Trinta milhas de fofocas

O TMZ.com saiu na frente e, na mesma velocidade, pôs na berlinda o culto ao furo jornalístico

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2009 | 11h02

Que diferença fez saber da morte de Michael Jackson 20 minutos depois de seu último suspiro ou só meia hora mais tarde? Em termos práticos, nada; nem para seus fãs e familiares. Diferença faria saber como ele se sentia nos minutos ou segundos que antecederam a parada cardiorrespiratória que o levou à morte. Por não dispor de informantes dentro da mansão de Jackson, em Holmby Hills, mas apenas no Centro Médico da UCLA, para onde o cantor foi levado, o site TMZ.com só pôde informar em primeira mão uma coisa: que o cantor acabara de morrer.

 

Tudo bem, um site de notícias não é pronto-socorro nem corpo de bombeiros, mas a celebração do TMZ como o maior prodígio midiático dos últimos, senão de todos os tempos, exige um grão de sal.

 

Nenhum furo é negligenciável, e noticiar em primeira mão a morte de um ídolo popular é um feito e tanto. Furos, em graus variados de importância e impacto, acontecem todos os dias, online e na mídia impressa; mas só num mundo deformado pela primazia da velocidade eles são cultuados, acriticamente, como a quintessência da informação. Não podemos perder de vista que uma notícia falsa em primeira mão (uma barriga, no jargão jornalístico) só perderá seu status de furo depois que sua veracidade for categoricamente contestada.

 

"E se o TMZ por acaso tivesse dado uma barriga, na tarde do dia 25 de junho, e, sob o impacto da falsa notícia, algum fã ou a mãe do Jackson tivesse enfartado ou cometido suicídio?", especulou a subeditora do Los Angeles Times, Alessandra Le Tellier. A hipótese soou, como tantas hipóteses, ociosa, além de motivada pelo ressentimento que se apossou da redação do Los Angeles Times depois que o TMZ lhe passou a perna. Mas nem por isso Le Tellier merecia ter sido tão furiosamente agredida na blogosfera pelos mais hidrófobos cães de guarda da mídia online.

 

A hipótese mais temível (o TMZ ter chutado e o resto da mídia perfilhado o falso furo, passando adiante a notícia como um fait accompli) também era a mais improvável, menos por causa do considerável índice de acertos do TMZ, no que diz respeito a fatos ligados ao show business americano, do que pela credibilidade maior das mídias com mais tempo de bons serviços na praça. A imprensa dita mainstream, vasto entreposto de informação diariamente desdenhado e amaldiçoado por blogueiros cujo triunfalismo merecia ter Horst Wessel como fundo musical, só acreditou na morte de Jackson depois que um de seus integrantes, o L.A. Times, confirmou a notícia. Sintomático, não?

 

A CNN teve uma performance surpreendentemente patética; pisou em ovos um tempão, meio que duvidando da apuração do L.A. Times, até fechar com...não, não foi com o TMZ, mas com o New York Times, que, apesar das lambanças que Judith Miller e outros lá aprontaram, continua sendo a fonte mais confiada da imprensa mundial. Que ninguém esqueça que foi o Times (e não o TMZ) quem primeiro noticiou a morte de Heath Ledger.

 

Foi no mínimo precipitado colocar uma cruz sobre a CNN, no dia 25, como fizeram algumas hienas da web. A mais debochada da alcateia chegou a sugerir ao TMZ que noticiasse "o falecimento da emissora" ou o fim de sua relevância como fonte de informação, como se somente as novidades do show business fossem relevantes e movessem o mundo. "R.I.P., CNN" virou grafite na internet, como se levar um furo fosse um golpe letal e a não-confirmação instantânea da morte de Jackson tivesse o poder de invalidar todo o patrimônio jornalístico que aquele canal de notícias construiu a partir da Guerra do Golfo, em 1991. O New York Times foi furado pelo Washington Post no caso Watergate e nem por isso entregou o cetro.

 

OK, era briga de cachorro grande. E agora, não.

 

Agora, um pequinês (o TMZ) levou a melhor sobre uma matilha de dobermans, galgos e rottweilers. E daí? Dar na frente a morte de um cantor (ainda que o "rei do pop", meio fora do radar da mídia ultimamente, reconheçamos) não chega a ser uma façanha tão notável assim para um veículo que mantém um exército de Gargantas Profundas espalhados por toda aquela área de Los Angeles que motivou sua criação e inspirou seu batismo. O TMZ, a rigor, não fez mais que a sua obrigação; como o Variety não faz mais que a sua obrigação ao publicar notícias sobre a Broadway antes de qualquer jornal nova-iorquino.

