Raimundo Cela
Raimundo Cela

'Tudo o que ameaça a ordem é discriminado', diz historiadora

Mary del Priore reconta história do Brasil por meio de testemunhos de escritores, memorialistas e cidadãos comuns

Bruna Meneguetti*, O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2017 | 16h00

“Quem recorda suas pequenas histórias conta também a grande História?” Essa é a pergunta que a escritora Mary del Priore, autora da sequência de livros Histórias da Gente Brasileira, faz na introdução do terceiro volume, já anunciando que a obra não é igual a outros livros de História. Dividido em dois, fornece primeiro um panorama geral da República até o Estado Novo, conduzindo o leitor para a segunda parte. É nela que Mary conta os pequenos detalhes da vida cotidiana e, para isso, usa com ainda mais peso as memórias de escritores que já estavam presentes nas primeira páginas.

“Esses três volumes têm a preocupação de mostrar sempre os mesmos assuntos e como eles mudam ao longo do tempo”, afirma a autora em entrevista ao Aliás. Mas alguns detalhes são únicos e curiosos, por exemplo, o fato de Olavo Bilac, em 1897, ter sido o primeiro a causar um “acidente automobilístico registrado no País” depois de ter batido em uma árvore e Graciliano Ramos ter visto, a princípio, sua prisão durante o Estado Novo como o único lugar que “proporcionaria o mínimo de tranquilidade necessária” para corrigir seu romance Angústia.

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Para Mary, “esses relatos têm o dom fantástico de desconstruir a história oficial”. A riqueza está nos detalhes que nunca são contados, como na época da República, em 1890, em que criminalizaram a capoeira e, antes de 1920, em que os brasileiros chegaram a passar cebola crua nas axilas para tirar o cheiro de suor. Já para quem quisesse tomar banho de mar, deveria obedecer os horários determinados por lei no Rio de Janeiro, enquanto que no Estado Novo, livros como Os Trabalhadores do Mar e Os Miseráveis, de Victor Hugo, além Eu Acuso! e Germinal, de Émile Zola, foram vistos como material subversivo e usados como provas de acusação contra comunistas. 

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A autora também acredita que se deve ler um livro de história como quem vira as páginas de uma boa ficção. “Nós temos todos os elementos do romance; as paixões, as traições, violências e os afetos”, afirma. De fato, parece que alguns elementos vieram da mente de um escritor criativo e não é raro o leitor perceber que está torcendo pelo sucesso de um personagem que realmente existiu, como pela vida de Fernando Corrêa Rocha, um piloto de caça na 2.ª Guerra que estava na Itália e enviava cartas à família. Assim, apesar de essenciais, as lembranças são impregnadas por um fator que é o verdadeiro diferencial desse livro: os sentimentos. Algo que não pode ser absorvido pelos leitores apenas através dos fatos. Sobre a obra, a escritora respondeu às perguntas: 

Por que nunca vemos esse tipo de narrativa e de material em bibliotecas e escolas?

Uma das coisas que me impressionava nos países desenvolvidos era a quantidade de livros para o grande público. No Brasil, se faz livros de história para os pais e professores lerem. Então, resolvi remar contra a maré. Nada mais próximo das pessoas do que a vida cotidiana. Tomar banho, namorar, trabalhar, tudo isso pode ser contado de uma maneira cronológica e saborosa. 

Qual foi a época que mudou mais nosso dia a dia no sentido de aparatos e objetos, e qual mudou no sentido de formar novos pensamentos? 

A eletricidade mudou a vida de muitos brasileiros. Sobre as ideias, nós vemos nascer na época da 2.ª Guerra uma série de pensadores que lutam contra o fascismo por um lado e contra o comunismo por outro. 

Quais serão os autores contemporâneos que falarão pela nossa época?

O período dos anos 1920 a 1940 foi fortíssimo no gênero literário das memórias. Ele está em declínio, mas os bons memorialistas estão dando lugar hoje para autores que contam sobre as vidas nas grandes cidades e os problemas que a vida urbana está multiplicando.

Tendo em vista o que vivemos hoje, a história tende a se repetir?

Não, porque tem sempre elementos novos. O que nos convida a pensar a história é aquilo que a gente chama de “estruturas” e, no caso do Brasil, a violência é uma delas, sempre esteve muito próxima e nós nunca criamos mecanismos de repressão ou rejeição porque é com “o outro”. 

Como você acha que seu o livro pode ajudar a entender os atuais retrocessos?

A sociedade brasileira gosta de ordem e tudo o que ameaça a ordem é imediatamente conjurado, afastado e discriminado. A inquisição perseguia os gays no Brasil e, mesmo nos casais homoeróticos, até os anos 1960 e 1980, o que vamos ver é a reprodução dos casais heterossexuais. Quer dizer, você vai ter um “gay” mais “afeminado” que é a “bicha”, e vai ter um “macho” que é o “bofe”.

Como acha que as novas tecnologias influenciarão o trabalho do historiador no futuro? 

Um historiador vai ter, graças à tecnologia, bibliotecas e arquivos inteiros sem precisar viajar para fazer um estudo. Acho que a grande luta que vamos ter é com a conservação dos arquivos institucionais. Mas nós temos também um problema sério com aquilo que o povo considera sua memória (haja visto o descaso com que o patrimônio histórico é tratado).

Como será o quarto e último volume da série?

Vou usar testemunhos de pessoas que viveram os anos 1950 até o ano 2002. O livro esclarece a adesão da sociedade ao regime militar. Quero mostrar que foram anos de ouro também, o Brasil cresceu muito e as construtoras “bombaram”. O início do que estamos vivendo hoje, esse escândalo das construtoras, veio daí.

*Bruna Meneguetti é jornalista, escritora e autora do livro 'O Céu de Clarice' (Amazon) 

Histórias da Gente Brasileira - Vol. 3

Autora: Mary del Priore

Editora: Leya

544 páginas

R$  59,90

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História Oral

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