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Último romance de Thomas Bernhard replica desprezo do autor pela cultura austríaca

'Mestres Antigos' acompanha um proeminente crítico musical que, por 30 anos, se senta todos os dias diante de um quadro de Tintoretto em Viena

Paulo Nogueira*, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2021 | 15h00

Não devemos confundir criador e criatura: maior escritor austríaco desde o pós-guerra, Thomas Bernhard pessoalmente era um mala e um capeta – mas em suas obras virava um arcanjo (mais precisamente, Lúcifer). Morreu em 1989, aos 67 anos, por meio de suicídio assistido. No testamento incluiu uma cláusula famosa: após a sua morte, enquanto ainda fossem válidos seus direitos autorais, nada do que escrevera poderia ser publicado ou encenado na Áustria. Aliás, quando Bernhard esticou as canelas, quase deu para ouvir um suspiro de alívio percorrendo sua pátria. No passado ou no presente (nem o clássico Grillparzer nem Musil), nenhum autor austríaco tinha esculachado seus concidadãos como ele. 

Apenas três gatos-pingados compareceram ao funeral. Kurt Waldeheim, duas vezes secretário-geral da ONU e presidente da Áustria, rosnou: “Os textos de Bernhard são um insulto aos austríacos”. Pena que deu ruim para Waldeheim, quando o New York Times desmascarou seu passado nazista, membro das S.A. e da Wehrmacht. Ops. No fundo, rolava um amor/ódio nas duas partes: Bernhard embolsou os prêmios literários mais badalados da Áustria, e suas peças foram encenadas no Teatro Nacional, em Viena. A questão é que ele não largava o osso do legado nazista no país, que a esmagadora maioria queria esquecer o mais depressa possível. Foi um forrobodó a estreia da peça de Bernhard, Heldenplatz, escolhida para assinalar os 50 anos do Anschluss (a anexação da Áustria por Hitler). Jorg Haider, presidente do Partido da Liberdade, de extrema-direita, e então com chances de ser primeiro-ministro, exigiu que Bernhard fosse expulso do país, por causa de uma fala da peça: “Todos os austríacos são nazistas”.

Bernhard vivia numa fazenda sem telefone e não recebia ninguém – nem seus tradutores. A correspondência ia intacta para o lixo. A relação de um quarto de século com o icônico Siegfried Unseld, da prestigiosa editora alemã Suhrkamp (de Hesse, Benjamin, Brecht, Adorno, Habermas, etc), foi tempestuosa. Logo no primeiro encontro, com o editor gripado, de cama e febre de 40 graus, o autor exigiu 40 mil marcos para comprar a tal fazenda: “Mil marcos para cada grau da sua febre”. Unseld bancou Bernhard nos processos que este sofreu, e o defendeu quando foi achincalhado por um colega austríaco e futuro Nobel, Peter Handke. A Suhrkamp publicou quase todo a obra de Bernhard, exceto a autobiografia, que confiou a outra editora. A amargura de Bernhard era nível jiló: “Recuso o fardo humano de uma esposa, uma família, três filhos, divórcio, um Estado, uma empresa, seguro, um chefe”. Dava-se com o sobrinho do filósofo Wittgenstein, Paul, que vivia internado em manicômios e sobre o qual escreveu um romance: “Ele foi subjugado pela sua insanidade, e eu controlei e aproveitei a minha”. O autor tinha Toc, e evitava andar de bonde porque não conseguia parar de contar cada janela à medida que elas desfilavam lá fora. 

Todos os romances de Bernhard são iguais, mas alguns são melhores do que os outros. Ele dispensa parágrafos e capítulos (Mestres Antigos consiste num parágrafo de 200 páginas), com frases quilométricas, que se enredam como heras verbais, e são repetitivas mas hipnóticas, de um humor sardônico. Os protagonistas são intelectuais ou artistas, e os narradores monologam sobre outro personagem. O ritmo é quase catatônico. Em O Náufrago, o narrador leva 114 páginas só para transpor uma porta. Em Árvores Abatidas, o protagonista medita numa cadeira durante 98 páginas. Paradoxalmente, as histórias são tensas e imersivas. 

Em Mestres Antigos, a última obra de Bernhard, o narrador e filósofo Atzbacher relata a vida de Reger, um proeminente crítico musical de 82 anos. Por mais de trinta anos, a cada dois dias e durante quatro horas por manhã, Reger se sentou no mesmo banco diante do quadro O Homem de Barba Branca, de Tintoretto, no Museu de Arte Histórica, em Viena. E é pajeado por um funcionário do museu, Irrsigler, que lhe garante a privacidade. 

Pela primeira vez, Reger pede a Atzbacher que o encontre no museu, às 11h30, mas ambos chegam cedo, e as primeiras 170 páginas consistem nas ruminações do narrador, enquanto ele observa disfarçadamente o amigo. Os paralelismos autobiográficos são numerosos. Por exemplo, Atzbacher evoca o desprezo do crítico por vários aspectos das sociedades austríaca e alemã, incluindo Beethoven e Heidegger. E o luto de Reger pela perda recente da esposa, um avatar de Hedwig Stavianicek, a mulher com quem Thomas Bernhard (quarenta anos mais jovem que ela) às vezes morava e que foi para ele uma espécie de mãe e amante. 

Os momentos de ternura, embora sinceros e viscerais, são fulgores efêmeros. “Não importa quantos grandes espíritos e mestres antigos tenhamos adotado como companheiros, eles não podem substituir ninguém. No final somos abandonados por todos, e ridicularizados da forma mais cruel.”

O pobre Samuel Beckett, com quem Bernhard é comparado, teve palavras retiradas do contexto e abastardadas como mantra de autoajuda: “Sempre tente. Sempre falhe. Não faz mal. Tente de novo. Falhe de novo. Falhe melhor”. Com Bernhard, tal plastificação seria impossível: no universo dele, não existe falha melhor – são todas funestas. A esperança não é a última que morre, mas a primeira (ou, mais precisamente, uma natimorta). A única alegria da existência é a Schadenfreude (o consolo no infortúnio alheio). E aí sim podemos invocar o autor de Esperando Godot: “A vida é uma série de dias sempre iguais, e um mais curto”. Não, Thomas Bernhard não é para frouxos, mas nós, leitores brasileiros, estamos prontinhos para ele: exímios em sofrência, depois de tantas coisas do Coiso. 

É AUTOR DE ‘O AMOR É UM LUGAR COMUM’ (INTERMEIOS) 

 

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