio Capibaribe. Cresceu fazendo constantes visitas ao Museu de Pernambuco, presente naquela avenida. Quase duas décadas depois, tornou-se historiadora, num caminho similar à sua mãe, professora de história no ensino público. Seu objeto de estudo no mestrado, concluído em 2016, estava mais próximo a ela do que pensava.

Foi ali que descobriu uma outra realidade sobre a rua em que caminhara na infância, do museu que visitara constantemente, dos casarões os quais admirara: eram fruto do tráfico de escravizados. “A cidade estava o tempo todo falando, a riqueza proveniente do tráfico esteve sempre lá, ao meu redor, mas eu só consegui ouvir quando apreendi aquele passado e criei uma relação com ele”, conta, em sua introdução de dissertação de mestrado. 

Nela, estudou sobre a vida de Francisco Antônio de Oliveira, o Barão de Beberibe, construtor e proprietário do Palacete Beberibe, um sítio luxuoso com réplicas das esculturas do Apolo de Belvedere e da Vênus de Médici, além de um mini zoológico. A opulenta edificação, que veio a se tornar o Museu de Pernambuco, foi construída com o lucro da exploração de vidas humanas. Francisco Antônio de Oliveira foi um traficante de escravizados.

Até pelo menos duas décadas atrás, pouco se sabia sobre o influente barão, que traficou cerca de 10 mil escravizados entre 1820 e 1830. Uma memória anulada, posta ao esquecimento. Antes da última reforma, parte do Museu de Pernambuco — que reúne a casa do Barão e um prédio anexo — foi espaço memorial da abolição da escravatura, em que fazia homenagem a Joaquim Nabuco, um dos líderes do movimento abolicionista no Estado, sem sequer lembrar que aquele mesmo casarão foi morada do rico e influente traficante. 

O trabalho de Amanda Barlavento Gomes e Marcus Carvalho - seu orientador e um dos maiores especialistas do tema no Brasil - trouxe luz ao esquecimento. De quantos traficantes de escravizados você já ouviu falar na vida? É possível que nunca tenha escutado sobre Francisco Antônio de Oliveira, José Bernardino de Sá, Antônio Francisco de Lacerda, Ângelo Francisco de Carneiro ou Joaquim Pereira Marinho. Hoje, são lembrados como barões, condes, viscondes e não como traficantes. Chegaram ao século 21 com o objetivo almejado, em vida, cumprido: deixar um legado sem a mancha de ter atuado diretamente na escravidão.

“Resgatar monumentos que façam referência a traficantes pelo Brasil é uma tarefa difícil”, conta Martha Abreu, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e uma das maiores estudiosas sobre escravidão no País. “Falamos de uma memória muito escondida. Revela muito do nosso racismo. Revela sobre o tempo do tráfico, do tráfico ilegal e de como isso é desconhecido das pessoas”. Ela foi uma das historiadoras que participou de uma articulação entre outros historiadores para resgatar monumentos que façam referência a traficantes de escravizados - a pedido deste que vos escreve.

Foi ela quem ajudou a conhecer o trabalho de Amanda Barlavento Gomes, em Pernambuco “A cidade de Recife tem essa falta da memória do tráfico de escravizados. As pessoas desconhecem desse passado, foi escondido dos historiadores clássicos. Parece que todo mundo veio de disco voador para cá”, conta Amanda. “Quando você omite uma história, você está negando para as pessoas o passado delas, a construção da sua própria trajetória de vida.”, afirma Amanda.

Depois de embates com a administração do museu, Amanda relata que hoje se fala sobre o passado do Barão de Beberibe, traficante. Apenas quando alguém pergunta. “Mas não há uma placa indicativa, um vídeo, algo na estrutura do museu que diga que aquela casa pertenceu a um traficante de escravizados”, pondera a historiadora.

O Barão de Beberibe deixou outros legados na Recife do século 21. Além do Museu da República, é um dos responsáveis pelo surgimento da Rua da Aurora, no centro, nascida a partir de vários sobrados que ele mesmo ali construiu. À margem esquerda do Rio Capibaribe e à direita do Rio Beberibe, a rua é um dos pontos turísticos da cidade. Ali estão lugares como o Cinema São Luiz, mais antiga casa de cinema da cidade, e a Assembleia Legislativa.

