Tudo sobre minha mãe

Ele anotou passo a passo as agruras de dona Maria Thereza pelas UTIs. E perdeu o controle

Mônica Manir, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2007 | 20h55

Fazia muito que Marcelino andava revoltado. Com os médicos, com os enfermeiros, com os fisioterapeutas, com o ar-condicionado da UTI, com o respirador, com a traqueostomia, com a sonda nasoenteral, com a escara persistente que maltratava sua mãe. Também não se conformava com a desumanidade de Deus. Dez dias antes, Ele lhe tirara a única coisa que tinha na vida. Foi como começou a carta de intenção de suicídio endereçada aos irmãos: "Deus tirou a única coisa que eu tinha na vida. Agora eu não tenho motivo para continuar a viver. Sei que é um ato de covardia, mas não tenho mais nem tranqüilidade, o remorso por não ter protegido mais a mãe nos últimos instantes de sua vida é muito grande". Na segunda-feira, Marcelino guardou a carta num bolso da jaqueta, uma faca de cozinha em outro e tomou um ônibus para a Paulista. Tentou entrar na Med-Lar, empresa responsável por dois meses de internação domiciliar de dona Maria Thereza. Em vão. Atravessou a avenida em direção ao Hospital Santa Catarina, onde pela primeira vez diagnosticaram o câncer que fulminou a saúde da mãe. No espaço entre a entrada do hospital e a saída do estacionamento, Marcelino dominou o auxiliar de enfermagem Luciano Luiz Martins. Segurou-o pelo pescoço com o braço direito, e com o esquerdo, encostou a faca no seu pescoço e rosto, por vezes com a lâmina para si próprio. Xingou o refém, dizendo que tinha culpa na morte da mãe, e pediu a presença da imprensa para denunciar supostos maus-tratos sofridos por dona Maria Thereza nos cinco meses de internação no Santa Catarina, onde trabalha o auxiliar. O protesto durou cerca de duas horas. Às 14h20, Marcelino empurrou Luciano para a frente com a mão direita e com a outra estendeu a faca para um policial. Foi levado para o 5º DP, autuado por cárcere privado e levado, no dia seguinte, para o Cadeião de Pinheiros. Fazia pelo menos nove meses que o técnico de informática Marcelino do Amparo de Carvalho andava muito indignado. Antes de novembro do ano passado, dona Maria Thereza Valentim já havia percorrido outros hospitais da capital com problemas respiratórios e alterações na taxa de glicose por causa da diabete. Viúva do piloto de aviões Múcio de Carvalho, ela morava desde 2003 com Marcelino, 47 anos, Bá para a família, o sexto rebento de nove, solteiro e sem filhos. Mudaram de endereço duas vezes. Fincaram raiz no centro da cidade, perto da Rua Santa Ifigênia, ponto cardeal de equipamentos de informática que interessavam ao ofício de Marcelino. No apartamento de um dormitório, alugado no sexto andar, mãe e filho compartilhavam noitadas de dominó. Durante o dia, dona Maria Thereza cedia ao imobilismo da obesidade. Passava a maior parte do dia sentada à mesa da sala em jogatinas de baralho com as visitas, bordando panos de prato, lendo livros de Zibia Gasparetto, anotando receitas de programas de tevê. Quando saía para consertar computadores em domicílio, Marcelino tentava controlar o tabagismo cinqüentenário da mãe espalhando cigarros em pontos de difícil acesso da casa. Também vigiava diariamente sua taxa de glicose, aplicava nela as injeções de insulina e trocava suas fraldas, decorrentes da incontinência urinária. Tratavam-se, ao vivo ou por telefone, de "amore" e "minha vida".A rotina dos dois foi quebrada no dia 26 de novembro do ano passado, quando dona Maria Thereza chegou ao pronto socorro do Hospital Santa Catarina caminhando por conta própria, porém respirando com dificuldade. Pediu água, no que foi prontamente atendida, mas piorou a ponto de ser entubada e levada para o CTI. Começou ali a batelada de exames para checar a suspeita de um câncer voraz no pulmão. "Quando confirmaram o diagnóstico, disseram que minha mãe tinha pouquíssimo tempo de vida, tanto que começamos a ver preços de jazigo, enterro e caixão com as funerárias", diz Monain, a irmã caçula. Dona Maria Thereza, porém, sobreviveu à morte premente. E passou mais cinco meses no mesmo hospital, sempre alojada em centros de terapia intensiva. Nesse meio tempo, Marcelino escreveu seguidas cartas de descontentamento dirigidas à diretoria do Santa Catarina com cópia para a assistência social da AMS, convênio de saúde da Petrobrás, onde trabalha o irmão mais velho. Nas cartas, Marcelino reclamava, por exemplo, de que o auxiliar de enfermagem insistia em tirar o destro (exame para verificar a taxa de glicose) dos dedos da mão direita de dona Maria Thereza, dedos que, segundo o técnico em informática, já estariam muito agredidos. "Aí, eu falei mais sério para ele tirar o destro na mão esquerda, ele (o enfermeiro) me respondeu nervoso ?Você quer vir fazer isso, você quer vir fazer isso??", diz Marcelino na carta. Em outra correspondência, reclama de defeito no ar condicionado da UTI, que teria persistido por 20 dias. "Minha mãe ficava com a cabeça