K.K. Ottesen/The Washington Post
K.K. Ottesen/The Washington Post

Última lenda do blues, Buddy Guy relembra o começo da carreira

'Minhas duas ex-mulheres falaram: 'Eu ou a guitarra'. Peguei a guitarra e fui embora'

K.K. Ottesen, The Washington Post

22 de fevereiro de 2020 | 16h00

Buddy Guy, 83 anos, é guitarrista e cantor de blues. Vencedor do Grammy, faz mais de 130 shows por ano, incluindo uma temporada no seu clube de blues de Chicago, o Buddy Guy’s Legends. Nesta entrevista, ele fala sobre o início de sua carreira e sobre o ato de tocar guitarra.

As pessoas dizem que você é o último grande bluesman. O que acha disso? Já tentou ajudar as gerações mais jovens a levar o blues adiante?

Bom, esta é a minha grande preocupação agora. Vou lançar um álbum novo ainda este ano, e o Bobby Rush cantou uma música comigo. A gente estava batendo papo e aí ele disse: “Sabe, eu e você somos os dois últimos caras de blues que ainda estão tentando seguir adiante”. As coisas não são mais como eram quando vim para Chicago, 63 anos atrás. Tudo estava bem aberto naquela época, mas você tinha que provar que era bom. Você entrava num clubinho de blues e alguém ali podia prestar atenção em você. O boca a boca funcionava e, no dia seguinte, você podia ir para um clube maior. Então o Muddy Waters falava: “Quem é esse cara?”. E o Howlin’ Wolf, o Little Walter também. Esses clubes não existem mais. Então, sempre que vejo alguém que acho que tem talento, dou uma chance para aparecer e tocar comigo. Tem esse rapaz do Mississippi, o Kingfish (Christone Ingram). Fui lá ver esse cara tocar e falei: “Traga esse menino para o estúdio, vou pagar pelo álbum”. Agora ele está na lista do Grammy. Antes dele, eu também descobri um menino em New Bedford, Massachusetts, o Quinn Sullivan.

Você se lembra de quando alguém o ouviu pela primeira vez e lhe deu uma chance?

Quando vim para Chicago, eu sabia tocar, mas não achava que era bom o suficiente, porque tinha um monte de grandes guitarristas aqui. Ficava quase com vergonha de tocar. Mas um cara me convenceu. Em New Orleans, havia um grande guitarrista chamado Guitar Slim. Ele chamava atenção porque, enquanto tocava, ficava pulando e correndo pelo palco. Tinha um cabo de uns trinta metros. Quando o vi pela primeira vez, falei: “Oh, meu Deus, quero aprender a tocar que nem o B.B. King, mas quero me apresentar que nem o Guitar Slim”. Então, quando me chamaram – foi o finado Otis Rush quem chamou e eu pulei no bar. Então, alguém disse: “Trouxeram um carinha selvagem lá da Louisiana”.

Você viveu muitos momentos grandiosos. Qual foi o mais emocionante?

Quando B.B. King me pediu para subir e tocar junto com ele, e também quando o Muddy Waters me pediu para tocar junto dele. Falei: “Quer que eu toque com você?”. O Muddy Waters e esses caras todos me acolheram. Devo tudo a eles. Quando descobriram que eu conseguia tocar no ritmo do Muddy e tudo mais, me pediram para gravar um disco com eles. Então vou para o estúdio e eles falam: “Beleza, um, dois, três, gravando”. E logo depois: “Não, corta, corta, espere aí, corta!”. Eu não estava tocando alto o bastante. Aí, lá da sala de som eles falaram “ei, seu filho da p...”. Bom, eu não sabia que era assim que as pessoas falavam no estúdio, então não falei nada, fiquei na minha. Aí um cara sai da salinha, me dá um soco no ombro e fala: “Estou falando com você, seu... Aumente o som da guitarra. A gente quer ouvir você. Foi por isso que a gente chamou”. Nessa hora, eu fiquei meio ofendido e respondi: “Achei que meu nome era Buddy”. Nos meses seguintes, eles só me chamavam xingando (risos). Meu grande salto foi quando Eric Clapton me convidou para tocar no Royal Albert Hall. Acho que foi em 1989. Foi aí que assinei contrato com a gravadora e consegui meu primeiro disco de ouro. Escrevi uma música chamada Damn Right, I’ve got the Blues. Depois disso explodi. Parei de viajar de furgão pelo país – era meu próprio motorista, meu próprio empresário – e comecei a me apresentar em casas de shows e a ser convidado para tocar para grandes plateias ao ar livre, como no New Orleans Jazz Festival.

