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Sérgio Augusto
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Ufanistas, uni-vos

Tudo começou com a primeira carta enviada daqui para Portugal. Em nossa terra prodigiosa, diferentemente da Europa, em se plantando, tudo dava, prometeu o escrivão de Cabral.

SÉRGIO AUGUSTO, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2014 | 02h10

Essa e outras hipérboles se multiplicaram pelos relatos dos demais viajantes estrangeiros do século 16, que foram os precursores de ufanistas nativos, como Gonçalves Dias (para quem nosso céu tinha mais estrelas, nossas várzeas, mais flores, nossos bosques, mais vida, afora as palmeiras e o canto dos sabiás) e o conde Affonso Celso (que relacionou 11 evidências da superioridade do Brasil sobre o resto do planeta). Sem contar os adventícios do século 20.

Motivado pelo encanto que lhe haviam despertado os papagaios e macaquinhos amazonenses do zoológico de Viena, o austríaco Stefan Zweig visitou o país em 1936 e voltou para casa prometendo que seria o "camelô do Brasil" na Europa. Cinco anos depois, já estabelecido na Serra de Petrópolis, arriscou proclamar num livro que o Brasil era "o país do futuro". E nunca mais nos livramos desse epíteto, visto por muitos (inclusive Renato Russo) como um carma, um fardo, uma involuntária maldição.

O futuro nos sorria porque, entre outras dádivas, tínhamos espaço de sobra, riquezas em cima e embaixo do solo, clima variado, uma língua em comum, convivíamos harmoniosamente com todas as raças e crenças, com os vizinhos e as forças da natureza. Ou seja, graças à mesma conjunção de atributos que levara Affonso Celso a ufanar-se de seu país - acrescidos de outros, cujo prazo de validade teórica, pelo visto, ainda não se esgotou.

Ufanistas do Oiapoque ao Chuí, uni-vos. O espectro de um novo Stefan Zweig ronda as livrarias. Nada tendes a perder a não ser o vosso complexo de vira-lata. O futuro já chegou e o Brasil é seu mais invejável paradigma, eis o que em síntese proclama, agora, outro europeu, o italiano Domenico De Masi, num livro (O Futuro Chegou - Modelos de Vida para uma Sociedade Desorientada) prestes a ser lançado entre nós.

Com mais vivência de Brasil que Zweig, pois volta e meia nos visita e brinda com palestras, De Masi não precisou fugir de seu país, como o escritor austríaco, perseguido pelo nazismo, nem se estabelecer nestas bandas, mas aqui também aportou desiludido com os rumos que seu mundo (leia-se a sociedade pós-industrial) tomou.

Embora nunca tenha conhecido tanto conforto, progresso, tanto acesso a tudo, o mundo atual é infeliz, vive imerso em crises, desanimado por decepções financeiras, com ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres, a vida comunitária desagregada, os contatos interpessoais debilitados pelo mau uso das novas tecnologias - e o que mais possa ser acrescido a esse rosário de desilusões. PIB? Irrelevante.

"A riqueza, sobretudo se mal produzida e mal distribuída, em vez de criar a sensação de bem-estar em quem a possui, provoca rancor e ressentimento nos pobres", acentua De Masi, de algum modo explicando, antecipadamente, o fenômeno do rolezinho, nossa resposta ao jeito Dubai de ser, segregar e consumir em shopping.

Mas se o rolezinho, como o petróleo, é nosso (mas não exclusivamente nosso, como a jabuticaba), o que faz do Brasil, com sua provisória Bastilha de butiques, o paradigma de um futuro já presente?

É o que De Masi tenta explicar nas 90 páginas que em seu livro (de quase 800) dedicou ao País. O Brasil, afirma, "não é o melhor dos mundos possíveis, mas é o melhor dos mundos existentes". De cópia do modelo europeu (durante 450 anos) e do americano (durante 50), passamos a representar, aos olhos do sociólogo, um modelo de onde será possível "colher elementos fundamentais para propor orientações de desenvolvimento mais humano", em contraponto "à racionalização total pregada pelos economistas que determinam em grande parte a estratégia política mundial".

Por quê? Porque optamos "por parâmetros certos", pelo primado da qualidade de vida, sem nenhum tipo de segregação religiosa ou racial.

"O modelo de vida brasileiro, apesar de assolado pela violência, pela escandalosa desigualdade entre ricos e pobres, pela corrupção, pela carência de infraestrutura, pelo analfabetismo, cultiva uma concepção poética, alegre, sensual e solidária da vida, uma propensão à amizade e à solidariedade, um comportamento aberto à cordialidade", enaltece De Masi.

Apóstolo do ócio criativo (trabalhar menos, ser mais criativo no lazer, reduzir as compras), De Masi forma com Umberto Eco, Giorgio Agamben e Toni Negri a badaladíssima trindade da intelectualidade italiana. É um TED ambulante, uma centrífuga de ideias estimulantes, antes esboçadas ou mesmo aprofundadas por outros pensadores.

Sêneca, Montaigne, Paul Lafargue e outros já haviam discutido e se batido pelo ócio criativo; a proposta de "novos tipos de cidadanias correspondentes a outros direitos humanos universais" teve no britânico John Urry seu mais original formulador; salvo engano, foi o filósofo e economista francês Serge Latouche quem melhor refletiu sobre a "economia da felicidade", radicalmente oposta ao atual modelo de vida baseado no consumismo desvairado, no "desperdício suicida", visando a retomar "um projeto inspirado na sólida, serena sobriedade essencial".

De Masi os sintetiza muito bem. Se também for bom de profecia, os rolezinhos estão com seus dias contados.

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