molhada de tanto suor", escreveu. Contesta as órteses (espécie de botas) indicadas pelas fisioterapeutas: "No segundo dia, à noite, quando cheguei para a visita, fui tirar as órteses para passar o creme, notei duas bolhas grandes no pé direito e um machucado feio no tornozelo do lado de fora do pé esquerdo provocados pelas órteses". Questiona, em letras garrafais, o uso de noradrenalina para manter a pressão: "Até quando minha mãe vai ter que ficar na UTI dependendo desta droga??????". Reclama de "médicos negligentes e sem sensibilidade com familiares dos pacientes".No apartamento em que mãe e filho viviam, a família encontrou, ao lado de pilhas de exames lacrados, a maioria radiografias do tórax, uma outra pilha menor, do próprio Marcelino. São tomografias de crânio e ressonâncias magnéticas do encéfalo datadas a partir de 2001 para avaliação de um macroadenoma gigante da hipófise, "um tumor do tamanho de uma alcachofra", compara a irmã Monain. Na época, Marcelino tinha lapsos de memória e movimento comprometido da perna direita. Os médicos optaram pela colocação de uma válvula, para controlar a pressão intracraniana, e por remédios periódicos, para estabilizar ou mesmo reduzir o tamanho do tumor. "Mas nunca mais ele ficou como antes", diz a irmã.Passados cinco meses de internação no Santa Catarina, dona Maria Thereza recebeu alta para internação domiciliar no apartamento em que ela morava com o filho. A Med-Lar assumiu o tratamento e Marcelino voltou a reclamar por escrito de alguns auxiliares de enfermagem. "A minha mãe se alimenta por sonda nasoenteral e a dieta que foi mandada para minha mãe estava estragada", "Outra auxiliar, depois de tirar o destro de minha mãe, verificara que tinha que ministrar 4 unidades de insulina em minha mãe. Ela pegou a seringa e estava enchendo a seringa com 40 unidades. Chamei sua atenção e ela corrigiu a quantidade". Na agenda de Marcelino, ao lado de marcações profissionais como HD120, Cooler 775, gabinete e mouse óptico, um pedido de perdão: "Eu reconheço que fui grosseiro, mal-educado e estúpido, peço desculpas de coração". Numa das cartas à Med-Lar, outra ressalva: "Algumas vezes interferi em algumas situações de ordens médicas prescritas, é que percebi no auxiliar que iria fazer aquilo não possuir conhecimento nem condições para tanto. Até minha mãe apresentar essa doença séria, eu é que cuidava dela, dava os remédios a ela, dava banho, dava comida e dava muita atenção a ela, criou-se um laço muito forte entre ela e eu". Por um problema com a sonda, dona Maria Thereza voltou para o hospital, desta vez para a UTI do Nove de Julho, onde faleceu depois de 33 dias. O filho voltou a criticar os tratamentos prestados e chegou a fazer um B.O. em que se alega "indignado, pois está percebendo que não estão realizando os procedimentos corretos no tocante à higiene, pois não trocam o travesseiro e o cordão que segura a sonda, o que deveria ser feito diariamente". O declarante ainda refere "que tentou conversar com médicos e funcionários do hospital, inclusive da diretoria, para explicar o caso, mas não tem conseguido nenhum retorno". O diretor técnico do Hospital Nove de Julho, Sérgio Lomelino, afirma que mais de uma vez recebeu Marcelino para lhe garantir que as queixas e observações dele estavam sendo levadas em conta. "Mas ele possui uma personalidade peculiar, capaz de perceber detalhes, e questionava esses detalhes do ponto de vista do cuidado extremamente carinhoso que estava habituado a oferecer para a mãe. Só que um hospital trabalha em cima de procedimentos, tem toda uma segurança estabelecida, e você procura se ater àquilo". Já o Hospital Santa Catarina declara que "o filho da paciente teve a oportunidade de relatar suas insatisfações pessoalmente junto ao Hospital, ocasião em que foi constatado que suas reclamações eram improcedentes", ressaltando que o auxiliar de enfermagem Luciano Luiz Martins, que está no hospital desde 2002, "tem ótimas referências e sempre foi alvo de opiniões muito positivas, tanto de colegas de trabalho quanto de pacientes e familiares". A Med-Lar não quis se manifestar a respeito, mas uma de suas auxiliares de enfermagem, Maria José Ferreira, sim. Quando deu plantão no apartamento de Marcelino durante o home care, tem em mente o técnico passando montantes de roupa de dona Maria Thereza noite afora, dando banho na mãe, comprando perfume importado para ela quando todos já assumiam que não viveria muito mais. "Quem dera meus dois filhos tivessem um terço de toda essa dedicação." Poucos dias depois da morte de dona Maria Thereza, Marcelino deu a Maria José os medicamentos que ainda estavam na validade e linhas que a mãe usava para bordar. No fim de semana foi ao cemitério levar flores e acender velas. Na última segunda, por volta das 11h, disse a Monain por telefone que, como prometido, iria à imobiliária providenciar o aluguel de outro apartamento. Ao meio-dia seu celular não respondia mais.

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