Trilogia de Ricardo Piglia é uma verdadeira oficina literária

Trilogia de Ricardo Piglia é uma verdadeira oficina literária

'Os Diários de Emilio Renzi' tem sua primeira parte publicada no Brasil

Everardo Norões*, Colaboração para o Estado

30 Setembro 2017 | 16h00

Se tivesse de sugerir a alguém uma excelente oficina literária, diria, sem hesitar, que lesse os três últimos livros de Ricardo Piglia: Los Diarios de Emilio Renzi: Años de Formacíón (2015), Los Años Felices (2016) e Un Año en la Vida (2017). Ao lê-los, o candidato a escritor assimilaria nas entrelinhas a experiência de um conhecedor de todas as manhas da escrita. Um autor fundamental da literatura contemporânea. Aprenderia que narrar é cuidar da distância entre o narrador e a história que lhe é contada; porque motivo o Ahab, do Moby Dick, não é um personagem, mas “uma força verbal que não existe sem a baleia branca”; e que, na literatura, “o fundamental é ter um mundo próprio”. 

O mundo de Emilio Renzi, o alter ego de Ricardo Piglia, é o que estava contido no seu material autobiográfico guardado em segredo: 327 cuadernos que serviram de matéria-prima para a elaboração desses livros e para o documentário do diretor argentino Andres Di Tella sobre o acervo pessoal do autor de Respiração Artificial.

Os cuadernos são milhares de páginas que Ricardo Piglia começou a escrever quando era ainda um adolescente de 16 anos, época da queda de Perón e da mudança da família para a cidade litorânea de Mar del Plata. E que continuaram a ser redigidas até o fim de sua vida. 

Os “diários” de Emilio Renzi começam a ser publicados no Brasil pela editora Todavia em outubro. São uma mescla de autobiografia, romance, fragmentos e esboços de contos nos quais perpassam referências sobre a história e personagens, confidências e relatos amorosos, reflexões críticas sobre autores e sobre o papel do escritor. Para que fossem “diários”, segundo Piglia, bastaria que ele tivesse organizado e datado os fragmentos, mesmo os que contivessem poemas, ensaios ou sonhos.

Durante a leitura, fiquei consultando na internet acerca de passagens ou nomes de pessoas da vida e da cultura argentina mencionados (foi quando me dei conta de quanto um índice onomástico fazia falta). Era a flecha venenosa da curiosidade incitando-me a apurar se algum personagem que eu desconhecia existia mesmo, se teria convivido com Emilio Renzi/Ricardo Piglia, ou se era apenas mais uma criação do autor. Algumas vezes detive-me em trechos que tratavam de aspectos de teoria literária, seguidos de comentários a respeito de escritores conhecidos. Terminei a leitura com o livro cheio de marcas, garatujas, anotações, como se eu tivesse frequentado alguma aula sobre narrador e narratário, vozes de personagens, construções de diálogos num romance ou a importância do início do texto na construção de um conto. 

A “confusão” entre autor, personagens reais e de ficção e a mescla de gêneros eram artifícios utilizados por Ricardo Piglia. Esses procedimentos eram possíveis porque sua imaginação instigante de ficcionista conjugava-se a um grande domínio da teoria e da técnica literária. Alcançava harmonizar as duas linguagens, como se ele se desdobrasse em ‘dois’ escritores distintos: o imaginativo construtor de contos e romances, de um lado; do outro, o ensaísta de Formas Breves, cujas teses em torno do conto se tornaram antológicas. 

É interessante a maneira como ele insere no meio do livro Años de Formacíón um ensaio magistral sobre um de seus autores preferidos, Cesare Pavese. Piglia o cita inúmeras vezes, repetindo que o diário Ofício de Viver é um dos mais belos livros da literatura do século 20. E anota que cogitava escrever a história do escritor italiano atrelada à vida de um pianista que toca tangos e milongas num cabaré todas as noites e, numa manhã, se suicida. Para ele, a função do diário, como o escrito por Pavese, é tornar possível o suicídio. Essa reflexão nos sensibiliza quando sabemos que a última fase do longo trabalho de redação dos seus “diários” foi concluída durante a enfermidade que o levaria à morte. 

A leitura desses livros também atiça a discussão acerca do modo como é engendrado um escritor. Piglia sugere que o escritor é alguém que precisa aprender a ficar em sossego, deve se dar conta que escrever é uma mania em vez de simples vocação e precisa aceitar que são quase sempre as mulheres que levam o aprendiz de escritor ao hábito da leitura. Para ele, há circunstâncias e cenários que são decisivos para a criação literária e operam como estopim, a chamada “pré-história de uma imaginação pessoal”. Como o menino de três anos sentado na soleira da casa, um livro sobre as pernas, imitando o avô letrado. Um homem saído de uma estação de trem próxima, passa pela criança e a adverte que a posição do livro estava invertida. Quem sabe, aquele personagem era o próprio Borges, com quem Piglia se encontrou anos depois e conta que, na ocasião, parecia ter visto funcionar “uma maravilhosa máquina de fazer literatura”. Borges, o contista clássico, com seus finais concentrados, tudo explicava com clareza. Porém, a sensação de estranheza não residia na sua forma sempre brilhante, nem nos finais ordenados, “mas na incrível densidade e heterogeneidade do material narrativo”. 

Mas a simpatia de Piglia era maior por Roberto Arlt, por sua oralidade rude, anti sentimental, pelejando com os pronomes, expressando-se no linguajar portenho e familiar do lunfardo, a gíria de tangos e malandros. Roberto Arlt, segundo ele, era a certeza de que dentro do escritor há sempre um terrorista em latência, por não conseguir escapar ao sentimento de marginalidade.

A força da ‘mania’ de escrever fez com que Ricardo Piglia nos legasse os “diários”, à guisa de testamento, com a percepção de que a literatura é uma estranha química que precisa da dor para purificar as palavras e o escritor “é o herói que descobre o uso do sofrimento na economia da expressão, do mesmo modo que os santos descobriram a utilidade da dor na economia religiosa”. 

Era a verdade de quem terminou Los Diarios de Emilio Renzi a duras penas e se despediu das palavras no dia 6 de janeiro de 2017.

Dia de Reis. 

*Everardo Norões é autor, entre outros de 'Entre Moscas' 

Os Anos de Formação - Os Diários de Emilio Renzi

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