Você toca guitarra há muitos anos. Tem alguma emoção que não conseguiu expressar com ela?

Tem muita coisa. Coisas que ouço na guitarra dos outros, até mesmo dos mais jovens – esses dois garotos de quem falei, Quinn Sullivan e Kingfish. Quero dizer, estou brincando com essa guitarra há uns 60 anos e ainda não consegui tocar o que esses caras tocam (risos).

Aí você continua tentando?

Continuo. Quanto mais velho você fica, menos memória tem. Mas eu tento guardar as coisas. E, você sabe, vou tentando encontrar meu som e, de repente, escuto uma coisa boa. Mas não era o que estava procurando. E fico meio surpreso, do tipo: “O que foi que eu fiz?”. Se estivesse lendo uma partitura, provavelmente não seria assim, porque aí saberia por onde ir. Mas, tocando de ouvido, você fica se perguntando: “O que vem depois dessa nota?”. E você continua tentando, tentando, tentando. Até que, de repente, você toca uma coisa e diz: “Oh, agora ficou muito bom”. Como se você estivesse procurando uma moeda de 10 centavos e de repente encontrasse uma de 25. O Foo Fighters (Dave Grohl) me ouviu dizer alguma coisa assim e fez uma música sobre isso.

Você dá conselhos para os outros guitarristas?

Guitarristas muito melhores do que eu vêm e me perguntam: “O que eu preciso fazer, Buddy?”. E eu respondo: “Não tenho a menor ideia”. Eu nunca desisti, só isso. Dirigia caminhão de dia e tocava guitarra à noite. Às vezes ganhava dois, três dólares por noite. Minhas duas ex-mulheres falaram: “Eu ou a guitarra”. Peguei a guitarra e fui embora. E agora somos melhores amigos. Mas eu amava o que estava fazendo e não queria que ninguém me impedisse de tocar. Realmente queria fazer carreira na música, como fiz. Mas você não sabe se vai dar certo. Você pode se arrebentar de tocar, mas, se não estiver no lugar certo na hora certa para as pessoas certas ouvirem seu som... nunca se sabe. Eu me lembro de uma noite, estava tocando, acho que não tinha mais que sete pessoas no lugar. Eu não estava com vontade de tocar. Estava me sentindo mal. Aí falei: “Bom, não quero que vocês me paguem nada, porque eu sei que vocês não ganham bem”. Acontece que um dos caras na plateia era o Dick Waterman, namorado da Bonnie Raitt, veio me ver porque tinha ouvido falar de mim. Ele me procurou no dia seguinte e disse: “Estive no clube ontem à noite. Quanto você ganha para dirigir este caminhão durante o dia? Vou fazer um cheque pré-datado e cobrir o que você ganha, para você largar o caminhão e só tocar guitarra”.

Você disse que nunca fez um álbum de que gostou. É um bom sinal, não é?

Não sei. Realmente, não sei como responder a essa pergunta. Herdei isso do B.B. King. Porque, se você canta, ou toca, ou faz qualquer outra coisa, muito raramente fica feliz com o que faz. Mas, se alguém vem e diz: “Cara, isso é muito bom”, você fica se sentindo um pouco melhor. Algumas noites, vou lá, toco e falo: “Cara, hoje eu detonei”. Aí vem alguém e diz: “Você não estava muito bem ontem à noite”. Então tudo vira ao contrário e digo: “Meu Deus, não toquei nada ontem à noite”. Aí vem outra pessoa e diz: “Cara, você estava arrasando”. Acho que é isso que me faz continuar. Você nunca sabe quando alguém vai elogiar. Porque, se você está sempre bem, o que vai almejar? / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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