Seu nome também ainda é lembrado na Recife do século 21. Batiza uma rua no bairro de Boa Viagem. Sua filha, Amélia, dá nome à rua transversal ao Museu do Estado - exigência do Barão para ceder seu terreno, a rua, ao poder público.

Pernambuco, além de terceiro estado que mais recebeu escravizados no Brasil, foi o quarto lugar que mais recebeu escravizados nas Américas. Rio de Janeiro e Bahia ocupam, respectivamente, o primeiro e segundo lugares no continente. Estima-se que 4,8 milhões de africanos escravizados vieram ao Brasil entre 1500 e 1865, de acordo com o Slave Trade Database, maior banco de dados de viagens transatlânticas feitas por navios negreiros no mundo. 

“O Estado brasileiro foi cúmplice da escravidão. Existe uma invisibilidade sobre esses sujeitos. Embora a gente não tenha uma relação clara aos monumentos, temos a presença deles em alguns espaços centrais da nossa memória nacional”, diz Thiago Campos, historiador, doutorando na Universidade Federal Fluminense (UFF). Sua tese fala sobre o silêncio do Estado brasileiro a respeito do tráfico de africanos no litoral norte de São Paulo no período após a primeira lei que torna o tráfico de escravizados ilegal no Brasil. A Lei Feijó, de 1831, diz no artigo 1º que “todos os escravizados, que entrarem no território ou portos do Brasil, vindos de fora, ficam livres”.

Desde então, restou o desconhecimento sobre a memória dos traficantes presentes nas capitais de Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. Dão nome a ruas, participaram da construção de museus, teatros, hospitais, pontos turísticos — do Museu do Estado de Pernambuco ao Elevador Lacerda, num repouso que perdura séculos. “O silêncio tem dois componentes: o primeiro, que acompanha o mundo inteiro, é a desonra de participar do comércio de vidas humanas, algo que já não era bem-visto à época. Uma característica particular ao Brasil é que a elite brasileira precisou calar porque o Estado Nacional nasce completamente atrelado ao tráfico”, complementa Thiago Campos. “A monarquia e a elite operaram um consenso sobre o silêncio sobre essa atividade. É difícil recorrer a consultas desse período. Os documentos brasileiros mentem deliberadamente.”

Dois anos após o fim da abolição da escravatura, ocorrida em 1888, Leopoldo Miguez vence o concurso proposto pelo Marechal Deodoro da Fonseca para a composição do hino da proclamação da República. A canção exalta a liberdade conquistada com a queda da monarquia, ocorrida em novembro de 1889. Em um dos versos, diz: “Nós nem cremos que escravos outrora tenha havido em tão nobre País”.

O Palácio do Catete, localizado na Rua Silveira Martins, no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, foi residência oficial do Poder Executivo até a fundação de Brasília, em 1960, quando tornou-se o Museu da República. Antes de tudo, foi o Palácio Nova Friburgo, construído em 1867 como moradia para o português Antônio Clemente Pinto, o Barão de Nova Friburgo. Quatro décadas antes, entre 1820 e 1830, Antônio — descrito no website do Museu da República como ‘comerciante e fazendeiro de café’ — traficou mais de três mil escravizados para abastecer as suas fazendas, na Vila de Cantagalo e de Nova Friburgo, e foi dono de mais de dois mil escravizados. 2.180, para ser mais preciso.

Sua memória também permanece na cidade de Nova Friburgo, na serra fluminense. Lá, o traficante dá nome a uma alameda e à maior honraria da Câmara Municipal: a Comenda Barão de Nova Friburgo. “É muito comum tentar apagar a marca da escravidão. Para o Barão, a questão da escravidão é apagada com a construção da figura do grande empreendedor”, diz Rodrigo Marretto, natural da cidade, doutor em história pela UFF, que estudou a atuação do Barão no tráfico. “Ao mesmo tempo que é uma pessoa com um pé no atraso da escravidão, ele é um sujeito das modernidades, das estradas de ferro, do comércio do café com os Estados Unidos, o que lhe dava uma posição distinta. É comum ouvir na cidade que ele tinha escravizados, mas ele não maltratava escravizados”.

