Morteza Nikoubazl/Reuters
Morteza Nikoubazl/Reuters

Trincas de um país em ebulição

Iranianos convivem com corrupção, clero competitivo e um presidente que luta para chegar ao 2º turno

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2009 | 00h59

Mahmoud Ahmadinejad, o polêmico presidente do Irã, cancelou a visita que faria ao Brasil nessa semana porque sua reeleição corre sério risco. "Ele está em apuros", afirma Abbas Milani, nascido na antiga Pérsia há 60 anos, professor da Universidade de Stanford e expert em política iraniana. Nos EUA, Milani tornou-se um analista tão respeitado que, ao longo da campanha para a Casa Branca, em 2008, serviu de assessor ao então candidato Barack Obama. Está sempre de olho nas trepidações de Teerã.

Falar de Irã, hoje, é tema de alta complexidade. O que está em jogo nas eleições de 12 de junho não é só a vitória de um conservador, como Ahmadinejad, ou de um moderado, como os candidatos Mehdi Karubi e Mir Hossein Mousavi. O ex-presidente iraniano Mohammad Khatami, que apoia Mousavi, costumava dizer que, lá, o presidente tem apenas 20% do poder. Cacife mesmo possui o guardião da lei islâmica, o aiatolá Ali Khamenei. Mas ele está ameaçado. Seu apoio a Ahmadinejad é questionado por muitos no clero.

Num país com muita corrupção, erguido sobre um dos maiores lençóis de petróleo e gás natural do mundo, o clero não quer perder o poder. Os discursos de Ahmadinejad contra Israel dificultam as relações do Irã com a Europa, sua incompetência na condução da economia gera insatisfação popular e a falta de discrição na busca pela supremacia nuclear incomoda os vizinhos árabes. No coração do regime há desconforto, expresso por outro ex-presidente: Akbar Rafsanjani, segundo homem mais poderoso do Irã e patrocinador da candidatura de Mousavi. Muitos no clero desafiam o aiatolá Khamenei.

Quando Milani fala desses personagens, não é como o cientista político que analisa a distância. Com Rafsanjani, por exemplo, dividiu as mesmas prisões, quando ambos eram perseguidos do governo do xá Reza Pahlevi. "Sei como a cabeça dessa gente funciona", conta, para então sorrir. "Eles não mudaram em nada." O Aliás esteve com Milani em seu agradável escritório no norte da Califórnia, para a conversa que segue.

Por que Ahmadinejad desistiu de sua visita ao Brasil e à América do Sul?

Ahmadinejad está tendo grandes problemas com a eleição. Seu grupo tem nas mãos pesquisas que mostram uma disputa muito difícil. As esperanças eram de que, sem Khatami no jogo, tudo ficaria mais fácil. O regime acreditava que o clérigo Mehdi Karubi seria o único adversário de Ahmadinejad e sua derrota seria fácil. Quando Mir Hossein Mousavi entrou na disputa, o jogo virou. Tanto nos comícios de Karubi quanto nos de Mousavi há um público cada vez maior e mais entusiasmado. Os estrategistas políticos que fizeram as duas campanhas eleitorais vitoriosas de Khatami estão cuidando da candidatura de Mousavi. Na semana passada, pela primeira vez, Khatami falou em um desses comícios e declarou apoio a Mousavi. O medo do aiatolá Ali Khamenei é de que Ahmadinejad não chegue sequer ao segundo turno.

Por que o ex-presidente Mohamed Khatami abandonou a disputa, em março?

Porque foi ameaçado. Há um jornal no Irã, o Keyhan, que era o principal veículo de imprensa do país antes da revolução. Ele foi confiscado pela Guarda Revolucionária e, hoje, age como porta-voz extraoficial do aiatolá Ali Khamenei. Pois bem: esse jornal publicou dois editoriais nos quais declarava, literalmente, que Khatami sofreria o destino de Benazir Bhutto se continuasse em campanha. Foi ameaçado de morte. Afastar Khatami, no entanto, não aumentou as chances de reeleição do presidente. O nível de alarme no grupo de Ahmadinejad é tal que o cérebro de seu governo, um homem chamado Hashemi Samareh, anunciou no fim de abril que deixaria suas funções públicas para se dedicar ao comando da campanha 24 horas por dia. Sabe o que ele fazia no governo? Era o responsável pela realização das eleições.

