Tráfico sem dimensão

El Chapo e Sean Penn não são um caso insólito: há muito o cinema cria e sedimenta mitos que transformam vilões em heróis

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

16 Janeiro 2016 | 16h00

Em maio do ano passado, o escritor Patrick Kradden Keefe recebeu uma insólita proposta. Toparia ele ser o ghost writer de Joaquín Guzmán Loera, vulgo El Chapo, o mais procurado traficante de drogas da atualidade? Keefe acabara de publicar, na revista The New Yorker, um extenso artigo sobre a caça a El Chapo e sua recente captura, em Mazatlán, no Estado de Sinaloa. Segundo o advogado que intermediara a oferta, Chapo pretendia escrever um livro de memórias. Keefe, sabiamente, desconversou.

É possível que àquela altura o foragido “barão das drogas” mexicano já tivesse na agulha a alternativa de uma biografia cinematográfica, de que só tomamos conhecimento no final da semana passada, quando de sua recaptura em outra cidade costeira de Sinaloa e da publicação de sua controversa entrevista ao ator Sean Penn, pela revista Rolling Stone. Se o colombiano Pablo Escobar tivera sua trajetória imortalizada na tela, por que ele não podia desfrutar de igual regalia?

Amadrinhado pela mais cintilante estrela das telenovelas mexicanas, Kate del Castillo, que não só confessara simpatizar com ele como o exortara a renegar-se, desviando seu empreendedorismo para causas socialmente edificantes, Chapo deu mais corda à sua megalomania e substituiu o projeto memorialístico pelo sonho de um épico cinematográfico, de um Narcos, Parte 2 – La Enchilada.

Vidrado na salerosa atriz, o traficante abriu a guarda, recebeu o ator Sean Penn em seu refúgio nas montanhas de Sierra Madre para um tête-à-tête até então mais que improvável, inimaginável. Com as consequências de sobejo conhecidas. Algumas sérias, como as discussões na mídia em torno da ética jornalística (por que a Rolling Stone permitiu que Chapo lesse a transcrição da entrevista antes de sua publicação?); outras, pitorescas, como a súbita influência do bandido e suas camisas cafonérrimas na periferia fashion e as falsas notícias, troladas na internet, de que Penn já agendara uma entrevista exclusiva com o califa do Estado Islâmico, Abbu Bakr al-Baghdadi, e outra com o ex-presidente Lula; nenhuma tão adversa ao entrevistado quanto a sua recaptura, oficialmente facilitada pelo rastreamento de um celular descartado por um dos guarda-costas que levaram Penn e Kate até o esconderijo do chefe, no início de outubro.

Se nem de nome Chapo conhecia o ator “Cian Pem”, há muito sabe da força do cinema para criar e sedimentar mitos, para transformar vilões em heróis. E também do promíscuo relacionamento do cinema americano com a bandidagem, em particular com a Máfia, cujos agentes atuaram intensamente nos grandes estúdios durante cinco décadas, financiando produções debaixo do pano, palpitando nos roteiros e até na escalação dos elencos (que o digam Frank Sinatra e Al Pacino). E, já que em Hollywood moram e trabalham os mais glamourosos consumidores dos produtos (maconha, anfetaminas, cocaína) traficados por Chapo e seu cartel, por que desperdiçar a oportunidade de ter um ator com a visibilidade de Sean Penn como eventual padrinho de uma cinebiografia?

Hollywood, não custa lembrar, deve parte de sua existência ao México. Até o início da segunda década do século passado, a indústria de filmes americana funcionava na costa leste. Quando a chamada “guerra das patentes” (Edison contra a Biograph e outros concorrentes) esquentou, os produtores independentes debandaram para a Califórnia, não só para desfrutarem de mais sol, espaço e paisagem diversificada para seus filmes, mas sobretudo de uma adjacente rota de fuga pela fronteira mexicana, caso a polícia acionada pelo truste Edison viesse molestá-los. Nestor Studios, o primeiro estúdio de Hollywood, abriu as portas em 1912, em terras que antes da guerra expansionista desencadeada pelo presidente James K. Polk pertenceram, ironicamente, ao México.

De olho na vertiginosa popularidade do cinema, os três principais líderes da Revolução Mexicana – Pancho Villa, Emiliano Zapata e Victoriano Huerta – cederam à curiosidade e aos dólares de Hollywood, oferecendo-lhe em troca imagens exclusivas de suas refregas contra as forças do ditador Porfírio Díaz. Interessava aos revolucionários captar recursos e atrair simpatizantes à sua luta e diluir os sentimentos antimexicanos dos gringos que haviam combatido no Álamo e na guerra de 1846-1848. Os cinejornais americanos aproveitaram ao máximo o México insurgente, primeiro com a ajuda de Huerta, cujo pendor censório abreviou-lhe a carreira cinematográfica, depois com o esperto e hábil Villa.

Maior beneficiário da espetacularização hollywoodiana, Villa assinou contrato com a Mutual Film, celeiro de algumas das melhores comédias curtas de Chaplin, em janeiro de 1914. Embolsou US$ 25.000, mais a promessa de 20% sobre a renda bruta do filme, The Life of General Villa, documentário dramatizado ou algo similar estrelado pelo biografado e rodado em áreas sob controle de suas tropas, próximas à fronteira com os EUA. David W. Griffith, primeiro mestre do cinema silencioso americano, emprestou apenas seu prestígio ao projeto, que chegou às telas com a assinatura de Christy Cabanne. Quem, no entanto, deu duro durante as filmagens foi o então ator Raoul Walsh, que, além de interpretar Villa quando jovem, dirigiu todas as cenas de ação.

O relacionamento de Villa com Walsh foi tão cordial quanto o de Chapo com Penn. Walsh determinava onde e como as batalhas seriam filmadas, sempre das 9h às 14h, para aproveitar a luz natural, e Villa a tudo obedecia como um ator profissional. Às vezes, empolgado com sua performance, disparava em seu cavalo. “Despacio! Despacio!”, gritava Walsh no megafone. “Don’t worry, Don Raúl”, respondia Villa, puxando o bridão. Várias cenas extras tiveram de ser rodadas no estúdio, em Hollywood, para dar alguma coerência à narrativa.

Há 13 anos, um telefilme de Bruce Beresford reconstituiu essa saga, com Antonio Banderas no papel de Pancho Villa. Se um dia a vida de Chapo virar filme, e ele, atrás das grades, não puder interpretar a si próprio, Danny DeVito tem tudo para dar conta do recado, com ou sem bigode.

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