Brian Snyder/Reuters
Brian Snyder/Reuters

Três livros tentam entender o fenômeno eleitoral de Donald Trump

A jornalista Michiko Kakutani, a filósofa Martha Nussbaum e o cartunista Scott Adams empreendem a investigação com conclusões diferentes

Martim Vasques da Cunha*, O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2018 | 16h00

Quem é o culpado pela vitória de Donald Trump na eleição presidencial americana de novembro de 2016? A casta intelectual ainda não encontrou uma resposta satisfatória para este evento tão inusitado que ela, por mais que torcesse contra o polêmico magnata, não conseguiu prever. E foi por causa deste enigma que surgiu uma verdadeira indústria de especulações sobre um fato simplesmente inimaginável há alguns anos.

Três títulos – dois escritos por opositoras de Trump, um feito por um analista que o vê com simpatia – atendem a essa “demanda do mercado”. Os primeiros são A Morte da Verdade – Notas Sobre a Mentira na Era Trump, da jornalista Michiko Kakutani, e The Monarchy of Fear – A Philosopher Looks to Our Present Crisis, da filósofa Martha Nussbaum. E o terceiro é de autoria de alguém extremamente improvável para fazer qualquer tipo de diagnóstico político – no caso, o criador do personagem em quadrinhos Dilbert, Scott Adams, que ousou profetizar com um ano de antecedência que Trump ganharia as eleições, e mostra como fez isso em Ganhar de Lavada – Persuasão em um Mundo Onde os Fatos não Importam.

Kakutani fez fama como resenhista literária no suplemento cultural do jornal The New York Times, ora desagradando alguns escritores (Nassim Taleb e Jonathan Franzen), ora louvando outros (Thomas Pynchon e Philip Roth). Em A Morte da Verdade, seu primeiro livro após mais de 34 anos de labuta nas redações, ela cria uma narrativa histórica para explicar a si mesma como os EUA permitiram que Trump vencesse a eleição. A tese principal é que chegamos ao clímax do relativismo moral e epistemológico que contamina o pensamento ocidental nos últimos anos. A verdade objetiva, tal como a conhecíamos, foi deformada e isto afetou todos os estratos culturais da América. Não à toa, o resultado foi a ascensão de Trump e de uma direita alternativa que põem em risco tudo o que Kakutani acredita ser o fundamento da democracia – o debate sem preconceitos e a liberdade de expressão irrestrita –, justamente porque eles manipulam a realidade conforme seu desejo de poder.

Já Nussbaum – conhecida entre os acadêmicos de língua inglesa por A Fragilidade da Bondade, um clássico para quem quiser estudar a ética e a filosofia antigas – chega à mesma conclusão, mas faz isso por meio de um caminho inusitado. Para ela, antes de se estudar a questão da verdade, devemos estudar as nossas emoções. A situação atual da nossa “crise democrática” começa com o desconhecimento de que a nossa emoção primordial sempre será o medo. É ele que nos impede de nos comunicar com os nossos semelhantes, de criar um vínculo social que, depois, formará a democracia tão sonhada pela professora das universidades de Harvard e de Chicago. É o medo de viver em um mundo repleto de incerteza, morte e destruição que faz o ser humano acreditar nas mentiras que cria para si mesmo – entre elas, os preconceitos com os quais Donald Trump usou como poucos para catapultar a sua carreira política.

Scott Adams também acredita que o nosso medo pela incerteza é uma força poderosa para fomentar uma reviravolta política. Contudo, ao contrário de Kakutani e Nussbaum, ele vê o resultado da eleição de Trump com bons olhos. Segundo esta perspectiva inusitada, o que aconteceu em 2016 foi um fenômeno colossal de dissonância cognitiva, iniciado por um candidato presidencial que sabia, como poucos, usar as técnicas da persuasão. Para quem ainda não sabe o que é isso, a persuasão é um modo de ver o mundo não como algo verdadeiro e concreto, mas sim como um palco onde o importante é convencer o cidadão de algo que ainda ele não sabia que precisava. No fundo, trata-se de uma técnica de comércio, usada principalmente na compra e venda de qualquer tipo de produto – inclusive, o seu voto.

De acordo com Adams, o ser humano deseja ser racional, mas, na verdade, ele é profundamente irracional, incapaz de perceber os fatos diante dos seus olhos, apenas as emoções que o fazem reagir de uma determinada forma, segundo a vontade de quem disparou tal gatilho subliminar – e que pode ser um apelido satírico, um erro de digitação, uma expressão inusitada ou até mesmo uma imagem assustadora, como, por exemplo, a construção de um muro a separar os EUA do México.