 

TMZ é o acrônimo de Thirty Miles Zone, perímetro de Hollywood onde tudo o que diz respeito à indústria de filmes acontece e se decide. Site na internet e canal a cabo, ambos da Time Warner, como a CNN, nada mais é que um dispensário de fofocas sobre artistas e celebridades, um Fuxico hollywoodiano, uma droga que estimula a massificação do voyeurismo, da alcoviteirice e moléstias correlatas. Seu aspecto mais deletério não é faltar com a verdade, divulgar lorotas, cometer leviandades, difamar - e certamente por isso não merece ser equiparado à revista National Enquirer, a publicação de fofocas mais lida dos Estados Unidos, useira e vezeira em antecipar a morte de celebridades adoentadas ou com o pé na cova (fez isso com, entre outros, Katharine Hepburn, Lana Turner, Mel Tormé, Dean Martin, Patrick Swayze e com o próprio Michael Jackson) -, mas esconder-se atrás do anonimato (suas notas e minirreportagens são invariavelmente creditadas à "equipe" da casa) e, acima de tudo, dar espaço e valorizar o que gente sem o menor talento e importância faz ou deixa de fazer.

 

De qualquer modo, não resisto à tentação de também ver o TMZ como o avatar eletrônico de Louella Parsons e Hedda Hopper, as duas mais famosas e venais bisbilhoteiras do show business americano, víboras que só tiveram no dedo-duro Walter Winchell um rival à altura, nos anos 40 e 50. Louella, Hedda, Winchell (e William Randolph Hearst, patrão de Louella) praticamente "inventaram" o jornalismo tablóide, a imprensa sensacionalista, estabelecendo um padrão atualizado às novas tecnologias por Matt Drudge, E! Online, EW.com, etc., no qual Harvey Levin se espelhou para criar o TMZ.

 

Ex-advogado e repórter televisivo da KCBS em Los Angeles, Levin, 58 anos, burilou seu métier cobrindo o calvário de O.J. Simpson. Inventou o TMZ em 2005, cuja "Guerra do Golfo" seria a prisão da desocupada Paris Hilton, em junho de 2007. Enquanto o resto da imprensa fazia plantão na entrada do presídio de mulheres de Lynwood, Levin, previamente informado por um policial amigo, registrava em vídeo a chegada de Hilton à cadeia central de Los Angeles. Quando também furou todo mundo ao revelar que o xerife do condado de Los Angeles e o juiz que cuidava da punição de Hilton haviam entrado em rota de colisão, Larry King, o Jô Soares da CNN, cancelou a entrevista que agendara com Hilton e pôs em seu lugar Harvey Levin. Nascia uma estrela - e seu sobrenome não era Spears.

 

Já com 9 milhões de acessos por mês antes da morte de Jackson, o TMZ pouco demorou para deixar seus modelos e concorrentes (acrescente aos acima citados o People.com) comendo poeira. Simples: a equipe comandada por Levin (cerca de 25 repórteres operando em Hollywood e um baseado em Nova York) trabalha com mais afinco e competência. "Nós nos empenhamos tanto para conseguir um furo sobre a Britney Spears quanto a NBC se esforça para dar um furo sobre o presidente", que ainda era o Bush quando Levin fez essa declaração ao L.A. Times. "Somos para o show business o que a Associated Press é para o mundo por ela coberto", arrematou. E mais não disse.

 

Levin tem certeza de que o segredo também é a alma do seu negócio. Nada revela sobre seu staff, a localização do seu QG (juram que fica em algum ponto da Sunset Strip, em West Hollywood) e muito menos sobre o seu modus operandi. Investiu na montagem de uma rede de informantes cuja capilaridade lembra a do tráfico de drogas. Dela fazem parte artistas em busca de algum favor no futuro, agentes, promoters, advogados, paparazzi, empregados domésticos, garçons, policiais, guardas presidiários, enfermeiras e quem mais lhe possa fornecer babados, xerox de documentos, imagens pirateadas. Rola algum dinheiro, às vezes muito. Virou um business, um gossip.com.

 

Terror das celebridades, o TMZ já tirou o sono de Mel Gibson, Michael Richard (o Cosmo Kramer de Seinfeld), Alec Baldwin e muitos outros. Quem mandou Gibson fazer um comentário antissemita ao ser preso por dirigir embriagado? Quem mandou Richards contar uma piada racista num clube noturno? Quem mandou Baldwin deixar um recado agressivo gravado na secretária eletrônica da filha? Tudo documentado pelo TMZ. Baixaria, sem dúvida. Sem, contudo, a possibilidade de um processo.

 

Como soube da morte de Jackson? Suspeita-se que por um funcionário do Centro Médico da UCLA, cujos empregados adquiriram o hábito de contrabandear dados médicos de pacientes ilustres para a mídia sensacionalista. Britney Spears e Farrah Fawcett, que morreu de câncer no dia 25, tiveram suas fichas médicas vendidas à National Enquirer pela superintendente do hospital, Lawanda Jackson. Chamar esse negócio só de escuso é abusar do eufemismo.

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