Último dos românticos, Heinrich Heine tem novela traduzida

Último dos românticos, Heinrich Heine tem novela traduzida

'Noites Florentinas' se centra no libertino Maximilian e critica o culto à arte e o fetichismo dos salões europeus

Rodrigo Petronio*, Especial para O Estado de S. Paulo

07 Abril 2018 | 16h00

Quando um jornalista perguntou como fora seu encontro com Goethe, Heinrich Heine (1797-1856) teria respondido: “A cerveja de Weimar é muito boa”. Essa e outras anedotas atribuídas ao grande poeta de Atta Troll (1844) o colocam como expoente de um fenômeno mais amplo: o combate judaico contra o proselitismo da cultura europeia dominante. Um protagonista da luta eterna entre o pequeno Davi contra o gigante Golias. Heine foi um dos grandes cínicos, descrito por Sloterdijk como um Diógenes circuncidado. 

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Filho de comerciantes de Düsseldorf e financiado durante muito tempo pelo tio Salomon, banqueiro de Hamburgo, Heine desde cedo detectou o exclusivismo dos círculos intelectuais. E o tratamento diferenciado dado pela alta cultura europeia aos judeus. Por esse motivo, adentrou os estudos de história judaica na Universidade de Göttingen, onde se doutorou. E concentrou sua artilharia sobre a falsidade da vida intelectual, chegando a propor duelos e a envolver-se em brigas que iam às vias de fato. Como poeta, conseguiu decantar um lirismo de simplicidade e sublimidade singulares que se tornou uma referência da poesia de língua alemã. 

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A cuidadosa edição da novela Noites Florentinas (1836), levada a cabo pela Carambaia e com excelentes tradução, posfácio e cronologia do escritor Marcelo Backes, iluminam outros aspectos dessa obra multifacetada: o erotismo, a ironia e a estrutura ficcional. Em torno de um enredo quase inexistente, a novela se concentra em Maximilian, libertino que se hospeda no quarto da amiga Maria, gravemente enferma, para lhe contar histórias, quase todas entre o picante, o estranho e o obsceno. Detalhe: Maximilian é pigmaliônico (tem desejo sexual por estátuas). E essa é a condição instaurada por Heine para fazer uma humorada crítica ao culto à arte, ao mito da Itália como berço da cultura, aos costumes (os ingleses e franceses são achincalhados) e ao fetichismo dos salões e dos intelectuais. 

O grotesco também compõe diversas cenas e figuras dessa alcova imaginária. Entre relatos eróticos e humor sardônico, a trupe dos aventureiros liderada por Maximilian conta com monsieur Türlütü, um anão de cara velha e corpinho infantil, que canta como um galo e se une a mademoiselle Laurence. Ambos seguem o ritmo de madame Mãe, ao som de um triângulo e de um imenso tambor.

Entre o festivo e o escárnio, Heine situa no centro de seu universo mental personagens que seriam considerados secundários em qualquer obra canônica. Os pronomes de tratamento reforçam o recurso à caricatura. Esta gera uma estranha ambiguidade. Enquanto todas as narrativas são alimentadas por referências à música, às artes visuais e à literatura, um subtexto grotesco relativiza e desloca o valor estabilizado desses signos. As referências misóginas presentes no texto precisam nesse sentido ser compreendidas dentro da especificidade desse estranho narrador em primeira pessoa, uma mescla de Tristram Shandy e Casanova.

Não por acaso, essa mescla de gêneros, essa oscilação entre sublime e grotesco e essa atitude irônica e negativa diante da arte e da vida, situam Heine, ao lado de Kleist, como um importante desbravador de caminhos da literatura moderna e uma referência para os expressionistas do começo do século 20. Diante dessa natureza polêmica e beligerante, Heine sofreu ameaças de prisão, a ponto de ter que deixar a Alemanha. Morreu em Paris depois de oito longos anos na cama em agonia, talvez em decorrência da sífilis. Em Os Deuses no Exílio (1854), o poeta parte de uma premissa interessante. A tradição judaico-cristã, ao conceber um Deus transcendente, teria esvaziado a natureza de deuses. A concepção é semelhante ao que Hölderlin define como a grande “noite dos deuses”.

Contudo, diferente de Hölderlin, de Goethe, de Schiller, de Schelling, de Hegel, dos irmãos Schlegel e de todos os românticos e idealistas alemães, o judeu Heine não viveu esse exílio como conceito. Viveu-o na própria carne. Assemelha-se mais a um fauno exilado da cultura europeia do que a um representante da idealização, cristã e apolínea, de uma Grécia que nunca existiu. Backes nos lembra da brilhante e reveladora intuição de Adorno: falar de Heine é falar de uma ferida. A obra de Heine é o testemunho dessa ferida que, sublimada em arte, sobrevive à exclusão e consegue por fim dominar o seu dominador. 

*Rodrigo Petronio é escritor e filósofo, doutor em literatura comparada (Uerj) e professor titular da Faap 

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