Túmulos, Oriente Médio e diplomacia

A postura do presidente Lula de se projetar como líder global tem fraca sustentação na efetiva capacidade geopolítica brasileira

Bernardo Sorj*

20 de março de 2010 | 11h57

O Brasil deverá ocupar um lugar crescente na política internacional. A perda da capacidade dos EUA de manter a ordem mundial leva países emergentes, em particular o Brasil, na América Latina, a África do Sul, entre os países vizinhos, e a Índia, no Sul da Ásia, a terem que assumir a responsabilidade de manter a ordem regional. Sem mencionar a China, cujo poderio econômico a coloca na categoria de ator global.

 

Ser um ator efetivo na manutenção da ordem internacional apresenta enormes exigências. O que está em jogo são conflitos geopolíticos nos quais as posições não são facilmente reconciliáveis, já que atingem interesses nacionais e/ou ideologias de governos ou regimes políticos. Intervir na política internacional exige músculos econômicos e militares, além do bom uso de recursos simbólicos. Se aumenta o espaço de autonomia da ação do Brasil, também aumenta sua responsabilidade e os custos associados a ser um ator na esfera internacional.

 

Trata-se de uma situação que exige rever os fundamentos da política externa brasileira. Enquanto os EUA mantiveram uma ordem global unipolar, a ação do Brasil podia focalizar a promoção de seus interesses comerciais, limitando-se o governo a declarações sobre a necessidade de que a ordem internacional respeitasse certos princípios gerais. Já os partidos políticos de esquerda podiam criticar a política externa americana sempre que possível, sem consequências práticas. Não é mais assim.

 

Um elemento central de uma nova política externa é a negociação com os EUA, de forma que esse país leve em conta a opinião dos parceiros e não imponha sua agenda. É preciso também reconhecer o papel dos EUA e seus interesses estratégicos, que refletem suas prioridades nacionais, mas também os de uma ordem internacional que interessa aos países democráticos.

 

Não é possível promover, como fez o Brasil de Lula, um modelo econômico capitalista, sustentado na segurança jurídica e no livre comércio, e deixar que na política exterior ocupe amplo espaço a ala mais ideológica do principal partido da base governista, ainda aferrada a uma visão de mundo ultrapassada. O fato de a política externa ser conduzida por um ministério que pouco interessa aos partidos, pois não distribui cargos e possui orçamento limitado, não impede que ganhe feições ideológicas, quando deveria responder aos interesses.

 

A política externa deve projetar internacionalmente os interesses econômicos e os valores que sustentam a sociedade brasileira, cujas bases transcendem os interesses dos governos de ocasião. Tais bases foram construídas pelo Itamaraty, mas também pela tradição política latino-americana, e se sustentam no respeito à soberania. A integração econômica promovida pela globalização do comércio e das empresas da região e a experiência nefasta com regimes ditatoriais levaram a defesa da democracia e a segurança jurídica nas relações comerciais a se tornar elementos centrais na agenda da política externa brasileira.

 

A postura do presidente de se projetar como líder global tem fraca sustentação na efetiva capacidade geopolítica brasileira. A vontade de mobilizar seu prestígio interno e internacional pode ser feita pela promoção da imagem do Brasil como país que valoriza a solução pacífica de conflitos. Mas querer aplicá-la a situações complexas que tocam interesses estratégicos em lugares onde nossa influência é pequena ou nenhuma deve ser feita com cautela.

 

A disposição de dialogar com todas as partes expressa os interesses e a cultura de nosso país, mas deve ser calibrada com os interesses geopolíticos envolvidos. Oferecer uma plataforma para o presidente do Irã, principal fonte de instabilidade no Oriente Médio, certamente não promoverá o interesse do Brasil em ocupar uma vaga no Conselho de Segurança da ONU, pois fere os interesses estratégicos dos EUA, da Europa e de boa parte do mundo árabe.

 

A visita a Israel e à Autoridade Palestina feita pelo presidente deve ser saudada. Sua mensagem de paz e de busca de uma solução pacífica pela criação de um Estado palestino, incluindo críticas à política israelense nos territórios ocupados, é legítima. Infelizmente, sua visita foi ofuscada pela notícia de que se recusou a colocar uma oferenda de flores no túmulo do patriarca do Estado de Israel, Theodor Herzl. A notícia, da forma que foi veiculada, é errada e injusta: essa atividade não tinha sido acertada pelo cerimonial de ambos os países e, quando proposta, a equipe do presidente brasileiro avaliou que não devia ser incluída, pois não tinha precedentes. De fato, a visita ao túmulo de Herzl havia sido eliminada do circuito protocolar de dignitários estrangeiros desde 1994, e só foi reintroduzida há poucas semanas, para comemorar o 150º aniversario de seu nascimento.

 

O presidente visitou vários lugares que simbolizam o Estado de Israel, inclusive as terras do Fundo Nacional de Israel, onde plantou uma árvore, e o monumento ao Holocausto. Seu discurso foi ovacionado no Parlamento de Israel e sua comitiva avançou uma agenda de cooperação comercial entre este e o Brasil. Mas a política externa não pode ser dissociada das realidades internas, e o ministro de exterior de Israel, Avigdor Lieberman, um político de extrema direita, aproveitou a oportunidade para montar um circo de denúncias à "atitude" do presidente Lula. Infelizmente, a imprensa e grupos associados a interesses menores, no lugar de criticar a atitude de Lieberman, que inclusive foi recebido em Brasília, apesar de vozes de oposição de seu próprio partido, fizeram eco de uma versão que distorcia o sentido dos fatos.

 

O cerimonial do presidente errou quando não avaliou as consequências de não aceitar a inclusão da visita ao túmulo de Herzl, mais ainda quando estava incluída na programação a visita ao túmulo de Arafat - o que permitia uma leitura que podia ser explorada politicamente, como aconteceu. Política externa exige enorme prudência, conhecimento de causa e pessoal qualificado, com flexibilidade para enfrentar situações inesperadas e capacidade de julgar as consequências das decisões tomadas.

 

*BERNARDO SORJ É PROFESSOR DE SOCIOLOGIA DA UFRJ, DIRETOR DO CENTRO EDELSTEIN

Tudo o que sabemos sobre:
AliásOriente Médio

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.