Ulf Andersen/Getty Images
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Tributo ao épico das Américas de Derek Walcott

Obra do autor nascido em Santa Lúcia é um dos maiores tributos à terra natal já feitos em forma de poesia

Julian Lucas , The New York Times

29 Abril 2017 | 16h00

Encontrei Omeros, de Derek Walcott (1930-2017), escritor morto em março passado, nas prateleiras do Montclair Book Center, um sebo de New Jersey. Era uma frágil brochura, com um cavalo-marinho na capa e o telefone do antigo dono na página final. Continha um fragmento de literatura, um poema do qual eu nunca ouvira falar e que não consegui situar no tempo ou na tradição. Personagens de Homero – Heitor, Helena, Filoctetes, Aquiles – apareciam ao lado de divindades do vodu e trechos de Buffalo Soldier; fantasmas de Troia conviviam com turistas de câmera em punho; pescadores com motosserras preparavam-se para derrubar velhas árvores (aqueles últimos “deuses” silenciosos de um passado pré-colombiano) num trecho da costa vulcânica. As estrofes seguiam o modelo terza rima de Dante, mas o poema começava em patois: “Então nóis, num alvorecer, cortamos elas em canoas.” 

O livro me seguia por toda parte. Crônica da moderna Santa Lúcia, era também um épico do Novo Mundo, tecendo a partir dos encontros de seus personagens com a história uma narrativa vasta e profunda num tear submerso. Em caminhadas na Trilha Lenape, perto da casa de minha infância, em New Jersey, eu tentava ouvir as perdidas línguas índias que Walcott ouvira na pira dos lenhadores, “uma fogueira resinosa que deixava as folhas escuras / com línguas retorcidas, até virarem cinzas e sua linguagem se perder”. O trecho no qual o pescador Hector enfrentou um furacão em sua canoa eu li em um dia de chuva em Crown Heights, Brooklyn, num abrigo de ônibus cercado por lojas caribenhas – uma diáspora naufragada nas mesmas tormentas da história descritas no épico de Walcott. 

Um ano depois, minha leitura de Omeros levou-me a Benin, Togo e Senegal, onde pesquisei memórias da escravidão nos velhos portos do tráfico do Atlântico. Em Dacar, de pé num penhasco próximo à estrada costeira, olhei para o oceano que meus ancestrais atravessaram. Walcott abençoava sua rota: “Mas eles atravessaram, sobreviveram. Eis o esplendor épico. (...) a graça nascida da ausência quando a grade de ferro se fechava acima deles”. Cheguei tão perto da beira do precipício que um estudante que por ali almoçava bateu em meu ombro e advertiu: “Melhor não mergulhar...”

Mas eu já havia mergulhado. Não apenas na história do Atlântico, mas na literatura caribenha e na poesia que ia do movimento Négritude a W. H. Auden e T. S. Eliot. Por causa de Walcott, li Wide Sargasso Sea, de Jean Rhys, e Notebook of a Return to the Native Land, de Aimé Césaire; O Reino deste Mundo, de Alejo Carpentier, e Texaco, de Patrick Chamoiseau. Reli A Tempestade e letras de dois Bobs (Marley e Lowell); depois, voltei aos romances de Jamaica Kincaid. 

O último lugar a que Omeros me levou foi Santa Lúcia, onde, um ano antes da morte do poeta agraciado com o Prêmio Nobel, participei das comemorações de seu 86º aniversário. Num passeio de catamarã em volta da ilha, enquanto dezenas de convidados dançavam e bebiam no convés, Walcott permanecia ancorado na cadeira de rodas, tal qual Ulisses amarrado ao mastro. Seus olhos liam a paisagem como se lessem um poema – escandindo a métrica da linha de arrebentação, conferindo a metáfora das montanhas, esforçando-se para não perder nada.  

