Tramas do dr. Aranha

Ele fez a partilha da Palestina e virou herói em Israel. Mas este é o lado menos estudado de sua biografia

Laura Greenhalgh*, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2007 | 00h49

Abraham Cheinfeld dá as boas-vindas em nome da comunidade. Depois, café, suco e bolacha para os visitantes que vieram de longe até o Bror Chail, um kibutz à entrada do deserto de Negev, em Israel, onde se fala português, curte-se roda de samba, joga-se futebol à moda Ronaldinho e, vez por outra, acorda-se ao som de bombardeio árabe. "Sempre foi assim", suspira Abraham, 70 anos, pioneiro entre os 180 moradores do assentamento fundado por egípcios em 1948 e assumido pouco depois por brasileiros de origem judaica. Abraham fala de uma história erguida da estaca zero - desde o mutirão das primeiras casas, a semeadura dos campos de trigo, o início da criação de gado leiteiro, a formação dos pomares, enfim, a montagem de uma fazenda-modelo cuja produção era repartida pela comunidade. Hoje, Bror Chail virou agroindústria. Vende o que produz, além de faturar com uma fábrica de pizza e uma empresa de softwares. "Privatizaram o kibutz", admite Abraham. Perdeu-se, quase que por completo, o modelo socialista implantado no passado, segundo o qual todos contribuem com o que podem e recebem o que necessitam.Abraham puxa o grupo de estrangeiros para uma saleta com bandeiras e fotografias na parede. Dentro de uma estante com tampo de vidro, documentos e um martelo de madeira. Então começa a falar do patrono do kibutz, o homem que um dia bateu aquele martelo na ONU, numa sessão histórica: Oswaldo Aranha, gaúcho de Alegrete, advogado, ministro de Vargas, embaixador do Brasil nos EUA, chanceler, que chegou ao mais alto posto ocupado por um brasileiro na ONU, "eterno" candidato à presidência da República (sem nunca tê-lo sido de fato), indicado ao Nobel da Paz de 1948 (ano em que não se outorgou o prêmio). Enquanto revisitam o passado, três discretos parentes do diplomata brasileiro são alvo de fotógrafos e cinegrafistas. Abraham continua. Lembra de outros diplomatas latino-americanos (cujos parentes assistem à mesma cerimônia), também importantes na elaboração do plano de partilha da Palestina, em 1947. Mas Aranha foi decisivo, ressalva. Alguém resmunga em espanhol: por que gastar duas horas visitando um martelo?O QUARTETO LATINONão faz muito tempo Mahmud Ahmadinejad, presidente do Irã, sustentou que Israel deveria sumir do mapa e o sionismo é uma identidade do Satã. Na mesma batida, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, afirmou que "os descendentes dos que assassinaram Cristo agora querem o ouro do planeta". Ainda que as declarações repisem o tom ameaçador com o qual tanto Ahamadinejad quanto Chávez desafiam Israel, principal aliado dos EUA no Oriente Médio, elas calam fundo. A diplomacia israelense não crava, mas nove entre dez analistas de política internacional juram que a recente Conferência de Annapolis, nos EUA, convocada por Bush sob pretexto de reabrir o processo de paz entre árabes e israelenses, teve por finalidade específica acuar a retórica iraniana. Quanto a Chávez, a diplomacia israelense até crava: algum gesto público deveria ser feito para esvaziar o discurso anti-semita do venezuelano.O gesto público veio na forma de uma homenagem a quatro diplomatas latino-americanos que, em 1947, estiveram à frente das negociações na ONU para aprovar a Resolução 181, estabelecendo a divisão da Palestina entre árabes e judeus, ao fim da tutela britânica na região: Enrique Fabregat, do Uruguai, Jorge García Granados, da Guatemala, Arturo García Salazar, do Peru, e Oswaldo Aranha, do Brasil, todos falecidos. Familiares dos diplomatas foram convidados a participar de uma programação intensa, que incluiu de inauguração de praça a sessão solene no Parlamento israelense, a Knesset, na última segunda-feira, com a presença de Ehud