Tratamento de imagem

Até os inimigos concordam: influenciando ou amordaçando, Fidel é mestre em trabalhar com a mídia

Anthony DePalma*,

27 Dezembro 2008 | 18h14

Mesmo neste momento em que um combalido Fidel Castro se esmaece na história, as opiniões continuam divididas sobre se ele é herói ou demônio. Mas em uma questão não há discordância, nem mesmo entre seus mais ferozes inimigos. Fidel Castro é um mestre da mídia. Desde seus primeiros tempos nas montanhas no sudeste de Cuba quando, com um punhado de rebeldes desgrenhados, ele conseguiu convencer um escolado e influente correspondente do New York Times de que seus homens estavam marchando para uma vitória inevitável sobre um dos maiores Exércitos da América Latina, Fidel conseguiu manipular, controlar, distorcer e embelezar a imagem que apresenta ao mundo – um feito sem paralelo. Veja também:Nas trilhas da revoluçãoUma só Cuba? Esqueça: são muitasUma carcomida relíquia da Guerra FriaO fim de um longo jejum religiosoLas Vegas do CaribeLinha do tempo A Revolução Cubana nas páginas do Estadão Debates Estadão: O futuro de Cuba pós-Fidel Ele não teve nenhuma dificuldade para dominar a mídia na própria Cuba. Após tomar o poder, há 50 anos, assumiu o controle absoluto sobre todos os jornais, rádios e televisões locais – e continua no controle até hoje, apesar da saúde debilitada. Nada que Fidel não tenha aprovado jamais foi escrito ou transmitido nessa mídia cativa. E conseguiu assegurar, de uma maneira que poucos líderes fora da Coréia do Norte jamais conseguiram, que a mídia estrangeira – na qual se apoiou pesadamente durante sua luta revolucionária – fosse impedida de influenciar as lutas internas de Cuba. O regime de Fidel cortejou consistentemente jornalistas amigos e negou vistos a qualquer um que pudesse questionar o relato oficial do sucesso da revolução. É por isso que Raúl Castro se encontrou recentemente e com Sean Penn e foi entrevistado pelo ator americano, mas não pelo jornalista que acompanhou Penn, Christopher Hitchens. Mesmo hoje, 50 anos depois que as forças rebeldes entraram triunfalmente em Havana após o ditador Fulgencio Batista fugir no meio da noite, Fidel continua no controle da própria imagem. A imagem, aliás, pode ser tudo que lhe resta. O comandante de 82 anos não tem sido visto em público desde julho de 2006, quando entregou provisoriamente o poder a seu irmão mais novo, Raúl. Ele não apareceu sequer em fevereiro deste ano, quando tornou aquela transição temporária permanente e entregou a maioria dos cargos que ocupava desde o triunfo da revolução. Foram divulgadas algumas fotos e um curto vídeo, e mais nada. Embora Fidel tenha sido submetido a uma cirurgia complexa que exigiu uma prolongada recuperação, não foi vista nenhuma foto sua recebendo algum tratamento, nem mesmo soro intravenoso. Isso transmitiria uma imagem de fraqueza, imagem que seria absolutamente inaceitável. Raúl é claramente o novo líder de Cuba, mas Fidel continua sendo o chefe emblemático da revolução, como mito ou como homem. Há muitas questões sobre como Raúl se sairá como sucessor de Fidel. Em termos de capacidade administrativa e disciplina, acredita-se que Raul seja um melhor executivo. Mas Raúl não pode se comparar ao irmão em termos de compreensão do poder da imagem, ou de como manipulá-la. Existem até evidências de que ele não compreende ou não valoriza a força da nova mídia que está arrebatando o mundo. Raúl recentemente levantou restrições que impediam a maioria dos cubanos de possuir computadores. Pareceu um ato cínico, já que um cubano comum, que ganha em média US$ 1 por dia, precisaria de aproximadamente dez anos para poupar dinheiro suficiente para comprar até mesmo um computador de poucos recursos. Mas os vôos para a reunificação de famílias de Miami a Havana sempre trazem expatriados carregados de artigos que não são encontrados em Cuba. Sem dúvida, eles trarão computadores e telefones celulares para seus parentes. Raúl e os outros idosos no comando de Cuba podem não estar cientes da facilidade com que um pendrive pode ser passado de uma pessoa para outra, ou como alguns momentos no terminal de computador nos saguões de hotéis para turistas podem espalhar críticas contra-revolucionárias de uma ponta a outra da ilha. Eles talvez não percebam que os avanços tecnológicos podem transformar uma câmera de computador desktop num estúdio de televisão em miniatura capaz de fazer transmissões acessíveis a todos os demais. Recentemente, um grupo de dissidentes usou uma câmera de computador para transmitir uma assembléia ao vivo para Miami, onde ela foi retransmitida por um programa