O Barão de Nova Friburgo atuou no tráfico durante o período legal, até o ano de 1830, quando o comércio foi considerado ilegal pelo acordo entre a Grã-Bretanha e o Brasil. Durante o período da Lei Feijó, primeira lei que tenta acabar com a escravidão, em 1831, quem reinava no tráfico no Brasil era José Bernardino de Sá, o Barão de Vila Nova do Minho. 

Nascido em Portugal, José Bernardino de Sá trabalhou como caixeiro até 1823, quando se tornou o protagonista do tráfico negreiro no Brasil no segundo quartel do século 19 (1825-1850). De acordo com levantamento feito por Walter Pereira e Thiago Campos, da UFF, por meio do Slave Trade Database, José Bernardino de Sá figura em 50 expedições como proprietário de tumbeiros que cruzavam o Atlântico. Entre 1825 e 1851, 19.022 africanos desembarcaram em 36 navios a ele consignados, alguns de sua propriedade. Mais de 2.000 deles morreram nessas viagens. 

“As poucas fontes sobre José Bernardino sugerem que se tratava de um homem extremamente rico, mas falsamente culto e conhecedor da ópera italiana superficialmente, sendo incapaz de amar a música por trás das aparências. Abundam críticas sobre o caráter mesquinho, aproveitador e explorador de José Bernardino. Ele enganou a esposa para tirar proveito de sua herança, utilizando-a para investir no tráfico negreiro”, afirma Luiz Costa-Lima Neto, doutor em música pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), professor da Escola de Música Villa-Lobos, do Rio de Janeiro, que estudou a relação entre o dramaturgo Martins Penna e José Bernardino de Sá.

Em vida, foi um grande mecenas do cenário teatral do Rio de Janeiro. Dono do jornal O Mercantil e de três fazendas nos municípios de São Sebastião e Ubatuba, foi presidente da diretoria do maior e mais importante teatro da capital do império, o Teatro de São Pedro de Alcântara, entre 1845 e 1851, onde criou uma relação conflituosa com Martins Penna. No teatro, Martins Penna, considerado fundador da comédia de costumes no Brasil, foi censurado duas vezes. Nas peças Os dois ou o inglês maquinista (1842) e Os ciúmes de um pedestre ou o terrível capitão do mato (1845-1846), Penna foi censurado por parte da câmara dos Deputados e do conservatório Dramático Brasileiro pelas críticas feitas ao tráfico negreiro ilegal e ao aparelho policial utilizado na escravidão.

A cena XIII de Os dois ou o inglês maquinista dá a tônica da censura. Nela, entra Negreiro, um traficante de escravizados, acompanhado de um preto de ganho com um cesto à cabeça coberto. Entrega uma criança negra de presente a Clemência, mãe de Mariquinha, a quem é apaixonado. Negreiro disputa o amor de Mariquinha com Felício e Gainer, um britânico inventor de máquinas mirabolantes.

Na mesma peça, Martins Penna faz menção ao tumbeiro Veloz, propriedade de José Francisco de Lisboa, traficante português que morava em Pernambuco, e ao Espadarte, navio negreiro que era propriedade do próprio presidente do teatro, José Bernardino de Sá.

“Por denunciar a prática escancarada do tráfico ilegal e o traficante negreiro português, a comédia de Martins Penna foi censurada pela Câmara dos Deputados, com a qual José Bernardino mantinha relações bastante próximas e, assim, Penna tornou-se persona non grata no Teatro de São Pedro. Após a censura e banido do principal teatro carioca, Martins Penna se viu obrigado a mudar sua área de atuação para o jornalismo e a crítica musical”, conta Costa-Lima Neto.

José Bernardino, dono de navios como Amizade Feliz, Generoso, Esperança, Ânimo Grande, Dois Amigos e Constante, mantinha uma mansão ou chácara utilizada para descanso nos finais de semana e férias, hoje conhecida como o Solar da Marquesa de Santos. A história do Solar, atualmente administrada pela Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, não menciona o nome do traficante nos documentos ou fontes governamentais. Tampouco faz o Teatro João Caetano, atual nome do Teatro São Pedro de Alcântara, do qual José Bernardino foi presidente na década de 1840. “Não interessa ao Estado brasileiro resgatar memórias incômodas sobre o passado escravocrata e contrabandista do país”, diz. “As narrativas oficiais monumentais da história nacional geralmente não comportam memórias associadas a certos personagens menos ilustres destes espaços, como é o caso dos traficantes negreiros”.