Olmert e Shimon Peres. Como ressaltaria Itzhak Navon, quinto presidente do país, "o povo judeu não pode se esquecer da memória". O kibutz Bror Chail mudou muito. O mundo, idem. Mas o martelo está lá, doado pela família Aranha - o que só parcialmente responde à pergunta da incomodada senhora da delegação guatemalteca.RECONSTRUINDO O MUNDOEm 29 de novembro de 1947, a partilha da Palestina foi aprovada na 49ª Sessão da 2ª Assembléia-Geral da ONU, sob a presidência do diplomata brasileiro, com o seguinte placar: 33 votos a favor, 13 contra e 10 abstenções. Foi o fim de um processo febril de negociações. E o começo de uma era sem fim de confrontos. O projeto sionista de uma pátria para os judeus ganharia ali legitimidade internacional, o que levou à criação do Estado de Israel no ano seguinte. Meses antes da partilha, porém, formou-se um grupo nas Nações Unidas - o Unscop, United Nations Special Committee on Palestine - para estudar a divisão. Fabregat, García Granados e García Salazar atuaram nele, inclusive trabalhando ao lado dos judeus num alojamento ainda hoje preservado num bairro residencial de Jerusalém. Oswaldo Aranha, não. Recebeu a proposta nos EUA, aparou divergências e levou-a a votação - para vencer. Era um pró-partilha. Até hoje se diz que construiu a vitória pressionando delegados da assembléia. "Não, ele advogou a favor de uma maioria e conduziu os trabalhos de forma processual", opina o ex-embaixador Rubens Ricupero, com a experiência de ter estado na ONU por anos, como secretário-geral da Unctad. "Foi eficiente justamente por ter sido processual no meio da confusão", argumenta o ex-chanceler brasileiro Celso Lafer. " Era de uma inteligência poderosa e hoje estou convencido de que estudou muito para advogar a partilha." Assim como poucos sabem que a tradição de o Brasil abrir a Assembléia-Geral da ONU se deve à passagem de Aranha por lá, também poucos imaginam por que, afinal de contas, esse homem presidiu a assembléia num tempo de paz incerta e homens incomuns - Churchill, Stalin, Ben Gurion, Trumann. Os 60 anos da Resolução 181 trazem de volta uma figura singular da política brasileira. Em 1947, Aranha já dispunha de uma biografia de estadista: fora um dos articuladores da Revolução de 30; ministro da Justiça (quando criou a OAB e reformulou o Supremo); ministro da Fazenda e negociador da dívida externa no governo provisório; embaixador nos EUA de 1934 a 37, deixando o cargo por rejeitar o Estado Novo; voltou ao governo no ano seguinte como chanceler; foi atacado por Goebbels, chefe da propaganda nazista ("o sr. Aranha faz o possível para criar caso com o Reich"); construiu a posição brasileira na 2ª Guerra em favor dos aliados; e de novo saiu do governo em 1944, depois que Filinto Müller, chefão da polícia getulista, fechou a Sociedade Amigos da América, da qual era presidente. Para Lafer, Aranha chegou à ONU com uma densidade política que os diplomatas de carreira não têm. Teve uma relação ambígua com Vargas, gaúcho como ele, e uma antipatia sem disfarces em relação a Dutra, eleito presidente em 1945. Fora do jogo político, resolveu advogar. E colecionar cavalos de raça.O ROSTO DA ?TIME?"Ele surge como líder mundial só depois da reunião de Cleveland", lembra Ricupero. "Sim, mas já era conhecido nos EUA", diz Luiz Aranha Corrêa do Lago, neto e biógrafo de Aranha. Antes de entender Cleveland, parênteses: em 1934, quando apresentou as credenciais de embaixador ao presidente Roosevelt, de quem se tornaria amigo, falou em francês para não exibir o inglês rudimentar. Em seguida viajaria pela América com um professor a tiracolo, querendo dominar o idioma. Em janeiro de 1947, quando foi a Cleveland convidado pela revista Time, para participar da reunião anual do Council on World Affairs, - encontro de notáveis para repensar o mundo do pós-guerra - já tinha fama de tribuno nos EUA. "O povo que desintegrou o átomo tem agora a