Edward Hopper
Edward Hopper

Trem: o mais prazeroso meio de transporte inventado pelo homem

Metáfora da modernidade, os 'cavalos de ferro' tiveram gigantesco impacto cultural

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2021 | 15h00

Pensei, ao ler a notícia, que voltaríamos, finalmente, a viajar de trem, que nossas rodovias ficariam menos abarrotadas de caminhões, mas logo verifiquei que o chamado “marco legal das Ferrovias”, recém-aprovado no Senado, diz mais (ou quase exclusivamente) respeito ao transporte de grãos, minérios e outras cargas pesadas do que ao lazer sobre trilhos e dormentes. 

Se, consolidada a “Ferrogrão”, recuperarem também a malha por onde, no passado, a Maria Fumaça da Leopoldina deslizava, apitando “chu-chu!”, aí, sim, poderemos voltar a dizer, apropriadamente e felizes, que iremos—ou vamos ou viemos—de trem. 

Sou louco por trens. Quem, interiorano ou cosmopolita, não é? Da geração baby boomer para trás, desconheço exceções. Se ao Jay Gatsby de F. Scott Fitzgerald qualquer trem evocava a juventude plena de felicidade que ele desfrutara, com assiduidade, nos requintados vagões amarelos entre Milwaukee e St. Paul, creio que a mim e à maioria dos mortais trem remete, mormente, à infância, ao que ela tinha de mais fagueira, com sonoridades, odores e visões que nos acompanham pelo resto da vida: do café com pão, manteiga não, à fuligem em brasa vagalumeando por sobre os cafezais noturnos da Zona da Mata mineira, meu retiro nas férias de verão. 

Ah, o extasiante cheiro de carvão incandescente espalhado pela chaminé da locomotiva, os chiques assentos de palhinha em que os adultos viajavam protegidos por guarda-pós tão brancos quanto um jaleco de hospital.

Cavalo de ferro mitificado em imagens por John Ford, Buster Keaton e Edward Hopper, em onomatopaicos versos por Manuel Bandeira, em sustenidos e bemóis na bitola caipira de Villa-Lobos e Ferreira Gullar, por Tom Jobim e a ensolarada dupla Lô Borges-Ronaldo Bastos, o trem também foi musa de sambistas cariocas (“Patrão, o trem atrasou; por isso estou chegando agora...”) e paulistas (o que Adoniran Barbosa não podia perder, rumo a Jaçanã saía às 11 horas), e canções afamadas por Elvis Presley (Mystery Train), Carmen Miranda (Chatanooga Cho Choo) e Judy Garland (The Atchinson Topeka and Santa Fe). Além de mote para a brejeira dupla formada por Eliana e Adelaide Chiozzo nas chanchadas da Atlântida.

Juntei todos esses cascalhos muitos anos atrás, com a intenção de desenvolver um ensaio, que afinal se resumiu a uma mnemônica ode ao que Emerson, o filósofo e poeta oitocentista americano, concedeu status divino (“O trem é Deus”) e os mineiros das Gerais transformaram em algo não muito distante disso quando o adotaram como sinônimo de qualquer coisa que lhes agrade imensamente (“Trem bão, sô!”) e que tanto pode ser uma poltrona confortável como um leitão pururuca. 

Hercule Poirot, o detetive de Agatha Christie, aquele do Expresso do Oriente, acreditava que os trens eram pessoalmente guiados pelo “bom Deus”—e seus desastres, deduzo, explicáveis pela teodiceia. Milhares de imigrantes chineses morreram na construção da via férrea transcontinental da América do Norte, no século 19. Também havia sangue nos trilhos da nossa Madeira-Mamoré, concluída no início do século passado com o sacrifício de umas 10.000 vidas, pelo progresso da indústria da borracha e derivados. 

Glorificado por escritores e cineastas britânicos, o trem sempre serviu de metáfora e metonímia na ficção escrita e filmada. O fetiche de Hitchcock por trens, desde o silencioso, atingiu seu ápice (clímax, no caso, seria mais adequado) na última imagem de Intriga Internacional, tacitamente fálica, a rimar com o que Cary Grant e Eva Marie Saint fazem no beliche de um streamliner na boca de um túnel, a caminho da Grand Central Station de Nova York, onde toda a intriga tivera início.

Que voltem os trens. Para alívio das estradas e para matar nossa saudade do mais prazeroso meio de transporte inventado pelo homem. 

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