Durante o período do tráfico ilegal, entre 1831 e 1850, José Bernardino de Sá desembarca seus navios em praias de São Sebastião e Ubatuba, em São Paulo. A saída dos principais portos era uma forma de manter a discrição, mas acabou por se tornar um escândalo nessas cidades que se tornaram rota do tráfico negreiro. Próximo às duas praias do litoral paulista, utilizadas para o desembarque ilegal de escravizados no século 19, atualmente existe o Quilombo Caçandoca, constituído pelos descendentes dos africanos contrabandeados no Espadarte e em outros navios negreiros de José Bernardino de Sá.

Uma denúncia apresentada à Secretaria de Polícia do Rio de Janeiro, em 1838, revela a indignação da população de São Sebastião sobre os desembarques indiscriminados de José Bernardino: “Indignadas, algumas pessoas das vizinhanças reuniram-se com armas para dispersá-los, e fazer, com isto, que tais contrabandistas deixassem aquele ponto, cuja frequência já se tornou escandalosa”. 

“O poderoso José Bernardino era amigo de políticos e militares, posando de grande mecenas das artes para a alta sociedade, quando na verdade era um criminoso de “colarinho branco”, como diríamos hoje. Não obstante os crimes humanitários cometidos por José Bernardino de Sá, o Governo Imperial o condecorou com os títulos de barão e visconde. Desta maneira Bernardino fez jus ao velho ditado popular: ‘Quem rouba pouco é ladrão, quem rouba muito é barão, e quem rouba muito e esconde, passa de barão a visconde.’”, complementa o professor Costa-Lima Neto.

Alguns dos traficantes até batizaram nomes de praias. A Praia de José Gonçalves, em Búzios, assim ganhou o nome por causa de José Gonçalves da Silva, traficante que veio do Porto, Portugal, e usou a área da praia para desembarcar escravizados durante o período do tráfico ilegal. Sua vida era desconhecida até o trabalho da historiadora Nilma Teixeira Accioli, que o estudou e fez o livro José Gonçalves da Silva à nação brasileira: o tráfico ilegal de escravizados no antigo Cabo Frio (Imprensa Oficial/Funarj).

Ocorreu um grande pacto. “O desembarque era escondido, mas todo mundo sabia. A chegada de um navio negreiro era coisa que as pessoas podiam ver. As coisas ocorriam nas praias. Era um pacto nacional de silêncio”, afirma Aline de Biase, historiadora, professora do IFSertãoPE e doutoranda na UFPE. No estado de Pernambuco, os desembarques aconteciam nos engenhos de açúcar, em região costeira. “É sabido que o Brasil se fundou, que o tráfico de escravizados foi a primeira grande máquina de corrupção do nosso país”, avalia Amanda Barlavento Gomes. “É um apagamento que é um projeto social. Essas pessoas acabam se tornando pessoas importantes de nossas história. Ninguém diz de certo de onde vem esse dinheiro”, complementa Aline. Em seu mestrado, estudou sobre outro traficante de escravizados que atuou em Pernambuco, o português Ângelo Francisco Carneiro, o Visconde de Loures, sócio de José Bernardino de Sá e do Barão de Beberibe. Em parceria com o último (e com outros traficantes que atuavam em Pernambuco), financiou um teatro.

O Teatro Santa Isabel era um reflexo da paixão do Barão de Beberibe pelas artes e das ligações políticas que construiu ao longo da vida. Herdou do pai a relação social com comerciantes e enriqueceu com o tráfico. Casou-se duas vezes. O primeiro casamento foi com a portuguesa Maria Gertrudes Carneiro, irmã de Ângelo Francisco Carneiro, o Visconde de Loures. O nome de sua esposa, por sinal, batizou um dos seus navios negreiros. 