missão de integrar a humanidade", sapecou no discurso, chamando a atenção de Henry Luce, o poderoso editor da Time (em 1942, Aranha havia sido capa da revista como promotor da articulação pan-americana contra o Eixo).Depois do êxito em Cleveland, veio a mão do destino. Morre o representante do Brasil na ONU, Dutra não tem outro nome para subsituí-lo no momento em que o Brasil assumiria a presidência do Conselho de Segurança, pelo sistema rotativo. Dutra engole em seco e nomeia Aranha. "Meu avô hesitou, falou com a família, mas aceitou a missão. Sua presença no conselho fez com que fosse eleito presidente da Assembléia Especial para a Palestina, em abril de 1947. Trabalhou tão bem que o elegeram presidente da 2ª Assembléia-Geral, quando então aprovou a partilha. Uma atuação foi puxando a outra, porque ele estava lá nos EUA. Era o homem certo, no lugar certo, no momento certo", explica o neto. Há concordância quanto à personalidade: homem sedutor, ouvia os interlocutores, tinha espírito de conciliação. A socióloga Aspásia Camargo, vereadora pelo PV do Rio e autora de uma das biografias de Aranha, disse esta semana ao Aliás: "A ousadia dele incomodava. Tinha intimidade com o mundo certamente por ter podido estudar na Europa muito jovem, lidando até com a 1ª Guerra de um ponto de vista além-fronteiras". Nahum Sirotsky, um dos primeiros jornalistas brasileiros credenciados na ONU, entrega outra faceta: "Bonitão, sempre com aquele cigarro no canto da boca, ah, as mulheres ficavam loucas..." No livro Personal Witness, o diplomata e escritor israelense Abba Eban, contemporâneo de Aranha na ONU, refere-se a ele como "um homem com fervor quase religioso pela idéia de criar o Estado judeu". No lado oposto, seria visto como um americanófilo ardiloso. Camille Chamoun, outro contemporâneo e futuro presidente do Líbano, colocou-o no centro de "um sistema tirânico de abordar delegações em quartos de hotel e corredores, ameaçá-las com sanções econômicas ou dar propinas".Naquele complicado 1947, a posteridade acenou para Aranha dificultando-lhe o caminho: ele chegara à presidência da Assembléia-Geral sem o entusiasmo do governo brasileiro, que preferia uma vaga no Conselho Econômico e Social; sabia que Truman apoiava a partilha, ao contrário de boa parte do Departamento de Estado; os judeus contariam com o voto dos soviéticos, interessados em solapar o imperialismo britânico, mas os ingleses continuariam a jogar a carta árabe; e a Guerra Fria mal começara. O lobby sionista se desdobrou. Árabes tentaram adiar a votação, jogando-a para um futuro incerto. Aranha impediu a manobra, ainda sem a certeza da vitória. Em 27 de novembro, diante de uma assembléia exausta, perguntou: "Senhores, é justo que num feriado nacional, Dia de Ação de Graças, ocupemos o staff americano com uma votação que pode ser perfeitamente adiada para o dia 29?" Liberou o plenário. Na verdade, conseguiu ganhar tempo para as últimas negociações, indo para a votação certo do resultado. Assim bateu o martelo que Abraham guarda no kibutz. A VIDA E AS REPETIÇÕES Retornando ao Brasil, foi de novo ministro da Fazenda. Mas, com o suicídio de Vargas, de novo se refugiou na advocacia. Em 1957, a convite de JK, de novo chefiou a delegação brasileira na ONU. Aproximou-se de novo de Luís Carlos Prestes, líder do PCB, reatando um elo do passado, o que levou a Time, mais uma vez, a falar dele. Estaria se "esquerdizando". Cortejado pelo PTB para ser vice na chapa do marechal Lott, candidato à presidência, recusou: "A essa altura da vida não quero mais ser segundo de ninguém". Morreu em janeiro de 1960, aos 65 anos, do coração. Além de patrono de kibutz, Oswaldo Aranha é nome de rua em Jerusalém. Uma cidade que nunca chegou a conhecer, num país que ajudou a fundar. * A jornalista assistiu às homenagens a Oswaldo Aranha a convite do governo de Israel.

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