Kit Walcott para iniciantes. Para quem quiser conhecer a poesia de Walcott, estas cinco obras são um bom começo:  

 

‘MIDSUMMER I’ (‘MIDSUMMER’, 1984) 

Comece com esta epifania que o poeta fez da janela de um avião, com descrições do horizonte só comparáveis às de James Merrill em A Downward Look e de Elizabeth Bishop em Night City. Ao aproximar-se de Trinidad, “o jato, como uma traça, perfura colunas de nuvens”. Lá embaixo, os grandes temas do poeta tomam forma de miniaturas tridimensionais: o retorno de Ulisses, a contiguidade entre linguagem e paisagem (“minaretes caiados, como pontos de exclamação”), e um Caribe que existe além da história oficial. Aterrissar é ainda mais adorável: cada sucessiva camada do mundo que se rematerializa revela “uma esquecida sensação de lar”.  

 

‘THE SEA IS HISTORY’ (‘THE STAR-APPLE KINGDOM’, 1979) 

Demóstenes gostava de praticar oratória na praia, desafiando com a voz o ronco das ondas. O oceano é um tema recorrente, e aqui Walcott o faz responder a um ataque à história da ilha. “Onde estão suas batalhas, seus monumentos, seus mártires?”, pergunta a voz de um cético metropolitano. E a sonora resposta do poeta é “no mar”. Submerso, o passado caribenho se funde a cenas bíblicas e ao ritmo da vida marinha, evocando o reino dos mortos clássico mesclado à submersa vida pós-morte do vodu haitiano. Esqueletos de escravos afogados nas viagens do tráfico renascem como num Livro do Êxodo: “Mosaicos, abençoados pela sombra do tubarão”.  

 

‘LOVE AFTER LOVE’ (‘SEA GRAPES’, 1976) 

Se Walcott tivesse feito uma canção pop, ela seria Love After Love. Estranhamente desprovida de nomes próprios, sem nomes latinos de flores tropicais ou sonoros nomes creoles de aldeias costeiras, é uma promessa simples e suave de curar corações partidos: 

 

“Chegará a hora em que, 

com total alegria, 

você dará boas-vindas a si mesmo, 

em sua própria porta, 

no próprio espelho”

Celebração da volta de um tempestuoso autoexílio de amor, o poema é, no fundo, inseparável do mundo maior das viagens de Walcott. As partidas e retornos de um coração abrigam-se nas circunavegações do poeta.  

 

‘THE ANTILLES: FRAGMENTS OF EPIC MEMORY’ (1992) 

Ancorando em Trinidad o épico hindu Ramaiana, Walcott inicia seu discurso ao receber o Nobel, em 1992, celebrando a beleza híbrida da civilização caribenha. O discurso não é apenas uma louvação ao Caribe, mas a defesa das ilhas frequentemente minimizadas como derivações amorfas dos continentes “originais” – África, Ásia e Europa, dos quais os caribenhos guardam apenas vestígios. Mas é nessa “colagem de cacos” que Walcott descobre a poesia do arquipélago: “Quebre um vaso, e o amor que rejunta os fragmentos é mais forte que o amor que mantinha a simetria da peça quando intacta”.  

 

‘ANOTHER LIFE’ (1973) 

Raro e feliz é o artista que cresceu com seu país. “Como ninguém havia cantado esta terra, pude fazê-lo”, diz Walcott na luminosa autobiografia, uma crônica em versos sobre seu aprendizado artístico durante o crepúsculo do colonialismo e os primeiros anos da independência de Santa Lúcia. O ponto alto do livro é a amizade do jovem Walcott com o pintor Dunstan St. Omer, companheiro e rival na busca da imortalização da ilha. 

Derek Walcott é autor de um dos maiores tributos à terra natal já feitos em forma de poesia. Another Life deixa claro por que Santa Lúcia deu ao poeta um funeral de estadista, com o caixão envolvido na bandeira nacional desenhada por St. Omer. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

Omeros

Autor: Derek Walcott

Tradução: Paulo Vizioli

Editora: Companhia das Letras

440 páginas

R$ 62,90

 

Julian Lucas é editor associado da revista Cabinet e colaborador de The New York Times 

 

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