O Barão de Beberibe costumava realizar saraus em sua casa, em que exibia sua grande fortuna. Amante das artes, principalmente da música, chegou a financiar, como um mecenas, a Companhia de Ópera Italiana de Giuseppe Maringueli, tenor que cantou nos mais famosos teatros europeus e chegou a fazer certo sucesso na Corte. Em 1833, assumiu o cargo de vereador, em que aproximou-se da classe política. 

Do desejo do Barão da Boa Vista (presidente da Província de 1837 a 1844) de criar um teatro público, nasceu a iniciativa da construção do Teatro Santa Isabel. Foi do diário feito pelo engenheiro francês Louis Léger Vauthier, que dirigiu a construção, aliás, que se tem conhecimento do passado do Visconde de Loures como traficante. “Ele é um personagem muito difícil. Parece que esse homem sabia que iam falar mal dele”, conta Aline. 

O Visconde de Loures era conhecido à época como um capitalista famoso por seu trapiche, sua Casa de Importação e Exportação, e pelo envolvimento em obras de urbanização, mas já atuava como traficante desde 1810, seguindo pelos anos do tráfico ilegal, depois de 1830, em que se tornou membro de uma empresa negreira que tinha ramificações no Brasil, Cuba, Angola, Benim e Europa.

O termo ‘tráfico ilegal’, aliás, pode parecer um pleonasmo, mas é o mais utilizado entre historiadores. “A palavra tráfico tem uma carga negativa. Mas tráfico nem sempre significou contrabando. No dicionário, tráfico tem sinônimo de tráfego. Até 1840, a palavra não tinha conotação pejorativa. Mas só na década de 1870, por causa do comércio negreiro, é que vai ganhando essa marca”, fala Silvana Andrade, historiadora e doutora pela UFF.

Mecenato, doações a casas de caridade, hospitais e igrejas foram algumas das alternativas escolhidas por traficantes para ganhar prestígio social. Alguns, como os barões de Vila Nova do Minho, Nova Friburgo, Beberibe e o Visconde de Loures conseguiram reputação da coroa portuguesa e obtiveram títulos honoríficos - outros não deram tanta sorte. 

Manoel Pinto da Fonseca, português, traficante de escravizados, atuou e viveu no Rio de Janeiro até voltar a Portugal em 1851. Lá, tentou comprar duas vezes o título de conde - ambas negadas pela corte portuguesa, devido ao seu conhecido passado como traficante de escravizados. As negativas, junto ao estilo de vida extravagante, em que ostentava muita riqueza, lhe rendeu o apelido em Portugal de Conde de Monte Cristo.

Manoel Pinto da Fonseca atuava em parceria com José Bernardino de Sá. Fizeram parte da irmandade Ordem Terceira dos Mínimos de São Francisco de Paula. O grupo foi responsável pela criação do cemitério do Catumbi, no Rio de Janeiro, em que está enterrado o Barão de Vila Nova do Minho. Era a busca dos traficantes pelo perdão e o descanso eterno. Ângelo Francisco Carneiro, o Visconde de Loures, dedicou parte da sua fortuna ao Hospital Português, que estampa seu rosto em uma das pinturas dos benfeitores da casa. “Ele pediu que o hospital rezasse uma missa em homenagem à alma dele, em troca, no aniversário da morte dele”. A ação, segundo Aline, ainda persistiu por mais de 20 anos.

Mas o traficante mais lembrado por sua filantropia — tanto no século 19, como no século 21 — viveu em Salvador, capital do segundo Estado que mais recebeu escravizados no Brasil, a Bahia. Joaquim Pereira Marinho, o Conde Pereira Marinho, dedicou a reta final de sua vida às grandes doações a instituições de caridade. Em 1847, ainda como traficante de escravizados, ele é aceito pela Santa Casa de Misericórdia. Dois dos irmãos na mesa que o acolheram na casa, João da Costa Junior e Francisco José Godinho, eram também traficantes.

Essa foi a porta de acesso de Pereira Marinho à elite baiana. Na Santa Casa, veio a se tornar provedor em 1881 — posição em que permaneceu até a sua morte, em 1887. Não havia mais preocupações dele com a sua imagem, já a havia construído, depois de chegar como um completo anônimo em Salvador, 59 anos antes. 