de notícias, A Mano Limpia. Uma blogueira cubana, Yoani Sánchez, já conquistou uma importante audiência internacional com seu blog, Generación Y, e suas críticas na internet ao regime de Fidel. Seu trabalho corajoso foi reconhecido pelo governo da Espanha, que lhe conferiu o prêmio Ortega y Gasset, e pela revista Time, que a enumerou entre as cem pessoas mais influentes do mundo. O regime de Fidel fez algumas tentativas canhestras para contê-la, mas suas mensagens ainda são distribuídas por toda a ilha e captadas por blogueiros nos Estados Unidos, que em seguida as redistribuem por todo o mundo. Yoani descreve as condições miseráveis em hospitais cubanos reais, não nos poucos selecionados que são mostrados a visitantes. Ela expõe os sonhos reprimidos de jovens cubanos dos quais se esperaria que apoiassem a revolução porque viveram sob ela durante toda a vida, mas não apóiam. A revolução atingiu a meia-idade, e como acontece com mulheres de meia-idade, a imagem é mais importante que nunca. No entanto, com o presidente eleito Barack Obama prestes a assumir o cargo, os Castros terão que arranjar uma nova maneira de fortalecer a própria imagem. Durante o último meio século, Fidel vociferou contra dez presidentes americanos, retratando-os em discursos intermináveis como a personificação do inimigo imperialista empenhado em destruir a revolução e subjugar Cuba novamente. Essa demagogia foi relativamente fácil de sustentar tanto durante administrações republicanas como democratas, e Fidel conseguiu frustrar cada residente da Casa Branca. Mas Obama projeta a própria e poderosa imagem, uma que não é tão facilmente associada aos fantasmas diabólicos de administrações passadas. Em Obama, Fidel Castro pode ter encontrado um páreo em domínio da imagem, e um homem forte em retórica. Obama não se parece com os supostos imperialistas contra os quais Fidel vociferou por tanto tempo. Mesmo os verdadeiros crentes na revolução terão dificuldade de pensar na Casa Branca de Obama como um invasor predisposto a se atirar sobre a pobre Cuba. O acólito de Fidel na Venezuela, Hugo Chávez, enfrenta a mesma perda, e sem um inimigo aviltado para posar como ameaça eternamente presente, ele pode ter problemas em responder às demandas de seu povo. Uma nova era está claramente se iniciando. O grito de "mudança" ouvido com tanta frequência durante a longa campanha que antecedeu a eleição americana em novembro pode forçar um certo grau de mudança em Cuba, onde a palavra cambio não pode ser dita publicamente sem conseqüências. Um possível alinhamento já está começando a tomar forma. Uma comissão de alto nível, chefiada pelo ex-presidente mexicano Ernesto Zedillo e o ex-embaixador americano Thomas Pickering, insistiu em que o presidente eleito, Obama, agite as relações hemisféricas colocando as relações estratégicas com a América Latina no centro mesmo da política americana. E como parte desse alinhamento, a Comissão Zedillo recomendou o rápido encerramento da rivalidade geopolítica entre Estados Unidos e Cuba. As restrições a viagens para cidadãos americanos seriam levantadas imediatamente e Cuba seria tirada da lista de Estados terroristas. A negociação substituiria o confronto, e a imagem de impasse imperialista-pós-comunista poderia ser incorporada numa imagem mais benigna de cooperação hemisférica. A primeira página do Granma, o jornal do Partido Comunista em Cuba, exibe freqüentemente pequenas fotos de Fidel, Raúl e outros "barbudos" erguendo os punhos fechados enquanto gritavam Victoria! nas montanhas em 1957. Ao longo deste ano, o Granma publicou artigos sobre assuntos mundiais assinados por Fidel Castro, que aparecem sob o título Reflexões do Companheiro Fidel. O Granma também publicou muitos artigos narrando acontecimentos históricos que levaram à vitória dos rebeldes na véspera de ano-novo há 50 anos. Os idosos que hoje comandam o país querem preservar a todo custo essas imagens dos dias de glória, apesar de Fidel estar reduzido a escrever colunas tortuosas e o brilho da revolução continuar se apagando. Mas tempo virá em que cubanos e americanos exigirão que as imagens forçadas sejam substituídas por algo mais substancial. E se uma diplomacia refinada e uma negociação firme substituírem um dia a retórica pegajosa e o confronto habitual, a tensa relação entre Estados Unidos e Cuba – separados por meros 144 quilômetros – poderia ter uma chance de voltar a uma base mais sólida, mais realista. *O jornalista Anthony DePalma, do New York Times, é autor de O Homem que Inventou Fidel (Companhia das Letras)

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