Gil Algerter
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Trump exibe face oculta com apoio de extremistas em comício

Jornalista investigativo revela que a violência de ultradireita, além de ter crescido, supera o extremismo de grupos islâmicos

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2018 | 16h00

“Sou um nacionalista, OK? Usem esta palavra, usem esta palavra.” 

(Donald Trump em comício, no dia 22 de outubro.)

 

Quando se declarou nacionalista no comício no Texas, na segunda-feira, Donald Trump foi recebido com urros de U.S.A!, U.S.A!. Logo em seguida, sugeriu que tinha sido aconselhado a evitar a palavra radioativa. Sabia o motivo, a exortação não sugeria civismo ou patriotismo e sim nacionalismo branco. O recado foi recebido.

“No primeiro mês após a eleição do presidente, em novembro de 2016, houve mais de mil incidentes de chamados crimes de ódio,” diz ao Estado David Neiwert, autor de Alt-America, The Rise of the Radical Right in the Age of Trump (Alt-América, A Ascensão da Direita Radical na Era de Trump). Crimes de ódio, especialmente contra minorias raciais e judeus subiram quatro anos seguidos e, em 2017, registraram aumento de 12.5%.

Há mais de duas décadas, Neiwert monitora extremismo de direita nos EUA e é considerado um dos melhores conhecedores dos principais grupos, que exibem características diversas. “As milícias,” explica Neiwert, “são encontradas em regiões rurais e se aglutinam em torno da posse de armas e da hostilidade a qualquer intervenção do governo. Já os nacionalistas brancos tendem a morar em subúrbios e há entre eles muitos jovens, inclusive os afluentes.”

O livro do repórter investigativo revela que a violência fascista ou de  ultradireita, além de ter crescido expressivamente, a partir dos anos 1990, supera o extremismo inspirado por outras ideologias ou grupos islâmicos. E por que aquele período, que coincidiu com a presidência Clinton? Neiwert lembra que o então presidente, além de ser visto como liberal,  ajudou a passar, em 1994, a proibição de 19 tipos de armas de assalto, mais tarde derrubada sob o governo de George W. Bush. “A restrição às armas foi combustível para bastante paranoia entre os membros de milícias,” afirma Neiwert. No ano seguinte, Timothy McVeigh usou a proibição das armas de assalto para justificar a bomba que colocou no prédio público de Oklahoma City, matando 168 pessoas. Além disso, a tecnologia digital que emergiu naquela década permitiu que grupos isolados se conectassem por email ou em fóruns.

O apoio de grupos como a Ku Klux Klan a Donald Trump na campanha de 2016 não significa, é claro, que o presidente estivesse alinhado com os extremistas. Mas ele resistiu a denunciar o apoio e, a certa altura, fingiu não saber quem era seu fã, o célebre David Duke, ex-líder da KKK e depois deputado estadual. E houve o caso de Charlottesville, em agosto de 2017, quando o presidente disse que havia gente boa dos dois lados, um deles o de neonazistas e nacionalistas brancos. David Neiwert me diz que não se sentiu em nada surpreendido pela violência em Charlottesville, já que conhece bem o mundo que a maioria da população subestimava.

“O presidente não é um ideólogo,” argumenta o jornalista, “é apenas um facilitador de comportamentos e atitudes.” Neiwert escreve em Alt-America que a diferença hoje é o fato de grupos diferentes terem, pela primeira vez, coalescido em torno de um presidente eleito.

O autor descreve a “bolha epistemólogica” da ultra direita como uma das armas mais poderosas para unir e isolar grupos em torno de teorias conspiratórias, como a alegação de que Barack Obama é um muçulmano nascido no Quênia. Sem a emergência da mídia de ultra direita, como o site Breitbart, que era dirigido pelo ex-conselheiro político do presidente, Steve Bannon, não haveria tanta força nesta bolha, diz Neiwert.

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