Nos primeiros dias de setembro de 1828, chegava a galera Firmeza, — nome do navio português — à cidade de São Salvador. Nele, estava um jovem lusitano chamado Joaquim Pereira Marinho, de apenas 13 anos. Já em terras brasileiras, o garoto registrou-se no consulado português como marítimo e começou a atuar como caixeiro em uma loja de fazendas. Em 1831, um ano depois do tráfico se tornar ilegal no Brasil, trocou a Bahia pelo Rio Grande do Sul, depois seguiu rumo à África, onde conheceu Ana de Angola e Domingos José Martins, dois importantes fornecedores de escravizados na África. Foi um dos poucos que ainda chegou a atuar no atrativo mesmo depois da Lei Eusébio de Queiroz, em 1850.

Em vida, era comum que Pereira Marinho encomendasse e fizesse publicar comentários elogiosos sobre si, para rebater as comuns denúncias sobre a sua índole que apareciam nos jornais, sobretudo no jornal Diário da Bahia. 

Um dos maiores negociantes da Bahia, Cristiana Lyrio Ximenes, que perfilou o Conde em sua dissertação de mestrado em história pela Universidade Federal da Bahia, aponta que ele já era tido na cidade como um ‘grande capitalista’, ‘grande empreendedor’ e ‘homem de visão’ na velhice. Restava a imagem do filantropo. Fazia questão de se mostrar como grande financiador das obras da Santa Casa. Durante a sua administração como provedor, Pereira Marinho destinou seus esforços para a criação do Hospital de Caridade. A obra teve a construção iniciada em 1828 e tinha sido interrompida em 1840. Retomou construção em 1884, por vontade do Conde e foi concluída após a sua morte, em 1887. O Hospital viria a ser parte do que é hoje o Hospital Santa Izabel. 

Ali habita a sua memória, em forma de estátua, logo à frente do hospital. De acordo com a descrição da fundação Gregório de Mattos, órgão que gere a cultura em Salvador, a estátua “representa a caridade através da figura do Conde Pereira Marinho, e tem na sua base, um grupo, simbolizado por duas crianças, as quais em sinal de homenagem e gratidão lhe oferecem flores”. Nem uma linha sobre o passado escravocrata do ‘comerciante’. 

Além da estátua, o Conde Pereira Marinho dá nome a uma pequena rua, em área importante de Salvador, no bairro da Graça, Centro Histórico, próximo ao tradicional colégio Antônio Vieira. Na região do Comércio, também batiza um modesto edifício. “É uma estratégia de construção de uma imagem, de uma memória sobre si mesmos”, conta Carlos Silva Júnior, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), doutorando em História da África pela Universidade de Hull, na Inglaterra. “É uma coisa muito comum, como no caso do mundo anglo-saxão. Edward Colston seguiu a mesma trajetória de Pereira Marinho”. Colston foi um traficante de escravizados britânico do século 17. Em um período de sua vida, tornou-se benfeitor da cidade de Bristol. Sua caridade lhe rendeu uma estátua, derrubada no começo de junho de 2020, pelos levantes populares movidos pelo Black Lives Matter, que voltou a ganhar força após a morte de George Floyd, assassinado por policiais em Minnesota, nos Estados Unidos.

Em Salvador, o movimento da queda da estátua de Edward Colston moveu historiadores a descobrirem outros lugares que fazem referências a traficantes de escravizados na Bahia. A mobilização deu nascido ao website Salvador Escravista. A iniciativa, comandada pelos historiadores Carlos Silva Júnior, Felipe Azevedo, Moreno Pacheco e Cândido Domingues, menciona pontos na cidade de Salvador com homenagens controversas — que vão desde referências a traficantes de escravizados, como Teodósio Rodrigues de Faria, que dá nome a uma praça, a escravistas como Cristóvão Colombo —, a homenagens reparadoras, como a Rua Luiz Gama, que faz referência a um dos grandes advogados do Brasil oitocentista, ex-escravo e abolicionista.

Para cada lugar, pode-se ler um texto com a biografia dos personagens retratados em ruas e monumentos na cidade.