O chefe de campanha de Ahmadinejad era o responsável pelas eleições?

Assim são as coisas no Irã. Mas o que esta eleição realmente mostra é como o aiatolá Khamenei está ameaçado. Ele não conseguiu manipular o processo para que o lado reformista apresentasse um candidato fraco. Karubi acaba de publicar na imprensa um artigo virulento contra o Keyhan. Ele acusa o jornal de ser sustentado pelo governo e de se prestar ao papel de ladrar contra os adversários de seus chefes. Todo mundo entendeu que ele se referia a Khamenei.

Quem é exatamente Mahmoud Ahmadinejad?

Ahmadinejad é um populista e um político muito religioso. Ele realmente acredita que o imã desaparecido, o messias dos xiitas, está para retornar à Terra. É um homem ignorante, que não entende bem como funciona o mundo fora do Irã. Como populista, é talentosíssimo. Sabe intuitivamente o que falar para levantar os setores mais radicais do mundo islâmico, como negar o Holocausto.

Há controvérsias a respeito de qual a tradução exata de suas declarações mais polêmicas. Ele realmente negou o Holocausto?

Negou, sim. Negou que ele tenha ocorrido e realizou, com dinheiro do governo, uma conferência internacional que reuniu o pior conjunto de antissemitas, negacionistas e lunáticos de extrema direita que existe no mundo. Também disse que, mesmo aceitando a possibilidade de ter havido o Holocausto, os palestinos nada têm a ver com isso. Se os europeus cometeram o crime, são eles que devem ceder um pedaço de terra para erguer o país dos judeus. Essa declaração é popular entre muçulmanos e certos setores do Terceiro Mundo. Sempre que pego um táxi em Nova York ou Washington, os motoristas, muitos deles muçulmanos, querem falar de Ahmadinejad quando digo que nasci no Irã. Gostam dele. Se pergunto por quê, a resposta é sempre que Ahmadinejad enfrenta Israel, enfrenta os EUA. Então, perceba, ele é muito perspicaz. Pode ser ignorante, mas é inteligente. Ahmadinejad confunde analistas por causa disso. Ignorância e inteligência são coisas distintas. Ele pode ser ignorante, mas é muito hábil.

E a questão de apagar Israel do mapa?

O que ele fala muda a toda hora. Na semana passada, disse que o Irã nada tem a se opor se os palestinos decidirem assinar um acordo de paz com Israel. A palavra que costuma usar com mais frequência é um termo persa que quer dizer "desaparecer". Já disse que Israel será "eliminado do mapa do mundo", ou que será "eliminado pelo passar do tempo". Deixou claro que não deseja a existência de Israel.

Mas quando foi eleito, em 2005, política externa não era sua prioridade, certo?

Não, sua campanha foi toda dirigida ao público interno. O povo iraniano estava cansado de uma economia mal conduzida, cansado do nível de corrupção no governo. Em sua campanha presidencial, Ahmadinejad jamais citou Israel. Jamais citou a questão nuclear. Mas, nos últimos três anos, ninguém lhe pergunta outra coisa. O senhor realmente negou o Holocausto? Realmente ameaçou destruir Israel? Mesmo na imprensa internacional, quando repórteres têm a oportunidade de entrevistá-lo, ninguém faz perguntas sérias a respeito de seu governo.

Que perguntas deveriam ser feitas?

Ahmadinejad não é corrupto pessoalmente, mas a corrupção no governo permanece altíssima. Você não consegue nem que sua correspondência seja entregue se não subornar o carteiro. Esse não é, nem de longe, o único problema. O número de dependentes em heroína e ópio vem crescendo ano a ano, é uma questão endêmica de saúde pública. O Irã tem a terceira ou quarta maior inflação do mundo, dependendo de quem conta. O desemprego oficial está em 14%. Aqui nos EUA, onde a crise econômica é considerada seriíssima, o nível de desemprego está chegando a 10%. No Irã, é assim há mais de quatro anos. E tudo apesar de a economia iraniana ter recebido um alto influxo de capital nos últimos anos devido ao alto preço do petróleo. Como administrador, Ahmadinejad é de uma incompetência fenomenal.

Como foi gasto o dinheiro vindo do petróleo?

