Trecho do livro eu, primata

Quando uma bonobo chamada Kuni viu um estorninho trombar com a vidraça de sua jaula no Zoológico de Twycross, na Grã-Bretanha, foi ajudá-lo. Pegou o atordoado passarinho e com delicadeza o pôs em pé. Ao ver que ele não se mexia, deu-lhe um empurrãozinho, mas ele só agitou as asas. Kuni então subiu ao topo da árvore mais alta com o estorninho (...). Cuidadosamente, desdobrou-lhe as asas até abri-las bem, segurando-as entre seus dedos, após o que lançou o passarinho pelos ares (...). Mas ele não ultrapassou a barreira e aterrissou na beira do fosso. Kuni desceu da árvore e montou guarda por muito tempo ao lado do estorninho, protegendo-o de um jovem bonobo curioso (...). O modo como Kuni lidou com a ave foi diferente de qualquer coisa que ela teria feito para ajudar outro primata. Em vez de seguir algum tipo de comportamento automático, ela adaptou seu auxílio à situação específica daquele animal totalmente diferente dela própria. (...) Esse tipo de empatia quase nunca é observado em animais, pois depende da capacidade de imaginar as circunstâncias do outro. Adam Smith, o pai da economia, deve ter tido em mente ações como a de Kuni, embora não executadas por um primata não-humano, quando, há mais de dois séculos, nos legou a mais duradoura definição de empatia: "imaginar-se no lugar do sofredor".

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