Tudo em família

Ela é filha do mais longevo ditador da Coreia do Sul. Eleita presidente, promete ser a mãe do povo

THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2012 | 02h08

CHOE SANG-HUN

Park Geun-hye, filha do mais longevo ditador da Coreia do Sul, foi eleita presidente na quarta-feira, a primeira mulher a ocupar o cargo. Os eleitores preferiram estabilidade e liderança "maternal" aos apelos do adversário Moon Jae-in, um ex-advogado de direitos humanos que esteve preso por se opor ao regime autoritário do pai de Park, para uma mudança radical no modo como o país enfrenta a desigualdade econômica e as ameaças militares da Coreia do Norte.

"Esta é uma vitória do povo", disse Park a seus apoiadores que se reuniram sob um frio congelante no centro de Seul. "Uma vitória do desejo do povo de superar crises e reanimar a economia."

A eleição de Park, de 60 anos, que foi parlamentar durante cinco mandatos e era a candidata do Partido Saenuri, do presidente Lee Myung-bak, é um marco para uma sociedade ainda pesadamente dominada por homens, apesar das incursões das mulheres nos negócios e no governo nos últimos anos.

Park é também a primeira filha de um antigo presidente a alcançar o cargo mais alto do país. O governo de seu pai, Park Chung-hee, de 1961 a 1979, deixou um legado de economia vibrante e repressão política que ainda divide o país.

No governo do atual presidente, Lee, o sentimento antiestablishment se aprofundou, em especial entre os eleitores jovens, à medida que as oportunidades de emprego minguavam, a corrupção política persistia e as tensões com a Coreia do Norte se intensificavam. Mas a maioria dos eleitores evidentemente não viu uma solução para esses problemas no oposicionista Partido Democrático Unido, que está atolado numa luta interna. Seus críticos dizem que o partido é brando demais com a Coreia do Norte e radical demais em seus planos para conter os enormes conglomerados de empresas familiares do país, cuja expansão desmesurada nos últimos anos é responsabilizada pelo agravamento da distância entre ricos e pobres, segundo analistas políticos.

Durante a campanha, Park, que nunca se casou, afirmou que seu sexo seria uma qualidade para liderar a nação em tempos difíceis. "Não tenho família para cuidar", disse. "Não tenho filho para herdar minhas propriedades. Vocês, o povo, são minha única família, e fazê-los felizes é a razão porque eu faço política. Se for eleita, governarei como uma mãe dedicada a sua família."

Para Park, sua vitória na segunda tentativa - ela tentou ser indicada para concorrer por seu partido em 2007, mas perdeu para Lee - redimiu a trágica história familiar. Sua mãe, Yuk Young-soo, foi morta por um agente comunista em 1974, quando Park tinha 22 anos e era estudante em Paris. Ela abandonou os estudos para voltar a Seul e servir como primeira-dama interina do pai. Cinco anos depois, o pai foi assassinado por seu chefe de espionagem. A reação de Park à notícia foi: "Está tudo bem na fronteira com a Coreia do Norte?"

Após anos fora da vista do público, enquanto o país rapidamente se democratizava e seu pai era vilipendiado como ditador, Park retornou à vida política em 1998 com a promessa de "salvar o país", na época, enredado na crise financeira asiática. Os eleitores que se recordavam da liderança carismática de seu pai a elegeram para o Parlamento com uma votação consagradora.

Dali em diante, ela construiu uma reputação de líder inflexível e moral, mobilizando os conservadores para vitórias improváveis mesmo quando estavam afogados em escândalos de corrupção. Ela citou a ex-primeira-ministra Margaret Thatcher e a rainha Elizabeth I como seus modelos. "(Elizabeth) salvou seu país da bancarrota e o transformou em uma nação na qual o sol nunca se põe", disse Park durante um discurso recente sobre a rainha que governou a Inglaterra de 1558 a 1603 e cuja perda dos pais também é motivo de simpatia para ela. "Como conheceu o infortúnio, soube cuidar dos outros."

Quando lhe perguntam por que não casou, Park diz que está casada com o país. "Sua imagem entre os apoiadores é de uma líder estável, forte, confiável e calma nas crises. Para eles, ela é uma mulher, mas não é uma mulher", disse Choi Jin, diretor do Instituto da Liderança Presidencial. "Princípios, confiança e estabilidade são palavras chaves em sua retórica. Considerando a experiência de vida difícil que teve, não é vista como alguém que fará reformas radicais, mas como uma líder adepta de mudanças graduais." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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