Ganhar de Lavada afirma que Trump ganhou o pleito porque compreendeu que todos nós vivemos em uma eterna dissonância cognitiva. Ela está na constituição da natureza humana. Temos imagens projetadas do que pensamos ser, mas a realidade vem e destrói tudo o que achávamos que éramos. Para recuperarmos essa identidade ficcional, recorremos a truques, eufemismos e subterfúgios, e assim garantimos a nós mesmos que tudo está bem, naquele fenômeno que os especialistas chamam de “viés de confirmação”. Mas nada disso é verdade. Continuamos a viver na mais pura ilusão. O que Trump fez, para Adams, foi manobrar as expectativas desses devaneios e dar respostas claras e diretas sobre o que ele faria para resolver os problemas que assolavam uma determinada parcela do povo americano.

O choque provocado por este truque de persuasão, feito em escala global, foi extremo. Cada parte atingida por ele se viu obrigada a manter o seu respectivo viés de confirmação para garantir a sobrevivência do seu mundo particular. No fim, nunca se tratou de uma mera eleição política, mas sim de uma eleição cognitiva – e a casta intelectual teve de manter sua cegueira irracional, não permitindo que o medo contaminasse suas certezas. Foi o que aconteceu com Kakutani e Nussbaum que, incapazes de admitir suas respectivas dissonâncias cognitivas, se apropriaram das críticas feitas anteriormente por ensaístas conservadores, como Roger Kimball e Russell Kirk, para depois de chamá-las de suas, com a maior desfaçatez, sem se importarem com a verdade dos fatos e com o medo de passarem vergonha aos olhos do leitor honesto e ciente deste “estado da questão”.

Isto, claro, tem um motivo que precisou de um sujeito sem nenhuma pretensão de ser intelectual, como Scott Adams, para explicar a elas de forma dolorosa (e, ao mesmo tempo, divertida). Kakutani e Nussbaum são progressistas que acreditam que a democracia é um sistema político que funciona de verdade. Adams – um libertário empedernido – argumenta que isso não passa de uma quimera. Não à toa, ele não cai na idolatria das eleições representativas e, por isso, recusa-se a votar, justamente para impedir que sua análise caia na armadilha do viés de confirmação. A democracia, constata, é uma “ilusão necessária para dar suporte ao governo” e é “provavelmente uma das mais benéficas alucinações que a humanidade já concebeu. Se você acredita que a democracia funciona e age como se ela funcionasse, ela de fato funciona”.

Apesar da aparente tautologia, Adams desenvolve seu raciocínio e ataca o “centro da questão” que atormenta Kakutani e Nussbaum: “A democracia é mais uma condição mental que um sistema político. Ela funciona porque achamos que funciona e queremos que funcione. Mas, se fosse removida a alucinação pública de que o eleitor ignorante médio tem a habilidade de prever o futuro, a coisa toda seria desfeita. (...) A ilusão da democracia é tão robusta que podemos simultaneamente saber que ela é absurda e viver nossas vidas como se não fosse. (...) Se as pessoas fossem racionais, elas perceberiam que não têm os poderes psíquicos necessários para distinguir entre um grande candidato a presidente e um candidato ruim. Somos horríveis em prever o futuro”.

Nesta grande alucinação coletiva que se tornou a nossa democracia ocidental (especialmente a brasileira), a única certeza que nos restou é que não sabemos coisa alguma sobre nós mesmos ou sobre como funciona a lógica do poder. E o brucutu Donald Trump entendeu isso mais do que as eruditas Michiko Kakutani e Martha Nussbaum. Quanto a Scott Adams, ele apenas se persuadiu que viu o futuro antes de todos. Afinal, cada um tem o auto-engano que merece. Mas no caso dele – e do atual presidente dos Estados Unidos –, ambos estão ganhando um bom dinheiro com essa nova indústria alimentada pelo nosso erro fatal: a triste crença de que somos donos de uma verdade que não pertence a este mundo.

*Martim Vasques da Cunha é autor dos livros 'Crise e Utopia - O Dilema de Thomas More' (Vide Editorial, 2012) e 'A Poeira da Glória - Uma (Inesperada) História da Literatura Brasileira' (Record, 2015); é pós-doutorado pela FGV-EAESP

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