State Russian Museum
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Tragédias explicam por que agosto é conhecido como 'mês do desgosto'

Quando a má fama nasceu? Talvez com o suicídio de Cleópatra, a 10 ou 12 de agosto de 30 a.C.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2021 | 15h00

Já estamos há sete dias no mês de agosto e o mundo, que eu tenha notado, não acabou. Se o apocalipse estiver agendado para daqui a seis dias, só na sexta-feira (13!) ficaremos sabendo. A última vez que o mundo ficou de acabar foi em 2012: predição pré-colombiana, de origem maia, furada como as que a antecederam e sucederam. 

Ainda que ninguém, até agora, tenha previsto o cataclismo final para esses dias, recomenda-se não facilitar com agosto, que não apelidaram de “mês do desgosto” e “mês do cachorro doido” à toa. Do “cachorro doido” porque onde é verão este mês, os cães costumam ser mais atacados pela raiva.

“Mês das chuvas de meteoro” também caberia. Sim, caem mais meteoros na Terra em agosto do que nos outros meses do ano. Até por rimar com agosto, “mês do desgosto” foi o que pegou. Com todos os méritos. 

Que me desculpem as pessoas amigas e muito queridas que nasceram este mês, mas tradição é tradição, e a crendice de que um urubu pousou na sorte de agosto vem de muito longe – como, aliás, também a pecha que há séculos paira sobre o número 13. 

O oitavo mês do ano já nasceu assimétrico, tisnado pela inveja e a arbitrariedade. Inveja do imperador Augusto, que, não satisfeito com a homenagem nominal e invejoso dos 31 dias de julho (tributo a Júlio César), acrescentou a seu mês mais um dia. Antes, agosto se chamava sextilis, por ser o sexto mês do calendário romano antigo, pelo qual o ano começava em março. Janeiro e fevereiro foram acréscimos do calendário gregoriano.

Quando a má fama nasceu? Talvez com o suicídio de Cleópatra, a 10 ou 12 de agosto de 30 a.C. Na Era Cristã, a coisa desandou. 

Todos os dias do ano são, para uns e outros, fatais, lutuosos, mas o repertório de agosto em perdas de vidas demasiado preciosas, tragédias pessoais e desgraças coletivas, em golpes de Estado, terremotos, furacões, chacinas e execuções é, estatisticamente, insuperável e, digo de experiência própria, incalculável. Faz tempo que desisti de produzir um livro sobre os infortúnios que, ao longo da história, deram má fama ao mês e alimentaram as superstições em torno dele.

Peso bem maior que o 13 de agosto, por exemplo, tem o dia 24. E não só porque, para nós, brasileiros, foi num 24 de agosto que o suicídio de Getúlio Vargas chocou até seus inimigos e alterou o curso de nossa história política contemporânea. Naquela mesma data, 1875 anos antes, Pompeia viveu seus últimos dias antes de praticamente desaparecer sob as lavas do Vesúvio, e, 331 anos depois, Roma foi ocupada pelos visigodos. Massacres de judeus ocorreram na Alemanha (Mainz, 1349) e em Palma de Mallorca (1391), os huguenotes foram trucidados no Dia de São Bartolomeu (Paris, 1572), tropas inglesas incendiaram a Casa Branca em 1814. 

No calendário de guerras, agressões armadas, anexações espúrias e golpes militares, agosto excede. Vá juntando aí: a batalha de Alcácer-Quibir, em que D. Sebastião perdeu a vida (e Portugal ganhou um trauma histórico); os primeiros embates do Japão com a China por causa da Coreia; os primeiros ataques aéreos nazistas a Londres; a assinatura do pacto Molotov-Ribbentropp, que por curto período uniu Stalin a Hitler e causou incontáveis defecções nos partidos comunistas do mundo inteiro; os bombardeios nucleares de Hiroshima e Nagasaki; o início da 1ª Guerra Mundial; a construção do Muro de Berlim; a invasão da Checoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia; a derrubada de Mossadegh no Irã, pela CIA, em 1953; o golpe militar na Bolívia em 1986; a rasteira em Gorbachev (1991); a cassação de Dilma; a rejeição da candidatura de Lula à presidência, três anos atrás.

Foi em agosto de 1890 que a sinistra cadeira elétrica executou sua primeira vítima, e, 37 anos mais tarde, os legendários Sacco e Vanzetti. Levaram Anne Frank para o campo de concentração na primeira semana de agosto de 1944. Jack Estripador inaugurou em agosto de 1888 sua matança serial, cujas lições Charles Manson aplicou ao assassinar Sharon Tate, 81 anos depois.

Já que falamos em mortos, uma constatação: os obituários dos vips levados desta pra melhor em agosto – só dos vips, repito – encheriam uma enciclopédia. Pelo menos dois presidentes da República o Brasil perdeu no mês do desgosto: o já citado Vargas e Juscelino Kubitschek. Daqui a dois domingos, estaremos lamentando, pela quadragésima vez, a morte de Glauber Rocha. Em outros agostos também perdemos nosso maior poeta (Drummond), nossa maior estrela internacional (Carmen Miranda) e aquele que o crítico Leo Gilson Ribeiro qualificou de “a Carmen Miranda das letras nacionais”, Jorge Amado. 

Se esta fosse a frase de abertura deste artigo, eu começaria perguntando: o que há de comum entre Marilyn Monroe, Elvis Presley, Eça de Queiroz, Rodolfo Valentino, Baudelaire, Trotski, Louise Brooks, Nietzsche, Groucho Marx, Lady Di, Thomas Mann, Ingrid Bergman, John Ford, Fritz Lang, Dorival Caymmi, Jerry Lewis, Delacroix, Balzac, Caruso, Pascal, García Lorca, Oliver Hardy, T.W. Adorno, John Huston, Mies van der Rohe, Diaghilev, Henri Cartier-Bresson, Aretha Franklin, Shostakovich, Janácek, Joseph Conrad? 

Agora vocês sabem a resposta. E que me perdoem os familiares e descendentes dos defuntos por mim esquecidos ou omitidos.  Por tudo o que acima se relatou, talvez não seja prudente tentarmos rifar Bolsonaro em agosto. 

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