“A gente tem um conhecimento acumulado enorme que fica nas barreiras institucionais”, diz Felipe Azevedo, um dos coordenadores do projeto. “Alguns desses marcos glorificam um passado antidemocrático, de desumanidade, de toda uma crueza da experiência humana e da exploração de pessoas”. 

O website não teve financiamento e partiu da campanha de historiadores baianos, que atuaram numa rede de colaboração. João José Reis, historiador, professor da Universidade Federal da Bahia e uma dos principais estudiosos do tema, foi um dos que participaram. “Digamos que o Estado nunca se interessou com coisas dessa ordem, assim naturalizando o esquecimento. Agora será obrigado a se manifestar”, afirma o historiador.

“A gente não fala em derrubada. A gente sempre falou que o local ideal para o Pereira Marinho é sobre um museu sobre escravidão”, fala Carlos Silva Júnior, doutorando pela Universidade de Hull, participante do projeto. Na Bahia, há uma proposta do deputado estadual Hilton Coelho (PSOL) para a criação de um Museu da Escravidão, inexistente na Bahia. Outro projeto, de Marta Rodrigues (PT), tramita na Câmara Municipal para definir um novo rumo para a estátua do Conde Pereira Marinho e outras pessoas ligadas ao tráfico negreiro e escravismo na cidade. 

“Somos a vanguarda da retaguarda. Os últimos a abolir a escravidão nas Américas. Não queremos dar subsídio para destruir, mas trazer uma proposta de lugares de memória”, adiciona Felipe. A abolição da escravatura ocorreu no Brasil em 1888, 97 anos depois do Haiti, o primeiro a acabar com a escravidão.

O projeto ainda não contempla lugares como o Museu de Pernambuco ou o Palácio do Catete, propriedades que foram de traficantes de escravizados. 

Construído em 1873, o Elevador Lacerda foi primeiro elevador público urbano e coletivo do mundo. Conhecido como ‘Parafuso’, a estrutura tinha quase 60m de altura e fazia a ligação entre cidade alta e a cidade baixa de Salvador. A tecnologia empreendida foi fruto de experiências adquiridas com a indústria têxtil, com a tecnologia inglesa e da aliança entre empresários brasileiros e norte-americanos.

Em 1930, passou por reforma em suas estrutura para ganhar o formato conhecido hoje e tornou-se ponto turístico da cidade. É também neste período que o ascensor ganha o nome atual: Elevador Lacerda, homenagem ao seu engenheiro, Antônio Francisco de Lacerda.

O ambicioso projeto veio à realidade graças ao aporte de um outro Antônio Francisco de Lacerda, pai do engenheiro, nascido em Portugal. Da indústria têxtil Todos os Santos, em Valença, feita em 1840, em parceria com o brasileiro Antonio Pedrozo de Albuquerque e o americano John Smith Gillmer, veio parte do know-how para a construção do elevador. A fábrica, conhecida pela sua modernidade, equiparável às indústrias americanas, foi financiada por três traficantes de escravizados. 

Silvana Andrade, historiadora, nascida em Valença, estudou sobre a indústria para o seu doutorado. Silvana mostra que há uma memória coletiva existente sobre a fábrica Todos os Santos, que afirma que esta não possuía vínculos com o sistema escravista, por supostamente não empregar mão de obra de trabalhadores escravizados, algo que não é verdadeiro. 

Estudar a escravidão e o efeito do tráfico trouxe um questionamento pessoal doloroso para Silvana. Ao construir sua árvore genealógica, percebeu que não há informação sobre seus tataravôs. “Possivelmente, meu bisavô já foi escravizado”, lamenta.

“Não é importante dizer se a existência desses lugares é boa ou ruim, mas sinalizar o passado. Dizer que quem financia é o tráfico de escravizados, para tomar consciência do impacto do tráfico de escravizados na sociedade brasileira”, salienta Silvana. “A memória, tanto ao apagamento, que chamamos de esquecimento, são produtos de lutas por hegemonia de um discurso. Estamos falando da relação de pessoas poderosas, ricas e pessoas que foram escravizadas, que sequer consigo mapear na certidão de nascimento do meu bisavô.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.