Um ano não tão horribilis

Bem ou mal, Obama melhorou a economia, enquadrou a assistência médica e até acenou para Chávez

Hans Ulrich Gumbrecht, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2009 | 00h09

2009 seguramente não contará como o ano que fez de Barack Obama um evento - tudo se passou antes. Um evento ele foi em 2008, quando venceu as primárias democratas de maneira sensacional contra Hillary Clinton, e depois bateu McCain, quase sem esforço, na corrida pela presidência americana. Talvez a maneira mais apropriada de descrever sua realização única seja dizer que ele deixou um rastro prolongado de eventos desde seu primeiro aparecimento no programa de Oprah Winfrey em 2007 (no qual se tornou uma presença nacional) até sua posse como o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, que, a despeito de ser uma consequência garantida da eleição, ainda foi um fato difícil de acreditar quando ocorreu, sobretudo para nós, americanos.

Ainda lembro do estranho sentimento durante uma viagem de trem de Nova York a Washington no dia da eleição: todos sabíamos que Obama estava fadado a vencer, mas ao mesmo tempo aquilo parecia estranhamente impossível.

Os índices de aprovação nacional do novo presidente atingiram o auge por volta do dia da posse, em janeiro de 2009, quando até uma sólida maioria dos eleitores republicanos registrados achava que Obama seria um excelente líder. É claro que a euforia vinha acompanhada da óbvia previsão de que essa popularidade declinaria - e mesmo pela convicção de que, dada a tensão entre o entusiasmo geral com o novo presidente e os desafios que se lhe colocavam, seria literalmente impossível ele não fracassar. 2009 seria o primeiro ano sob os holofotes nacionais em que Obama não poderia mais depender exclusivamente de novidade, carisma e promessa.

Seus índices sensacionais de aprovação declinaram, considerável, mas não dramaticamente, num processo similar ao que Lula passou após haver conquistado o posto equivalente no Brasil. Além disso, o mundo ocidental fora dos Estados Unidos, que se voltou para uma espécie de ortodoxia pacifista sem dizê-lo, viria descobrir que Obama era muito mais americano, no sentido de mais dependente da força militar como instrumento de política, do que algumas projeções indevidas tentaram fazê-lo parecer.

Assim, o Prêmio Nobel da Paz tornou-se um troféu duplamente problemático: não só porque conduziu à séria questão de se Obama deveria ter ganhado a distinção tão cedo em seu mandato - mas também porque parecia uma tentativa de ligá-lo àquela expectativa pacifista e, com isso, interferir na política americana. Por último, e de certa forma, estranhamente, milhões de intelectuais em todo o mundo parecem ter ficado de fato aliviados - aliviados, não menos! - com a impressão de que a imagem do Obama a um só tempo santo e poderoso que alguns esperaram até janeiro de 2009 se revelou irreal. Essa imagem sempre foi, muito literalmente, boa demais para ser verdade.

Desde então, tornou-se um sinal de bom gosto intelectual referir-se a Obama como um artefato sem estofo da mídia. No entanto, gostaria de insistir em que, a despeito de um inegável declínio, o histórico de seu primeiro "ano normal" me parece muito marcante. Ele foi persistente o bastante (e talvez até afortunado) para produzir sinais lentos, mas coerentes, de recuperação na economia americana. Sua paciência e determinação nos levaram mais perto da possibilidade real de uma reforma nacional da saúde que qualquer outra tentativa com esse objetivo nos últimos 50 anos nos EUA (e um sucesso nesse ponto seria decisivo).

Enquanto isso, Obama surpreendeu a nação e o mundo falando abertamente sobre os próprios erros, e o fez baseado no insight de que as ações políticas, como todas as ações baseadas em julgamento, não vêm sem risco de erro. Ele foi elegante em situações de derrota pública - por exemplo, após a vitória do Rio de Janeiro contra Chicago para sede da Olimpíada de 2016, e se permitiu gestos amistosos, talvez até espontâneos, para alguns protagonistas políticos que se definiram como inimigos dos EUA, como Hugo Chávez. Sua posição no centro do poder político inegavelmente melhorou o clima entre as nações, não decisivamente, mas com efeitos notáveis. E embora o raro talento retórico de Obama seja, de fato, um enorme e permanente evento de mídia, sua honestidade, clareza e charme como orador levaram centenas de milhões a repensar suas posições sobre alguns problemas centrais de nosso tempo.

A verdadeira questão Obama no fim de 2009 não é tanto sobre o próprio Obama. É sobre aquela satisfação muito estranha - para não dizer entusiástica - com que tantas pessoas, fora e dentro dos EUA, estão insistindo em sua desilusão com o nosso não mais tão novo presidente. Há já algum tempo - mais precisamente, desde que participei de um programa na TV alemã durante a noite da eleição americana - tenho a impressão de que a imagem e sucesso de Obama interferem num amplo desejo internacional (e às vezes até americano) de os EUA estarem em forte declínio e perderem sua condição de única superpotência remanescente.

Na Europa, a maioria dos intelectuais parece torcer, curiosamente, para a República Popular da China ascender a esse papel. Embora esse talvez seja o caso, eu acho que nossa única reação óbvia pode ser imaginar o lamentável panorama que isso produziria para o mundo ocidental. Mas há também um temor da classe média em optar por desdobramentos e situações futuras que possam parecer utópicas. Não é fato que nos protegemos contra a decepção e contra a impressão de parecermos ingênuos resistindo em acreditar em qualquer futuro positivo?

Podemos de fato parecer fortemente realistas se insistirmos em que nunca acreditamos na promessa de Obama. Mas o preço é que, com essa atitude, contribuímos para tornar impossível que a promessa de Obama se concretize. Bons políticos sempre dependeram em boa medida de profecias que se auto-concretizam. Seus possíveis talento e carisma, honestidade e inteligência, só se tornarão eficazes se nós cidadãos acreditarmos e repercutirmos a esperança que possam se produzir. O futuro político de Obama depende, pois, de nós - e boa parte do mundo contemporâneo só poderia lucrar com o seu sucesso.

Hans Ulrich Gumbrecht, Professor de literatura na Universidade de Stanford e autor de Elogio da Beleza Atlética (Cia. das Letras)

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