Ary Brandi Produção
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Um, nenhum, cem mil

O autor de 'Navalha na Carne' teria completado 80 anos na última terça-feira. Que falta faz seu deboche nestes tempos bicudos

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2015 | 16h00

Plínio Marcos, quem diria, teria feito 80 anos dia 29 de setembro. Mas ele se foi muito antes, em 19 de novembro de 1999, quando tinha 64 anos. Encontrei-o um dia, no Cinesesc, e perguntei como ia. Debochado, como sempre, respondeu: “A mulher deu jeito em mim. Aburguesei-me. Até casa própria eu tenho”. Pouco depois, morreu. 

A autogozação era uma constante nesse santista, nascido no bairro do Macuco, em 1935. De família não propriamente pobre, mas de classe média baixa, Plínio cursou até a 4ª série do primário. Fez de tudo para buscar a sobrevivência. Foi camelô, funileiro, jogador de futebol da Portuguesa Santista, estivador e até palhaço de circo. “Até”, não. Abençoado circo, que lhe desenvolveu a veia cômica e o preparou para o teatro, sua verdadeira vocação. 

Com a primeira peça escrita, Barrela (1958), Plínio tornou-se uma celebridade local. Muito por causa da amizade com Patrícia Galvão, a Pagu, musa do modernismo, que então (anos 1950) pilotava uma influente coluna no jornal A Tribuna. Pagu incensou Plínio por causa de Barrela, mas depois fez com que o jovem autor provasse do fel da crítica ao desancá-lo por sua segunda peça, Os Fantoches. Sem muitos rodeios (ninguém é ex-mulher de Oswald de Andrade impunemente), Pagu simplesmente escreveu que Plínio Marcos não tinha estatura intelectual para escrever a tal peça. Assim, na lata, e no papel impresso. O mundo de Plínio ruiu. De gênio, virou uma besta. Riam dele em Santos, a família envergonhava-se. Dias depois, os dois se encontraram num bar, altercaram-se, insultaram-se e, por fim, emborcaram o porre da reconciliação, continuando amigos até a morte de Pagu, em 1962. 

À esta altura, Plínio já havia subido a Serra do Mar e se estabelecido em São Paulo, onde passou a ganhar a vida como camelô. Mas se aproximou de grupos teatrais, do Arena, em especial, e tornou-se faz-tudo e administrador do teatro. Dormia lá mesmo, ou em casa de amigos, ou de namoradas ou onde pudesse. Como fazia de tudo, também produziu textos para televisão, a TV de Vanguarda, da TV Tupi. Naquele tempo, havia o teleteatro, muito popular na classe média que começava a adquirir seus aparelhos em preto e branco. Assistia-se ao Teatro de Vanguarda e ao Teatro de Comédia, alternando-se lágrimas e risos. 

Dividindo-se em várias atividades para ganhar o pão, conversando muito, lendo e pensando, Plínio preparava o grande salto, talvez sem mesmo sabê-lo ou ambicioná-lo. Ele veio sob a forma de Dois Perdidos Numa Noite Suja (1966), o formidável encontro de dois desvalidos, Tonho e Paco, que se entredevoram. A crueza da situação, a linguagem coloquial, os palavrões, a absoluta falta de autocomplacência faziam entrever algo novo no teatro brasileiro. O curioso é que a peça se inspira num conto de Alberto Moravia, O Terror de Roma, mas está longe de ser uma “adaptação”. Foi como um sopro longínquo, que Plínio recolheu e recriou de outra forma. Como se vê, a fama de intuitivo e ignorante deve ser relativizada. 

No ano seguinte, outro escândalo e outro sucesso - Navalha na Carne, também uma dinamite minimalista escrita em três dias, e com apenas três personagens - a prostituta Neusa Suely, o cafetão Vado e o homossexual Veludo.

O fato é que Plínio, com essas duas peças consecutivas, suas duas obras-primas, ocupava espaço um tanto paradoxal no teatro e na cultura brasileira da época. No teatro, porque as peças não podiam ser enquadradas nas vertentes dominantes, nem na vanguarda tropicalista e nem no nacional-popular do Partidão. Não eram inovadoras na forma e nem didático-revolucionárias no conteúdo. Comunicavam-se com a plateia e impactavam. Na cultura, predominantemente de esquerda, porque seus personagens falavam como o povo, mas este, o povo, jamais era idealizado, mesmo porque seu autor o conhecia de perto e não por ouvir falar. 

Quem matou a charada de Plínio Marcos, entre outras, foi Roberto Schwarz, que falou em “floração tardia” a respeito de Dois Perdidos Numa Noite Suja e Navalha na Carne. Vinte anos de democracia haviam cozinhado esse teatro transgressor, maturado em plena ditadura. Foi, como poucos, alvo da censura. Para ficar num exemplo, Barrela, após sua primeira apresentação, ficou proibida por 21 anos.

Como não tinha por onde escapar, Plínio seguiu trabalhando como remador de Ben-Hur. Escreveu em jornais, como Diário da Noite, Folha de S. Paulo, revistas como Veja, Opinião e O Pasquim, entre outras. Produzia muito e dava palestras pelo país, com seu jeitão popular e credibilidade de quem falava o que lhe vinha à cabeça. Continuou a escrever peças e romances, em ritmo vertiginoso. Nelson Rodrigues, de quem era amigo, sem se pouparem de alfinetadas recíprocas, dizia dele em uma crônica: “Sabe-se que Plínio Marcos escreve uma peça por dia”. 

Os nossos anos de chumbo, viram, de certa forma, o esplendor de Plínio Marcos. Não apenas porque neles chegou ao seu ápice criativo, mas porque soube tomar o pulso paradoxal do tempo, sua violência intrínseca e sem remissão, um resto de liberdade pré-AI-5. Plínio, como a maior parte da classe artística não adesista, sofreu na pele esse tempo mau. Mas nele deixou sua marca. Suas obras maiores foram traduzidas em vários idiomas e objetos de estudos e teses acadêmicas, sendo reencenadas periodicamente e adaptadas para o cinema. Nada mal para o rapaz do Macuco.

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