Muito foi desviado pela corrupção do Estado. Outro tanto, transferido para a Guarda Revolucionária, que ganha concorrência após concorrência no país para gerenciar qualquer coisa que você imaginar. Mas Ahmadinejad também teve ideias estúpidas, como a dos empréstimos para geração de empregos. Gastou US$ 40 bilhões emprestando dinheiro para indivíduos na esperança de que criaria empregos. Eram empréstimos altos, de US$ 1 milhão cada. Em vez de criar empresas, a classe média tomou os empréstimos e comprou imóveis. Isso gerou uma inflação galopante no custo de apartamentos. Um imóvel em Teerã, hoje, é mais caro que um em Nova York. Com US$ 1 milhão não dá para comprar sequer uma quitinete na capital. Ele inventou uma bolha no mercado imobiliário e não criou empregos no caminho.

Como ele é percebido no Irã?

Depende de quem o vê. No Irã, grupos diferentes têm impactos políticos diferentes. Da última vez que Ahmadinejad falou em um evento internacional, na Conferência sobre Racismo da ONU, 20 ministros do Exterior deixaram a sala. A população sabe que isso é um embaraço diplomático, e o voto no Irã faz diferença. As pesquisas internas mostram que os iranianos entendem o resultado dessa combinação de retórica explosiva com incompetência administrativa. Ele fracassou de forma retumbante na sua maior promessa de campanha: o combate à corrupção. Quando disputou a presidência pela primeira vez, era um ataque atrás do outro ao ex-presidente Rafsanjani, que ele chamava de chefe da quadrilha. Hoje, Rafsanjani é mais poderoso e mais rico do que jamais foi, a pessoa mais poderosa do país. O aiatolá Khamenei o vê de maneira diferente e declarou seu apoio categórico a Ahmadinejad. Essa é uma novidade. Nem o aiatolá Khomeini, nem o próprio Khamenei jamais saíram em defesa de um candidato de forma tão explícita. Se não fosse por esse apoio, Ahmadinejad teria sofrido um impeachment no ano passado.

O que houve?

Além do que pensa a população e do que pensa Khamenei, há um terceiro grupo muito importante no Irã, que é o clero. As pessoas que fazem parte do pequeno grupo que estrutura o regime teriam derrubado Ahmadinejad com um impeachment não fosse o apoio de Khamenei. Esse regime funciona como uma família mafiosa. Eles controlam um governo, um negócio, que vale US$ 70 bilhões por ano. Não querem que seu regime seja perturbado. Não desejam que um lunático qualquer solte sua verborragia e perturbe seus negócios. A insatisfação que Ahmadinejad gera na população não é de seu interesse.

O senhor menciona o poder de Akbar Rafsanjani. Qual é a natureza desse poder?

O aiatolá Ruhollah Khomeini estabeleceu um regime no qual o clero tem total controle do país. Acima estava ele, o Velayat-e-Faghi, guardião da lei islâmica, cargo que hoje pertence ao aiatolá Khamenei. Na época de Khomeini, ninguém jamais ousava questioná-lo. Pois bem, esse guardião é observado por um conselho de clérigos controlado por Rafsanjani. É esse conselho que escolherá o novo guardião quando Khamenei morrer. Rafsanjani também controla o conselho de segurança, que traça a política externa. Esses são órgãos que estão acima da presidência. Khamenei certamente está acima de tudo, mas não é como no tempo de Khomeini. Um mês atrás, Rafsanjani fez uma visita ao Iraque e foi recebido como chefe de Estado. O aiatolá Ali al-Sistani, do Iraque, o segundo aiatolá mais respeitado no xiismo, declarou que "vozes de moderação como a sua deveriam ser mais ouvidas". Rafsanjani conta com o apoio da Europa, que o vê como aquele que pode reiniciar o diálogo entre o Irã e o Ocidente. Hoje, até os reformistas, que o atacavam por sua corrupção, o apoiam.

Quem são esses reformistas?

São clérigos como Khatami. São jornalistas como Akbar Ganji, que há alguns anos fez uma greve de fome que conquistou espaço na imprensa internacional. Ganji escreveu um livro sobre Rafsanjani chamado O Poderoso Chefão em Vestes Cinzas. Os reformistas perceberam que, ao enfraquecer Rafsanjani, fortalecem o aiatolá Khamenei. Khamenei é um adversário muito mais intransigente, radical e conservador. O maior obstáculo para um diálogo com o ocidente em geral, com os Estados Unidos em particular, é o aiatolá Khamenei. O presidente não tem tanto poder assim. É no contexto desse jogo político do mais alto nível que a eleição presidencial está sendo disputada.

