20th Century Fox
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Três livros para se lembrar do que é liderança frente a uma nação

O historiador americano Louis Masur seleciona três obras sobre presidentes americanos diante de crises

Louis P. Masur, The Washington Post

09 de maio de 2020 | 16h00

A nação estava em crise. Um estado sulista ameaçava seguir seu próprio caminho e presidente tinha de decidir de que maneira reagir. Não era o inverno da secessão de 1860-1861. Mas tratava-se da crise da anulação de 1832-1833 (uma crise que envolveu um confronto entre o Estado da Carolina do Sul e o governo federal). O presidente Andrew Jackson, que era sulista, estudou profundamente como agir.

Não surpreende que uma das respostas à pandemia do coronavírus tenha despertado de novo o interesse na liderança oferecida por presidentes em outras épocas de crise. Qualquer livro sobre um presidente oferece insights, porque a administração de uma crise define amplamente o trabalho dele. Existem inúmeras estudos biográficos bons, incluindo obras de Michael Beschloss (Presidents of War: The Epic Histoy, from 1807 to Modern Times) e de Dris Kears Goodwin (Leadership: In Turbulent Times).

Tirei alguns livros da minha estante e três trabalhos em particular me pareceram importantes.

American Lion: Andrew Jackson in the White House, de Jon Meacham, que recebeu um Prêmio Pulitzer e tem início com a crise de 1832-1833. A Carolina do Sul (encorajada pelo vice-presidente de Jackson, John C. Calhoun) anulou uma lei federal sobre tarifas. A ação do estado, se não contestada pelo governo federal, ameaçava a existência da nação. “A desunião pela força armada é traição”, ele vociferou e ameaçou uma intervenção militar para deter a Carolina do Sul.

Meacham escreve que Jackson “foi paciente, mas tinha de fazer o que era preciso. Sua combinação de solicitude e sanção refletiu sua visão de que política era ao mesmo tempo algo clínico e humano, conduzida por princípios e paixões que ele devia fazer uso para o bem do país como um todo”.

Persuadida pela belicosidade de Jackson, como também uma renegociação das tarifas, a Carolina do Sul recuou e a crise foi adiada por uma geração.

Mais de um século depois, Jackson, visto como um avatar da democracia americana, foi elevado ao mais alto nível como presidente (ele apareceu na nota de US$ 20 em 1928). Mas nas últimas décadas a aversão por suas ações contra os índios Cherokee levou a uma reavaliação. Um estudo de 2017 de atos do Congresso o colocou em 18º lugar entre presidentes, um pouco atrás de James Polk, que lançou uma guerra com o México.

Entretanto por mais que Jackson tenha errado, ele tinha uma compreensão clara sobre a preservação dos Estados Unidos. Por isto Abraham Lincoln manteve um retrato dele (que era um escravista) em seu gabinete. Além de pertencer ao Partido Republicano, esta é sem dúvida a única similaridade entre Lincoln e o presidente Trump.

Tanta coisa foi escrita sobre Lincoln como líder que parece lugar-comum falar dele agora. Mas um aspecto que recebeu menos atenção do que outros foi seu papel não como presidente, mas como comandante em chefe.

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O livro Tried by War: Abraham Lincoln as Commander in Chief, de James McPherson, oferece exemplos notáveis da liderança militar de Lincoln. O autor nos lembra que “não só o sucesso ou o fracasso de Lincoln como presidente, mas também como real sobrevivente dos Estados Unidos dependia de como ele cumpriria seus deveres como comandante em chefe”.

Com extrema determinação, Lincoln se tornou um comandante informado, um mestre da estratégia e táticas militares, como também do cálculo político. De acordo com seu secretário John Hay, Lincoln “leu um grande número de trabalhos sobre estratégia e se aprofundou nos informes de vários departamentos e distritos do campo de batalha”.

Na correspondência de Lincoln com seus generais, a carta que talvez mais ilumine seu caráter como líder é a endereçada a Ulysses S. Grant após a vitória em Vicksburg em julho de 1863. Depois de mostrar sua gratidão, Lincoln sentiu-se compelido “a dizer uma palavra mais”. Admitiu ter tido dúvidas sobre os planos de Grant para o ataque e concluiu, declarando, “agora desejo fazer um reconhecimento pessoal de que você estava certo e eu estava errado”.

Cada vez que leio esta frase fico fascinado ao pensar que o presidente teve a confiança e a humildade para admitir que estava errado. Não existe exemplo melhor do que significa estar no comando, como liderar e conquistar o respeito dos outros.

A presidência de Lincoln começou com o início de uma guerra, a de Harry Truman começou com o fim de uma. Truman admirava Lincoln, embora o tenha colocado abaixo de Jackson na sua lista dos grandes presidentes.

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The Accidental President: Harry S. Truman and the Four Months That Changed the World, de A.J. Baime, ilustra a impossibilidade de prever quem seria o próximo a ocupar o Salão Oval.  “Quem é, afinal, Harry Truman? perguntou William Leahy, chefe de gabinete de Franklin Roosevelt, quando o senador do Missouri foi o candidato a vice em 1944. Truman serviu 82 dias como vice-presidente e durante esse tempo visitou oficialmente Roosevelt somente duas vezes. “Não sou grande o bastante para este cargo”, ele afirmou ao assumir a presidência.

Nos quatro primeiros meses, de abril a julho de 1945, Trump supervisionou o fim da Segunda Guerra Mundial, participou da Conferência de Potsdam junto com Winston Churchill e Joseph Stalin, ordenou o uso da bomba atômica e deu início ao planejamento para uma recuperação pós-guerra.

Em seu discurso ao Congresso em 16 de abril de 1945, quatro dias após a morte de Roosevelt, Truman se expressou com voz firme e lembrou os americanos que “o mundo inteiro está olhando para a América em busca de uma liderança esclarecida para a paz e o progresso”.

“Um destino trágico que nos impõe sérias responsabilidades. E devemos assumi-las”, ele declarou.

E ele se expressou com uma voz que “era a voz de um homem comum”, observa Baime. “Ele se tornou um símbolo para o americano comum, que via nele as esperanças e os sonhos das suas próprias vidas e de seus filhos”.

Truman era feliz em permanecer como um outsider. Ele não era pessoa de obter favores e não teve nenhum problema em substituir muitos membros do seu gabinete herdado no final do ano. Sua frase é famosa: “se você deseja um amigo em Washington, arranje um cão”.

É tentador acreditar que há lições de Jackson, Lincoln ou Truman que podem ser aplicadas aos dias atuais, mas acho que é a maneira como o passado informa o presente. “A natureza humana não mudará”, observou Lincoln. Sempre haverá líderes que encolhem sob a pressão e aqueles que ascendem ao confrontarem uma situação. É impossível prever quem cairá e quem terá sucesso, quem se apagará e quem provará estar à altura do cargo. Estudar as crises passadas não oferece uma solução para esta presente, mas vai nos lembrar que um dia este momento se tornará história, e serão os futuros leitores que julgarão o quão bem nossos líderes desempenharam sua função.

Tradução de Terezinha Martino

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