Quem é o candidato de Rafsanjani?

Mir Hossein Mousavi. Há algumas semanas, Rafsanjani reuniu vários líderes importantes do grupo reformista, incluindo Khatami, pedindo apoio a ele. Mousavi foi primeiro-ministro do Irã, quando o cargo existia, entre 1981 e 1989. Na época, o aiatolá Khamenei era presidente e eles tiveram vários conflitos. Mousavi foi um premiê com tendências socialistas, que defendia a estatização de vários setores. Nos últimos anos, ele se moveu em direção ao centro. Em sua primeira entrevista coletiva, após o anúncio da candidatura, os repórteres perguntaram a Mousavi se ele havia pedido permissão ao aiatolá Khamenei para disputar a eleição. Sua resposta foi "não". É incrível. No sistema de Velayat-e-Faghi, que pressupõe que o chefe deva ser ouvido antes de qualquer decisão ser tomada, ele diz que não, não perguntou. Tanto Mousavi quanto o outro candidato, Karubi, declararam que pretendem tirar o poder de vetar os candidatos à presidência que o guardião tem.

O presidente tem como fazer isso?

Não. Provavelmente não. Mas eles estão desafiando Khamenei. Estão se sentindo confortáveis o suficiente para fazer esse tipo de desafio. Os dois fizeram mais do que isso. Declararam publicamente que temem fraude eleitoral. Karubi chegou ao ponto de pedir observadores internacionais. Na semana passada, Khamenei deu uma resposta violenta, comparando quem questiona a honestidade do governo com os piores inimigos do Irã. A disputa está aberta. Se Mousavi ou Karubi for eleito, apesar do apoio ostensivo de Khamenei a Ahmadinejad, o recado estará claro para todos. Khamenei está frágil.

O que muda internacionalmente com uma presidência de Mousavi ou de Karubi?

Serão presidentes certamente muito diferentes de Ahmadinejad. Para seus vizinhos, representará uma política que não vai partir para o confronto. Os radicais nas ruas árabes não vão gostar. Sempre que Ahmadinejad abre a boca para falar alguma estupidez, quem deseja o conflito entre árabes e iranianos, entre sunitas e xiitas, aponta e diz que está lá uma prova dos desejos expansionistas do Irã. A maioria, no entanto, é moderada e não deseja um conflito entre xiitas e sunitas. Neste exato momento, Robert Gates, o ministro da Defesa dos Estados Unidos, está no Oriente Médio explicando aos líderes árabes que uma aproximação entre Estados Unidos e Irã não vai ameaçá-los. Um Irã que não sustente o Hezbollah, no Líbano, que não esteja dedicado a perturbar as possibilidades de paz entre Israel e Palestina, com o qual se pode conversar com calma sobre uso de energia nuclear, é do interesse de todos. Nesse sentido, Ahmadinejad foi uma bênção para Israel.

Como assim?

Israel não conseguia convencer o mundo de que o Irã era uma ameaça. Aí veio Ahmadinejad. Com ele, Israel ganhou credibilidade, pode chegar ao mundo e perguntar: "Vocês querem esse sujeito com armas nucleares?" Pessoalmente, não acredito que Ahmadinejad fosse atacar Israel. Mas, se eu fosse um político israelense, com certeza me sentiria preocupado. É perfeitamente compreensível a postura anti-iraniana de Israel.

O senhor considera que as relações com os EUA vão melhorar?

Se Mousavi ou Karubi forem eleitos, as relações com os Estados Unidos serão normalizadas após um ano. Se Ahmadinejad for eleito, ainda assim acredito que a relação vai melhorar. Obama é um oponente muito esperto. Ele já virou o jogo. Seu nome, Barack Hussein, quer dizer "a graça de Hussein", uma referência ao neto de Maomé, o principal ícone do xiismo. Ou seja: os aiatolás não podem mais chamar os americanos de intolerantes. E não se esqueça: para se sustentar, o regime precisa que o barril do petróleo alcance, no mínimo, US$ 70. Eles precisam de ajuda econômica internacional.

 

SEGUNDA, 4 DE MAIO

Fica para uma próxima

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